Boyhood – Da infância à juventude (2014)

Por André Dick

Boyhood.Filme 7Desde sua passagem pelo Festival de Berlim, Boyhood – Da infância à juventude vem se tornando o filme mais comentado de 2014. Os comentários normalmente partem do fato de que ele foi filmado em diferentes períodos ao longo de 12 anos, para mostrar a vida de Mason. Mas, apesar da singularidade que essa ideia representa, não é ela que o define. Sua direção é de Richard Linklater, que desde os anos 90 apresenta trabalhos de grande qualidade, como Jovens, loucos e rebeldes e a trilogia Antes do amanhecer/Antes do pôr do sol/Antes da meia-noite, ao mesmo tempo que fez algumas animações revolucionárias, como Walking life. Linklater sempre teve grande afetividade por seus personagens, mas em alguns momentos ele os tornava expressões culturais ou os colocava em ação com um certo grau de definição prévia, um certo rótulo. Isso fica bastante claro em alguns momentos do recente Antes da meia-noite, quando, junto com a sensibilidade de mostrar o avanço na idade do casal Jesse e Celine, Linklater tenta reproduzir, por meio de cada um, determinados aspectos culturais, não sendo mais tanto os personagens mais descompromissados das duas primeiras partes.
Em Boyhood, Linklater novamente tem essa questão, à medida que a cultura vai se movimentando assim como os personagens: vemos quando criança Mason e sua irmã na fila para compra de um exemplar de Harry Potter, há referências a músicos de períodos enfocados (The Vines, Coldplay, Britney Spears, Lady Gaga), fala-se da saga Crepúsculo. Embora este traço pareça didático demais, assim como as referências políticas, elas não atrapalham o andamento do filme, porque basicamente ele trata das relações entre pais e filhos, e com ela vem a carga existencial de cada personagem. Por meio de Mason e da atuação surpreendente de Ellar Coltrane (pelas críticas, poderia se imaginar que seria o ponto mais delicado do filme e talvez seja o mais forte, mesmo com as notáveis presenças de Hawke e Arquette), Linklater consegue mostrar como um indivíduo vai se situando em meio à família, diante da separação do pai (Ethan Hawke) e da mãe (Patricia Arquette), e seu percurso, junto à irmã Samantha (Lorei Linklater, filha do diretor e muito convincente), pela escola e por círculos sociais. Primeiramente, mostra a convivência com a família do professor que a mãe conhece na universidade; depois, mostra sua trajetória, por diferentes cidades, de acordo com as mudanças de rumo tomadas pela mãe.

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Linklater não trabalha o roteiro de modo a trazer núcleos determinados, que chamem especial atenção do espectador, ou que sejam demarcados, nem com pontos-chave que sejam recuperados ao longo dos anos, mas de uma forma aparentemente dispersa, no entanto bastante orgânica, sem grandes saltos no comportamento dos personagens. Esta aparente dispersão, no entanto, e ela poderia se explicar também pelos saltos temporais nas filmagens, não atinge o núcleo do filme, nem o impede de ter diálogos que fluem de maneira preciosa, mesmo que não estejam interligados com clareza. Boyhood é um filme feito de diversos fragmentos, nenhum a princípio grande para render a motivação de uma história, que vão se interligando mais pelo sentimento afetivo que o espectador pode ter ou não com esses personagens; há filmes que, infelizmente, não atingem a todos porque depende do grau de sugestão de cada um. Caso se tome como parâmetro o roteiro e as motivações do personagem, Boyhood é banal – no entanto isto, me parece, é para quem vê a história de uma forma superficial, como se ela tivesse de desenhar uma trama delimitada, quando lembra mais uma reunião de sensações, mas de forma estranha realista, sem recorrer a esquemas ou experimentalismos visuais nem estilo documental.
Coltrane consegue tornar Mason num indivíduo que tenta se adaptar a cada situação, como se antevesse, por exemplo, o que sempre aconteceria com a mãe – e seus diálogos com o pai são interessantes e, dentro do comedimento, até emocionantes. Mason passa o sentido que imagino seja aquele que Linklater quis proporcionar: de solidão. A aparente dispersão do personagem, de nunca apresentá-lo em relações que se mantêm ao longo do tempo, ao mesmo tempo que vai se enquadrando em questões tradicionais da sociedade, se mostra proposital, e muito bem realizada por Linklater. Boyhood, neste sentido, é um filme sobre feridas que vão cicatrizando sem que muitas vezes o indivíduo, de algum modo sempre solitário, as perceba ou tente expressá-las de algum modo. Mais do que trazer algo extraordinário, ele prefere o olhar da criança se distanciando do bairro em que passou anos fazendo amigos que nunca mais verá. Não há nenhum elemento capaz de destacar o personagem em meio a outros: ele apenas vai se inserindo ou não em determinados ambientes, relacionando-se ou não com as pessoas, e a extensão do filme é valiosa para que se sinta essa percepção de independência do personagem, assim como foi, ano passado, com Adèle em Azul é a cor mais quente. Boyhood, nesse sentido, se assemelha muito ao filme de Kechiche: sua pretensa banalidade só pode ser entendida por quem consegue ingressar na vida daquele personagem central; caso contrário, não há resposta para o espectador, nem que ele busque alguma explicação na história.

