O gebo e a sombra (2012)

Por André Dick

O gebo e a sombra 5

O diretor Manoel de Oliveira continua produzindo e fazendo filmes com seus quase 106 anos, a serem comemorados no próximo dia 11 de dezembro. Depois de uma trajetória brilhante, cujo ponto mais alto talvez seja Vale Abraão, de 1993, ele fez em 2011 o interessante O estranho caso de Angélica, no qual lidava com o elemento fantástico e histórico por meio da figura de um fotógrafo, que chegava a uma cidade do interior e passava por uma paixão imprevisível. Um ano depois, Oliveira filmou O gebo e a sombra, uma adaptação de uma peça de teatro de Raul Brandão. Este filme possui um toque mais teatral, concentrado num único cenário. Embora se diga que este estilo é seguido por causa de sua idade, o que Oliveira faz não é pouco: por meio de um elenco de grande qualidade e uma troca rápida de diálogos, O gebo e a sombra, passado praticamente diante de uma mesa, com um ar soturno de uma casa que dificilmente viu ou vê a claridade do dia, oferece a sensação de ter mais movimento e emoção do que muitos blockbusters recentes.
Gebo (Michael Lonsdale) é um contador que chega todas as noites anotando números e números com a preocupação contínua de saldar também as dívidas da casa. Ele divide a moradia com sua esposa, Doroteia (Claudia Cardinale), e com sua nora, Sofia (Leonor Silveira). O filho, João (Ricardo Trêpa), desapareceu há anos, vagando como uma espécie de fantasma em suas conversas e memórias; a dor sobretudo de Doroteia é permanente, sempre sendo consolada por Gebo e Sofia, que se unem como se fossem a luz humana da casa, além daquela que emana da lamparina a óleo colocada no centro da cena, com sua iluminação parcial da casa. Não há muito o que falar: passam um longo tempo da noite divagando sobre a situação de desaparecimento do filho e sobre o assunto financeiro. Doroteia sente a dor de não ter mais o filho por perto, enquanto Gebo tenta desfocar a realidade para que ela não sofra com mais intensidade.

O gebo e a sombra 4

O gebo e a sombra 2

O gebo e a sombra 7

Ao mesmo tempo, recebem a visita de dois amigos, Candidinha (Jeanne Moreau) e Chamiço (Luís Miguel Cintra), até que determinado dia há o regresso de João, cheio de questões a resolver com a família e consigo mesmo: para ele, a simples rotina da casa não é merecedora de sua presença. Ele imagina ser alguém especial, contestador, pronto para colocar em ação aquilo que já caiu no tédio. Com um discurso retórico, de grande persuasão, João parece estar indo para o combate apenas com as ideias, mas o que ele precisa certamente é entender o dia a dia dos familiares que se recusa a entender. Para ele, os familiares, reunidos em torno da mesa, dividindo conversas referentes a memórias, já estão enterrados vivos – mas o fato é de que ele precisa pelo menos do lado material para se conservar com esse ideal de altitude em relação a todos.
O gebo e a sombra tem os melhores elementos do cinema de Manoel de Oliveira: o trabalho de câmera captando os personagens com uma força incomum, mesmo de forma quase estática, se entrelaça com um roteiro de diálogos rápidos e notáveis, como em sua obra-prima Vale Abraão, cuja maior qualidade é a narração. Do mesmo modo, Manoel deposita na interação do elenco um grande plano para sua direção ser tão eficaz. Se Lonsdale é um ator extraordinário, e Cardinale surpreenda para quem conhece apenas seu trabalho clássico, é Leonor Silveira, assim como em Vale Abraão, que concede uma personagens com falhas, profundamente humana, mas ainda assim vigorosa diante do contexto. Humilhada por ter sido abandonada por João, ela repudia toda a tentativa dele de diminuir o plano familiar no qual é uma componente tardia, uma vez que mora com os sogros. Há uma notável elegância no movimento desses personagens e atores em cena, nenhum deles com excesso, mas sempre empregando o tom da voz do melhor modo possível, com o objetivo de transparecer as emoções que parecem dominadas pelo cenário apertado, em que nada respira com tranquilidade. Cada gesto, cada entrada e saída de cena reserva também, para esses personagens, toda a vida. Poucas vezes é mostrado no cinema, com a mesma qualidade, a excelência da rotina e de como a simplicidade pode receber um contorno dramático (a voz de Gebo impressiona pela qualidade de Lonsdale em contar sua vida por meio dela).

O gebo e a sombra 9

O gebo e a sombra 11

O gebo e a sombra 10

Os personagens estão cercados pela possibilidade ou não de serem aceitos por suas próprias virtudes ou ignorados, dependendo do momento em que se encontram. O filme se passa no final do século XIX e, muito em razão da fotografia extraordinária de Renato Berta e do desenho de produção de Christian Marti, mistura a seus cenários reduzidos uma vivacidade grande na sua coleção de imagens. Há, por exemplo, uma sequência em que Sofia sai por um beco – e ele pode não ter, como a vida dessa família, a saída necessária. É interessante como Oliveira, no entanto, deixa o espectador imaginando o que acontece nas outras partes da casa, como a cozinha, onde Sofia vai preparar o café para os convidados, ou os quartos onde ficam Gebo e Doroteia. Ele consegue ser ainda mais simétrico do que Béla Tarr, que, em O cavalo de Turim, colocava o pai e a filha todos os dias comendo batata numa mesa, praticamente sem trocar palavras. Em O gebo e a sombra, são igualmente os silêncios entre as cenas que mais interessam, e como eles servem a uma prática cada vez mais rara de fazer cinema, sustentado na indefinição dos personagens e no roteiro. Oliveira, com isso, cria aproximações e contrastes, entre o pai e o filho, entre a esperança da nora e o pouco otimismo da sogra, mas colocando-os como extensões uns dos outros, a fim de preencher as lacunas. Nesse sentido, é interessante como os amigos se introduzem nesta rotina da família e tentam, até certo ponto, quebrá-la, como Chamiço, quando recorda da música na sua arte de conquistar mulheres, ou Candidinha. Fazendo uma adaptação muito precisa, embora com liberdades, da peça de Brandão, Oliveira revela, por meio desses personagens, um domínio técnico em relação ao que poderia ser apenas estático e inexpressivo. Mas é realmente o elenco, tendo à frente Londsale, que confere a O gebo e a sombra sua grande e autêntica aventura como cinema não apenas de arte, mas efetivamente universal.

Gebo et l’ombre, POR/FRA, 2012 Diretor: Manoel de Oliveira Elenco: Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Luís Miguel Cintra Roteiro: Manoel de Oliveira Fotografia: Renato Berta Produção: Antoine de Clermont-Tonnerre, Luís Urbano, Martine de Clermont-Tonnerre, Sandro Aguilar Duração: 95 min. Estúdio: Canal+ / Centre National de la Cinématographie (CNC) / Ciné+ / ICA / MACT Productions / Radiotelevisão Portuguesa (RTP) / Région Ile-de-France

Cotação 5 estrelas

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: