O lobo atrás da porta (2013)

Por André Dick

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Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem conseguido trafegar entre gêneros diferenciados, o que até um tempo atrás se mostrava mais difícil, não apenas pelo desinteresse dos cineastas em destoar das temáticas já conhecidas, mas porque de fato conta com uma nova geração capaz de trazer uma certa diferenciação e um toque mais interessante de influências cinematográficas. Desde Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, há, em muitos filmes, por exemplo, uma montagem mais elaborada, que lida com o ritmo da narrativa e menos centrada numa circularidade. Mas, se Meirelles parece ter esquecido esses ganhos no seu 360, não se pode deixar de perceber que ele conseguiu influenciar novos cineastas. Do mesmo modo, há uma certa influência também de Murilo Salles, o diretor de dois filmes subestimados, Faca de dois gumes e Como nascem os anjos, representativos dos anos 80 e 90. Finalmente, parece ser dentro do gênero que transita Salles que também transita este O lobo atrás da porta, a estreia na direção de Fernando Coimbra.
Percebe-se, no entanto, um olhar próprio no cineasta, desde o momento em que a trama começa: é realmente apreciável o início deste filme, sobretudo pela atuação de Juliano Cazarré como um delegado de polícia com tempo certo de humor, além das idas e vindas na narrativa. Trata-se de um delegado pouco disposto a esperar seu café esfriar para ter de lidar com o caso de uma menina que desapareceu. A mãe, Sylvia (Fabiula Nascimento) e o pai, Bernardo (Milhem Cortaz), aparecem desesperados na delegacia, atrás do paradeiro dela. A explicação: foi levada por uma estranha da creche onde estava por uma mulher que se disse amiga da mãe.

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A primeira suspeita é Rosa (Leandra Leal) que joga a culpa para uma moça que parece pouco disposta ao diálogo, feita por uma atriz excepcional, Thalita Carauta, à frente de alguns dos melhores momentos da narrativa. Dali em diante, Coimbra vai lidando com as hipóteses que podem ter levado ao sequestro, por meio de pistas que a princípio podem ser tanto verdadeiras quanto falsas.
Trata-se de uma história baseada em fatos verídicos, e o espectador ganha muito se não souber desses fatos para que a história transcorra com certa surpresa. Mas não há surpresa que possa se cumprir pela metragem do filme (possíveis spoilers a partir daqui): O lobo atrás da porta é mais um filme sobre um caso extraconjugal e o combatido Adrian Lyne é especialista nisso e visto como previsível justamente por isso. Por mais que haja um esforço para atingir uma narrativa diferenciada, os elementos do gênero estão todos guardados: a mulher que espera mais atenção do amante diz fazer sonhos de encontrá-lo longe de sua família e este tenta desviá-la do caminho de sua mulher e filha com desculpas e promessas sem nenhuma consistência. Para um filme que pretende criar suspense, não há outro gênero que elimine mais o suspense. Com isso, o nervosismo inicial da trama se perde numa sucessão de sequências que apenas tentam criar pistas falsas para o final.
Com isso, O lobo atrás da porta se estabelece e Milhem Cortaz, embora bem, repete suas atuações anteriores, nunca conseguindo estar no mesmo tom de Leandra Leal, cujas melhores atuações continuam sendo as de A ostra e o vento e O homem que copiava, em que ela consegue dosar um lado mais ingênuo com o dramático. A sensação é de que não há uma tensão entre os personagens suficiente para conseguir acelerar e desacelerar a trama, mesmo com a montagem rápida, e a irregularidade atrapalha, junto com os personagens sem camadas psicológicas. No início, essas camadas parecem melhor trabalhadas, com os personagens jogados numa situação desconfortável e há um bom ouvido para os diálogos, principalmente os do delegado, quando ele se dirige à dona da creche, num tom misto de ironia e seriedade.

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Mas, aos poucos, é como se esses personagens fossem colocados mais como figuras de uma reportagem do que propriamente como seres plausíveis; não há mais do que um traço nas suas ações e eles passam a agir apenas como figuras de algo prévio e misterioso que está para acontecer. A própria figura de Rosa não estabelece um contraste necessário para que se crie alguma expectativa do que virá a acontecer – quando tudo desencadeia, é apenas uma imposição do roteiro. O personagem dela, embora pareça interagir com os de Bernardo e Sylvia, não reserva, nessa interação, uma tensão na maior parte do tempo, e nunca desperta o mesmo interesse dos papéis dados a Cazarré e Carauta. Já a fotografia de Lula Carvalho, que compôs o visual do novo RoboCop, lida bem com as cores e os cenários (preferindo uma textura real de cores) e registra a emoção dos personagens, sobretudo na sequência em que Bernardo e Rosa ficam atrás de uma grade – como se a sua relação estivesse condicionada exatamente a uma prisão –, mas os diálogos não criam conflito. Ainda assim, há alguns lances de direção bastante interessantes, quando a personagem de Leandra Leal está num gira-gira de parque e sua vida pode continuar ou parar dependendo do que ela ouve. Tudo é conduzido para o final, suficientemente marcante e adequado para um suspense com toques policiais, embora sem ligação com a elaboração dos personagens, além dos toques fotográficos de sombras de pessoas no chão de Terrence Malick. Coimbra também extrai um certo enigma de uma cena aparentemente simples, quando um determinado personagem se revela. Mas ele não consegue fugir aos fatos da história e do filme: a montagem que a narrativa adquire a partir de determinado ponto impede O lobo atrás da porta de surpreender o bastante.

O lobo atrás da porta, Brasil, 2013 Direção: Fernando Coimbra Elenco: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Juliano Cazarré, Antonio Saboia, Fabiula Nascimento, Tamara Taxman, Thalita Carauta Roteiro: Fernando Coimbra Fotografia: Lula Carvalho Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane Duração: 95 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Gullane Filmes

Cotação 2 estrelas e meia

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