A culpa é das estrelas (2014)

Por André Dick

A culpa é das estrelas

Adaptado de um dos livros que fizeram mais sucesso neste início de década, A culpa é das estrelas traz no elenco o mesmo casal de outro sucesso juvenil, Divergente: Shailene Woodley e Ansel Elgort. Filmes enfocando doenças costumam trazer à tona uma determinada manipulação emocional, pelo menos desde que Arthur Hiller reuniu Ryan O’Neal e Ali MacGraw em Love Story. Desde o marketing feito, tende-se a eliminar qualquer tipo de expectativa em relação a filmes do gênero, principalmente quando, muito possível, ele atrairá doses de emoção desmedida, o que costuma ser visto com reservas e mesmo uma determinada pré-concepção de que isto extrai a qualidade do relato que a envolve. Assim como para cada dez filmes de adolescentes é muito raro se encontrar uma peça como As vantagens de ser invisível. A culpa é das estrelas consegue antecipar várias dessas características já no marketing em torno. Junto com essas características, tudo o que pode ser visto como sério já parece ser barrado por um tratamento mais pop, em razão da trilha sonora.
Woodley interpreta Hazel Grace Lancaster, que tem câncer, cuja progressão é atenuada por um remédio ainda em experimento, e carrega consigo um aparelho de oxigênio, enquanto Elgort faz Gus, que teve osteossarcoma e precisou amputar uma das pernas, precisando desistir da carreira de jogador de basquete. Eles se conhecem numa reunião de jovens com câncer, sob a liderança de Patrick (Mike Birbiglia), que toca violão e suscita uma tentativa de integrar diferentes personalidades. Em casa, Hazel tem um bom relacionamento com a mãe, Frannie (Laura Dern), e o pai, Michael (Sam Trammell). Diante de sua situação, no entanto, ela não consegue seguir o otimismo de seus colegas, no que Gus vem a ser o oposto – e A culpa é das estrelas se baseia, no início, neste conflito de personalidades. Mas há um livro no caminho de ambos: “Uma aflição imperial”, escrito por Peter van Houten, um escritor que preferiu se exilar em Amsterdã. Hazel é fã de sua obra e a indica para Gus. Depois de uma troca de e-mails com o escritor, é dada a oportunidade de visita a ele. A questão é se ela poderia viajar.

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A adaptação do livro de John Green foi feita por Scott Neustadter e Michael H. Weber, dois especialistas em temáticas jovens. Eles fizeram não apenas o bastante conhecido (500) dias com ela, como também o recente e por vezes esquecido O maravilhoso agora, também com Shailene (e Miles Teller, que está em Whiplash). Ambos são especialistas em darem uma sinceridade e uma humanidade a seus personagens, mesmo que às vezes se aponte clichês na estrutura de suas histórias. Não apenas O maravilhoso agora conseguia lidar com reais condições neste campo, como A culpa é das estrelas registra a procura por uma linguagem ao mesmo tempo sensível e reflexiva, sem abdicar da faceta pop. Mas a principal referência para o diretor Josh Boone parece ter sido um filme que há dois anos chegou a ser bastante cogitado para o Oscar, e teve nas atuações de John Hawkins e Helen Hunt trunfos excepcionais: As sessões. Assim como este filme, A culpa é das estrelas consegue conciliar o drama mais trágico – o enfrentamento de uma doença grave – com um lado mais ensolarado das coisas que nos cercam e que, como Gus diz, devem ser vistas e valorizadas. Pode-se aceitar que A culpa é das estrelas circule ao redor de um tema potencialmente emocional e que convoca o espectador a lidar com sentimentos de conquista, de perda e da valorização das coisas que realmente importam, mas isso não costuma ser lembrado pela maioria das produções e tampouco recebe o tratamento cuidadoso que o diretor Boone oferece. Ele caminha numa linha muito difícil: o tema, se visto sob o enfoque mais despojado, pode se tornar tão manipulador quanto se visto sob o lado aparentemente mais sério, como Love Story. Nesse sentido, o filme também possui alguns tons colhidos em 50%, em que Joseph Gordon Lewitt fazia um jovem com câncer que se envolve com a psicóloga que busca tratá-lo diante das dificuldades. No entanto, assim como 50% tinha um elenco excelente, A culpa é das estrelas prefere lidar com as atuações de Shailene e Elgort num enfoque em que eles parecem crescer juntos.

