Lucy (2014)

Por André Dick

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É cada vez mais difícil encontrar filmes que conseguem mesclar uma pretensa realidade com toques de ficção científica e extraordinário. Neste ano, tivemos Sob a pele, com Scarlett Johansson, ficção bastante elogiada e com cenários estranhos, ligados ao interior da Escócia, permeados por uma sensação solitária, de afastamento da Terra – e o visual nunca chegava a combinar diretamente com a narrativa. Tendo no elenco a mesma Scarlett, Luc Besson fez este Lucy. Bastante conhecido desde os anos 80, quando fez o cult movie Subway, com Cristophe Lambert (um dos produtores de Lucy) e Isabelle Adjani, Besson se consagrou principalmente no início dos anos 90, quando realizou O profissional, um belo thriller com Jean Reno, Gary Oldman (no papel de um vilão assustador) e a revelação Natalie Portman. Mas alguns anos ele já realizado um filme com nível parecido, Nikita, sobre uma agente assassina e com passado obscuro. Nesses filmes, Besson mudava totalmente seu estilo mais contemplativo de seus experimentos iniciais, o referido Subway e Imensidão azul. Ainda nesta década, em 1997, ele realizou a ficção científica mais cara já feita na Europa, O quinto elemento, protagonizado por Bruce Willis e Milla Jovovich, trazendo uma direção de arte bastante interessante. Ainda com Milla Jovovich, ele compôs o grandioso Joana D’Arc, mas algo em seu cinema havia se perdido, o que se constatou na primeira década deste século.
O ritmo angustiante de O profissional pode ser percebido na primeira meia hora de Lucy, quando a personagem-título é levada por um namorado recente, Richard (Pilou Asbæk), a entregar uma pasta num hotel direcionada a um determinado Sr. Jang (Choi Min-sik). Levando-se em conta que ela está em Taipé, Taiwan para estudar e seu novo namorado é um cowboy com certo ar psicodélico, isso não é um bom sinal. Em poucos minutos, o plano não tem o melhor resultado, e Lucy é conduzida a um mundo desconhecido, do qual não conseguirá libertar tão cedo, mesmo porque precisa carregar dentro de si alguns pacotes com uma fórmula experimental capaz de alterar não apenas o comportamento, como a força e a inteligência. Nessa primeira meia hora, bastante audaciosa no sentido do ritmo e da montagem, a presença de Lucy é alternada com um discurso do cientista e professor Samuel Norman (Morgan Freeman, depois de Transcendence sempre envolvido com inteligências fora do habitual), tratando da inteligência humana, além de se criar uma analogia entre a situação dela e a de animais na natureza.

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Essas sequências têm uma beleza visual própria ao melhor cinema de Besson e parecem reservar algo grande. O que vem daí por diante, no entanto, muito possivelmente não compreenda as melhores características do cinema de Besson – aquelas dos anos 80 e 90 –, principalmente porque Scarlett Johansson, a princípio numa bela atuação, mostrando a angústia de se encontrar numa situação sem saída aparente, não consegue tornar o roteiro verossímil. Que Lucy tenha comparações com A árvore da vida e 2001 parece muito mais por brincadeira do que realmente ter algo para dizer de substancial. Avaliar que há um elemento divertido nessas comparações diz muito mais do roteiro problemático do que sua qualidade, tanto que Lucy, um sucesso de bilheteria incomum (mas não podemos esquecer que este ano Godzilla também o foi), foi recebido com certo ânimo não emprestado a filmes significativamente melhores. Há quem diga que se trata de uma “porcaria muito divertida”, seja lá o que isto quer dizer.
Em que pese a grandiosidade pretendida por Lucy, o filme vai se revelando, no seu encadeamento, numa enigmática decepção, pelos envolvidos e pelo inesperado caráter de obra realizada com certo descompromisso no mau sentido, uma espécie de filme B sem autoconsciência (e o diretor avaliar, numa entrevista, que mescla O profissional, A origem e 2001 não ajuda em sua simplicidade nem sugere que ele tenha consciência sobre o que filmou). Às vezes, a dúvida seria se a contagem colocada ao longo da história não deveria ser regressiva, simbolizando talvez o esgotamento da paciência do espectador diante da sucessão de acontecimentos imprevisíveis. Ou seja, Lucy reserva uma camada de leveza em sua temática – quando a personagem, por exemplo, precisa enfrentar seus poderes –, mas logo isso é esquecido no sentido de se buscar algo como o Neo de Matrix (e Besson utiliza a câmera tecnológica usada por David Fincher principalmente em Clube da lutaO quarto do pânico). Enquanto vemos a transformação de Lucy, vemos o filme se transformar também numa grande bagunça.

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Besson possui características que apontam como um cineasta de linha de montagem, mas Nikita e O profissional eram filmes muito bem feitos e pensados, e se O quinto elemento não justificava sua ambição de ser uma ficção científica de ponta, pelo menos conduzia sua narrativa a momentos de diversão interessantes. Sua predileção por figuras femininas à frente de seu cinema sempre foi motivo para descobrirmos personalidades interessantes e complexas. No entanto, em Lucy, Besson não consegue, nesse meio tempo, costurar os personagens, todos desenvolvidos num plano superficial e também por causa da metragem reduzida. Veja-se, por exemplo, o policial Amr Waked (Pierre Del Rio), que surge em determinado momento e não estabelece nenhuma ligação entre o que vem antes e depois, a não ser para lembrar que Besson nasceu em Paris (sendo que é visto com muitas reservas na França por ter feito parte de sua carreira dentro da indústria de cinema dos Estados Unidos) e a recepção desconfiada do cientista à existência de Lucy, que nem Freeman, com sua habitual competência, consegue justificar o suficiente. Johansson mostra um potencial subaproveitado, como em Sob a pele, não conseguindo ainda alcançar com plenitude o desempenho que teve com a voz em Ela. A impressão é que Besson quis fazer uma narrativa extremamente sintética, aliviada por cenas de lutas e perseguições de carros, mas que não combina com sua tentativa de discussão científica e mesmo filosófica, relacionada a conceitos, que exigiriam maior atenção. Desse modo, mesmo trazendo belas imagens algumas vezes, o filme não consegue transpirar confiança no que está tentando elaborar. Diante de críticas a Transcendence, por exemplo, este ano, Lucy se descobre este sim como aquilo que, segundo certo consenso, Transcendence seria: uma história capaz de atrair o espectador, mas não tem o impacto necessário para fazê-lo confiar no que está vendo.

Lucy, EUA/FRA, 2014 Diretor: Luc Besson Elenco: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Choi Min-sik, Amr Waked, Julian Rhind-Tutt, Pilou Asbæk Roteiro: Luc Besson Fotografia: Thierry Arbogast Trilha Sonora: Eric Serra Produção: Christophe Lambert, Luc Besson, Virginie Silla Duração: 89 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Universal Pictures

1 estrela e  meia

 

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2 Comentários

  1. Paula Rocha

     /  7 de julho de 2015

    Concordo totalmente com suas conclusões a respeito do filme.
    Eu e meu esposo, quando acabamos de assistir Lucy tivemos a mesma opinião: o filme é uma bagunça, viaja muito. Penso até que o diretor não conhecia seu público. Será mesmo que ele pensa que engoliríamos essa história?
    Como você apontou, no início o filme mostra grande potencial, mas depois mostra só decepção.

    Responder
    • André Dick

       /  7 de julho de 2015

      Prezada Paula,

      agradeço novamente por sua mensagem. Vejo que vocês também não acreditaram nos objetivos do filme. Por mais fantasiosa que seja, a história é muito fraca e a direção de Besson, infelizmente limitada. E uma pena, pois o início, como também observou, é interessante. No entanto, algo acontece a partir da metade e tudo parece se perder, principalmente a paciência do espectador.

      Volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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