O hobbit – A batalha dos cinco exércitos (2014)

Por André Dick

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Depois de receber os Oscars de melhor filme e direção pela terceira parte de O senhor dos anéis, Peter Jackson iniciou a sua fase de adaptação a um cinema sem tanta mitologia, mas, mesmo assim, ele refilmou King Kong e tentou fazer uma história sobre o além em Um olhar do paraíso. Sem ter o êxito esperado, ele voltou ao universo de Tolkien, desta vez para a trilogia de O hobbit. No entanto, além de ficar razoavelmente circunscrito a este universo, ele passou a não ser visto mais como um cineasta de especial criatividade, justamente pela opção em transformar um livro de Tolkien em três filmes, parecendo mais interessado no lucro proporcional da franquia. O primeiro O hobbit (Uma jornada inesperada) foi recebido com desconfiança pela crítica, embora, particularmente, seja um filme de muita qualidade, enquanto A desolação de Smaug, a segunda etapa da peregrinação de Bilbo e os anões foi melhor aceito, mas tinha dificuldade de criar o movimento necessário porque justamente Jackson o projetou depois de conceber O hobbit em apenas duas partes.
Essa decisão praticamente afastou Jackson de uma pretensa admiração pela obra de J.R.R. Tolkien, na visão de muitos: ele parecia mais interessado em fazer render a franquia e proporcionar uma tentativa de se equivaler com O senhor dos anéis. Finalmente chegamos à parte final da série, O hobbit – A batalha dos cinco exércitos, e já podemos ter uma noção bastante clara no sentido comparativo com a trilogia anterior.  Como se avalia desde o início, O hobbit não foi concebido, ainda em livro, para ser um épico na proporção de O senhor dos anéis, nem tinha, apesar dos personagens interessantes, o número proporcional de situações e reviravoltas. Nesse sentido, Jackson, ao incluir novamente Legolas e mais uma elfa na linha de frente, desde A desolação de Smaug, fazia o possível para lançar seu olhar pessoal para a obra de Tolkien, a meu ver sem tanta efetividade. Mas a questão é que o segundo filme tinha um encerramento sem ligação com seus longos 160 minutos e personagens ficavam soltos, sem nenhum direcionamento específico, inclusive Bilbo, que praticamente não aparecia, além de alguns personagens serem acrescentados sem a devida força.

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A terceira parte de O hobbit começa justamente onde o segundo terminou (e aqui há possíveis spoilers para quem também não viu A desolação de Smaug), com o ataque do dragão à Cidade do Lago. Jackson coloca uma dinâmica espetacular nessa sequência, com uma sucessão de efeitos especiais notáveis e um trabalho sonoro minucioso, além da agilidade da fotografia de Andrew Lesnie, o referencial desde a primeira trilogia. Este ataque de Smaug é certamente o clímax do filme passado transposto para o início deste, e o espectador logo teme que Jackson, em seguida, tome mais alguns minutos de exposição para o que acontecerá, sem o devido ritmo. Aos poucos, ele estabelece a narrativa, mas sem lacunas e demoras, ao mostrar Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) dentro da Montanha enfrentando o que os seus companheiros de viagem chamam de “doença do dragão”. Considerando-se um rei, Thorin esquece suas promessas aos habitantes da Cidade do Lago para tentar abraçar o ouro de sua morada. Bilbo tenta contornar a situação com a ajuda sobretudo a Balin (Ken Scott), mas nada impedirá uma guerra por causa justamente de vários povos saberem do que aconteceu e irem atrás do ouro – daí os cinco exércitos do título.
A saída de Jackson para sua saga poderia render certamente batalhas e destruições em massa, com o mesmo enfoque de outros filmes de fantasia. Mas, de forma inusitada, pois Jackson se mostrava excessivamente confiante com a segunda parte da série – justamente a que foi filmada em grande parte depois de ele terminar a saga, ou seja, ele a criou para formar uma trilogia –, O hobbit derradeiro é um filme que consegue lembrar não apenas os melhores momentos de O senhor dos anéis, como apontar uma maneira original de ver esses personagens que havia, a meu ver, em Uma jornada inesperada. Ou seja, enquanto no segundo Jackson parecia fazer cenas de ação simplesmente para estender poucos argumentos do roteiro, aqui ele consegue, como em O senhor dos anéis, justificar a ação por meio da decisão de seus personagens. Há filmes de ação, que surgem principalmente no verão, que não trazem nenhuma dosagem dramática; O hobbit – A batalha dos cinco exércitos faz sua ação a partir do drama dos personagens, um elemento que Jackson resgata sobretudo da batalha do Abismo de Helm em As duas torres.

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Para quem esperava encontrar novamente ligações entre os personagens na Terra-média, finalmente temos uma presença bastante interessante de Thorin Escudo de Carvalho, numa atuação definitiva de Richard Armitage, fazendo algo difícil: colocar o espectador como alguém que tem aversão a seu comportamento, mas também atrair a empatia. Bilbo, praticamente esquecido no segundo filme, servindo como coadjuvante de Bard, o arqueiro, consegue novamente se sobressair, como no primeiro, sobretudo em alguns lances de humor e comoção do ótimo Martin Freeman. Não apenas esses personagens surpreendem, como também o próprio arqueiro consegue uma justificativa para sua presença – e Luke Evans finalmente tem reações emocionais quase ausentes no primeiro filme –, assim como Legolas (Orlando Bloom), Tauriel (Evangeline Lilly) e Kili (Aidan Turner) arquitetam uma trama paralela com interesse o suficiente para o espectador, inclusive em sua relação com Thandruil (Lee Pace), embora não sejam expansivos como os de O senhor dos anéis. Contudo, são personagens, pelo menos neste filme, com motivações humanas e uma procura inata pela nobreza que independe de guerra ou linhagem, mesmo que haja um paralelismo: em determinado momento a Arkenstone desejada por Thorin pode se passar por sementes: aquela simboliza o domínio sobre o reino; as sementes simbolizam o domínio da natureza sobre os poderes e os reinos que passam. Kili pode dar uma peça pessoal a Tauriel, e ela contém sempre uma aproximação, tendo como figura contrária a de Alfrid (Ryan Gage), que acompanha os habitantes da Cidade do Lago com outro objetivo.
Esse elenco consegue criar um equilíbrio com a parte técnica do filme. Um dos maiores incômodos da segunda parte de O hobbit era sua parte técnica com alguns problemas. Em razão de muitas cenas terem sido filmadas depois da rodagem oficial ser concluída, havia um excesso de CGI nos cenários, sobretudo na passagem pela cidade dos elfos. Aqui, se continua havendo CGI, deve-se reconhecer a riqueza de detalhes, acompanhada por figurinos que dialogam com as cores captadas por Lesnie, e Jackson coloca finalmente uma coleção de imagens fantásticas capazes de lembrar não apenas O senhor dos anéis, mas fábulas fantasmagóricas e assustadoras. Os interiores da Montanha Solitária ganham detalhes imprevistos, assim como Jackson consegue obter um olhar de 360 graus sobre o que cerca a Montanha e as batalhas em seu centro, tendo Azog (Manu Bennett) como o grande inimigo, à frente de milhares de orcs. Trata-se de um final ao mesmo tempo com tom dramático, mostrando várias ações paralelas, e teatral, como se tudo precisasse ser decidido num único lugar, em que todos os personagens se reúnem para a alegria ou a tragédia.

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Parte desta decisão se deve ao fato de ter se dividido as duas partes em três, mas o fato é que O hobbit – A batalha dos cinco exércitos funciona de maneira emocional, dramática e com um palco aberto a cenas fantásticas e de resolução que não havia em A desolação de Smaug. Um duelo do qual faz parte Gandalf (Ian McKellen, compensando a dificuldade com que fez o filme, por motivos de doença, com sua empatia) em meio a figuras fantasmagóricas apenas anuncia esse eixo em que os personagens se reúnem pela sua vida ou morte (e por um instante mesmo Galadriel, numa cena magnífica, parece lembrar a cena derradeira do Padre Karras de O exorcista, mas potencializada com mais efeitos especiais). Nesse sentido, a presença não apenas de Bilbo, como também do arqueiro, mostram sempre a necessidade de se buscar um sentido para a casa. O arqueiro, à frente daqueles que sobraram da Cidade do Lago, precisa dar um novo lar a seu povo, enquanto Thorin não entende por que Bilbo coleciona motivos para levar ao condado.
Há uma cena magnética em que Thorin, dentro da Montanha, enfrenta seu próprio eu e imagina um piso banhado de ouro – numa atuação excepcional de Armitage. Esta sequência estabelece uma relação direta com uma situação em que Thorin precisa lutar sobre a água, simbolizando sua origem, e não mais sobre o ouro. Também chama a atenção uma fala de Bilbo sobre as águias que remete ao final de Uma jornada inesperada, quando ele e Thorin conversam no alto de uma montanha sobre ter um lar. Essa motivação pessoal vai ao encontro daquela de Legolas, sobre voltar ou não para seu povo. Existiam esses elementos em O senhor dos anéis, e aqui eles são expostos de maneira sensível, em meio a batalhas ruidosas e fantásticas, assim como uma bela ligação das paisagens mais ensolaradas de Uma jornada inesperada com o cinza e a ambientação mais fria de A batalha dos cinco exércitos, como se as estações da jornada se completassem.
Neste sentido, este O hobbit consegue estabelecer pontes diretas com os filmes anteriores sem levar o espectador a se perguntar por que Jackson está estendendo determinada cena. E, em meio a sequências com um ritmo contínuo (e pela primeira vez a metragem não é excessiva, levando o espectador a se interessar pelo material que foi excluído), Jackson forma uma unidade interessante com O senhor dos anéis. Se a partir do segundo filme poderia haver uma desconfiança em relação ao cineasta, ele finaliza a trilogia com um êxito que certamente traria percalços a quem não dirigiu O senhor dos anéis. O hobbit – A batalha dos cinco exércitos não é apenas um grande filme de fantasia ou de ação, ou uma adaptação à altura do universo imaginado por Tolkien. Do mesmo modo, não é um filme apenas para os fãs dessa obra, como muitas vezes é recebido, e sim para quem admira um cinema no qual é possível rever e guardar parte da própria imaginação, que cresce como as sementes que Bilbo carrega.