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Poucas vezes é vista uma interação como a de ambos na tela, não apenas pelo registro suave de Woodley quando precisa conversar com ele à noite como pela reunião entre humor (numa cena em que o personagem homenageia Richard Gere em Uma linda mulher, numa limusine) e drama. Com ambos, os coadjuvantes nunca são menos do que notáveis: Laura Dern mostra como, desde Império dos sonhos, é uma atriz indispensável mesmo para papéis aparentemente fáceis e Nat Woolf mostra novamente o talento já revelado no impactante Palo Alto, de Gia Coppola, como um amigo do casal, Isaac, que enfrenta a possibilidade de ficar cego – e, quando precisa enfrentar uma desilusão amorosa, pede a Gus para quebrar objetos em seu porão. Em alguns momentos, diante do tema, o filme dá a impressão de ficar leve demais, no entanto Boone consegue encontrar um equilíbrio interessante.
A culpa é das estrelas não tenta apenas tornar este drama numa espécie de revitalização de pequenas coisas, como consegue, por meio do personagem do escritor, Van Houten (um excepcional Willem Dafoe), colocar aquilo que Vida de adulto já revelava: uma brincadeira com o universo literário. Hazel, como a personagem de Emma Roberts naquele filme, visualiza o final de um romance não como seu final, mas como a possibilidade de uma continuidade, mas Van Houten não é a pessoa mais adequada para tratar disso. A passagem por Amsterdã simboliza a tour cultural de A culpa é da estrelas, numa visita à casa de Anne Frank (que proporciona um diálogo com a juventude da qual não é possível escapar ilesa de Hazel) e é quando a possibilidade de permanecer por meio da cultura se torna um diálogo com o que se consideram coisas efêmeras e a tentativa de negar o comportamento alheio, com a ajuda de Lidewij Vligenthart (Lotte Verbeek). São delicados os diálogos sobre a importância de cada um, a necessidade de deixar uma memória e estaria sendo cínico se dissesse que elas vêm embaladas meramente como pílulas de sabedoria, com os personagens recitando cada palavra como se pensassem apenas levar o espectador a ter um determinado sentimento. Isso não faria justiça ao trabalho de Woodley e Elgort. O diretor Josh Boone atinge um ponto delicado de afirmação desses personagens, que liberam a dor a ser sentida. Se essa dor vem com certa manipulação, a qualidade narrativa e o elenco de A culpa é das estrelas não deixam esquecer que este é um filme de verdade.

The fault in our stars, EUA, 2014 Diretor: Josh Boone Elenco: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Nat Wolff, Sam Trammell, Willem Dafoe, Lotte Verbeek, Mike Birbiglia Roteiro: Michael H. Weber, Scott Neustadter Fotografia: Ben Richardson Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey Duração: 125 min. Estúdio: Temple Hill Entertainment

Cotação 4 estrelas

 

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2 Comentários

  1. Paula Rocha

     /  23 de dezembro de 2014

    A interação e carisma das personagens Hazel e Gus deram um tom muito bonito ao filme, sem cair nos sentimentalismos baratos, como em outros filmes do gênero.
    Excelente crítica, como sempre.

    Parabéns!

    Responder
    • André Dick

       /  24 de dezembro de 2014

      Prezada Paula,

      fico feliz que também tenha gostado do filme! Como você comenta, ele não cai em sentimentalismos e realmente me surpreendeu, assim como a atuação do elenco, excepcional, a meu ver, sem exceções. E agradeço novamente pelo comentário generoso. Ótimas festas para você!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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