The Hobbit – The battle of the five armies, EUA, 2014 Diretor: Peter Jackson Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Aidan Turner, Luke Evans, Lee Pace, Stephen Fry, Ken Stott, Benedict Cumberbatch, Cate Blanchett, Manu Bennett, Hugo Weaving, Christopher Lee, Billy Connolly, Ian Holm  Roteiro: Fran Walsh, Guillermo del Toro, Peter Jackson, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Carolynne Cunningham, Fran Walsh, Peter Jackson Duração: 144 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: 3Foot7 / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

 

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6 Comentários

  1. Leandro

     /  14 de dezembro de 2014

    Ótima crítica. Gostei muito do desfecho, apesar de não ter gostado de algumas coisas, como o romance, mas a parte técnica é fora de série e tem ótimas cenas de ação, até emociona. Vou sentir saudades da série.

    Responder
    • André Dick

       /  14 de dezembro de 2014

      Prezado Leandro,

      agradeço por seu comentário e pela visita. O filme realmente emociona e tem uma parte técnica espetacular.
      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. fredmorsan

     /  29 de abril de 2016

    Concordo em grande parte com sua crítica, mas ainda achei que Bilbo perdeu novamente o protagonismo do filme. O que é uma pena pois nesta parte da história no livro ele é importantíssimo, mas no filme é feito de uma maneira um tanto apressada, assim como o retorno do Hobbit ao Condado. Uma coisa que faltou ao meu ver foi mostrar o enterro de Thorin. Acho que fecharia de maneira mais digna a jornada do personagem.

    Responder
    • André Dick

       /  30 de abril de 2016

      Prezado Fred,

      acho este epílogo da série um grande momento, embora Martin Freeman não apareça novamente como deveria. No entanto, sua presença se mostra mais decisiva, com seu conflito em relação a Thorin, assim como Jackson recupera o ritmo perdido no segundo filme. De qualquer modo, também acho, como você, que o final é apressado demais: Peter Jackson não poderia ter feito o último capítulo justamente o menor em extensão, quando o segundo tem em torno de 40 minutos excessivos. Não vi a versão estendida e dizem que este problema se dissipa em parte, o que acho ótimo, pois já o considero realmente um grande filme mesmo com essas falhas. E mais um completamente subestimado, como também o primeiro da série.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
      • fredmorsan

         /  10 de maio de 2016

        Vi a versão estendida e você tinha razão: o filme é muito melhor do que a versão oficial. E fiquei feliz com isso, pois quando saí do cinema fiquei muito desapontado.

        Ainda que o papel de Bilbo seja importante e movimente a trama, Peter Jackson nada mais faz do que respeitar o material original do Tolkien. O meu problema nesse quesito ainda é a maior relevância da batalha em detrimento do protagonista (problema iniciado em A Desolação de Smaug). Tolkien, para evitar ter que descrever a batalha, deixa Bilbo desacordado. Na versão cinematográfica, a mesma solução já me parece um deslocada (ainda mais quando na trilogia anterior, o diretor conseguiu incluir de maneira crível e divertida os Hobbits amigos de Frodo).

        Enfim, apesar da reclamação, curti mais o filme na versão do diretor. E tem o funeral do Thorin.

        Abraços!

      • André Dick

         /  10 de maio de 2016

        Prezado Fred,

        particularmente, Jackson tem um grande talento com novas versões, pois também considero a versão estendida da trilogia O senhor dos anéis melhor do que a oficial. Em relação à batalha, acredito igualmente que poderia haver melhor essa divisão a que se refere. No entanto, o principal problema é realmente Jackson ter feito a segunda parte tão extensa, com aquele ato final interminável na caverna (tentei rever o filme, mas acho aquela sequência muito mal editada): ele acabou se comprometendo em mostrar essa grande batalha no fechamento e tirando um pouco o foco dos personagens, apesar de eu ainda entender que se trata de um filme grandioso e muito subestimado.

        Abraços!
        André

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