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E tudo isso certamente não seria possível sem o elenco: o ator favorito do cineasta, Ethan Hawke, é um dos atores mais subestimados de Hollywood, e aqui, como em Antes da meia-noite, ele se revela decisivo para a narrativa, no sentido sobretudo emocional. Há uma grande empatia entre sua figura e as dos filhos, e Hawke nunca aparenta ser exagerado, mesmo quando a circunstância exige, sem reduzir seu personagem à questão de um “pai andarilho”. Patricia Arquette, como a mãe, também está excelente, mostrando o zelo e o cuidado, ao mesmo tempo em que revela a sua insegurança diante de suas decisões. E os coadjuvantes (como Marco Perella e Brad Hawkins) fazem um grande trabalho, cada um a seu modo.
Com a colaboração decisiva desses atores e uma discreta crítica ao estilo de vida do Texas, onde se passa o filme, Boyhood atua mais na intimidade do que na superfície, e Linklater finalmente demarca que se trata de um cineasta em verdadeiro crescimento. Ele não tenta emular as características de Terrence Malick, de A árvore da vida, embora também o tenha como referência (sobretudo numa passagem por um lago), e torna a fotografia de Lee Daniel e Shane F. Kelly num apoio para fazer com que seus personagens não sejam apagados por uma necessidade de estilo visual, assim como reserva a montagem como seu trunfo: embora tenha quase três horas, Boyhood é ser um filme sem sobras, pelo menos para quem se envolve com a trama. É difícil avaliar que um filme seria mais indicado para pessoas não tão jovens, mas Boyhood, apesar de claramente também atender a um público dessa faixa, parece ter temas que podem ser melhor sentidos por quem já tem uma certa experiência de tempo (inclusive, em termos de metragem). Há um determinado momento em que Mason faz uma indagação ao pai, mais ao final, que talvez defina o filme. É uma indagação que surge não apenas do personagem, mas do espectador em relação a tudo o que foi visto, e que de alguma forma diz respeito à trajetória de cada um, no entanto é preciso ter uma certa distância da fase que o filme enfoca para conseguir senti-la verdadeiramente. É quando se sente que onde deveria haver uma transformação completa e um entendimento irretocável da vida que se preserva a dúvida do que, de fato, constitui a experiência humana. A indagação se revela simples e ainda assim sintetiza a jornada e o lugar-comum excepcional em que cada um pode se transformar. Desse modo, muito mais do que experimental, Boyhood é, de fato, uma grande experiência.

Boyhood, EUA, 2014 Diretor: Richard Linklater Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Marco Perella, Brad Hawkins Roteiro: Richard Linklater Fotografia: Lee Daniel, Shane F. Kelly Produção: Cathleen Sutherland, John Sloss, Jonathan Sehring, Richard Linklater Duração: 165 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Detour Filmproduction / IFC Productions

Cotação 5 estrelas

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4 Comentários

  1. Paula Rocha

     /  6 de outubro de 2015

    Para mim, foi um filme excepcional. Concordo com você acerca da questão da maturidade para experimentar a história, pois muitas pessoas podem não apreciá-lo por achar que a trama é superficial. O fato é que estamos acostumados com narrativas cinematográficas fabulosas, espetaculares, com personagens incomuns (ou que participam de situações incomuns). Quando assistimos a uma história assim, parece haver uma espécie de estranhamento.
    Ultimamente tenho sido atraída por filmes que contam histórias de pessoas comuns, do cotidiano ou das relações que mantemos com os outros. Não sei se você concorda, mas Nebraska carrega muito isso. Para mim, as produções culturais que se aproximam da realidade cotidiana, sem exageros, lugares-comuns ou dualismos entre certo e errado, bom ou mau deveriam ser mais valorizadas.

    Responder
    • André Dick

       /  7 de outubro de 2015

      Prezada Paula

      Fico feliz que também tenha gostado deste filme realmente excepcional. Quando especificamente subentendo a questão da maturidade, não gostaria que se entendesse como uma desconsideração com algum espectador determinado. O que me parece é que Boyhood lida com a questão do tempo de maneira muito subjetiva. Isso obviamente não indica ter de gostar de Boyhood, mas toda a visão por trás das falas principalmente dos personagens de Ethan Hawke e Patricia Arquette é claramente direcionada àqueles que têm uma noção mais significativa do que a distância de tempo e os laços familiares abrangem. Não falo de inteligência e sabedoria, mas de uma questão referente ao tempo. Tratar Boyhood como lugar-comum, enfim, me parece indicar uma falha em perceber esse elemento. Quanto aos filmes que tem visto, também aprecio muito essa temática. Nebraska é outro filme excelente, de um dos meus diretores preferidos (revi Sideways meses atrás e melhorou ainda mais com o tempo) e quando estava fazendo o especial de filmes dos anos 2000 percebi que acabei dando espaço quase em sua totalidade a filmes assim. Também me agradam muito. Dos mais recentes, Homens, mulheres e filhos também é outro dos melhores. Além de The normal heart, que você sugeriu. Essa noção de cotidiano é que parece faltar em Perdido em Marte, mesmo sendo uma ficção científica: estão todos tão interessados em provar que fazem ciência que quase não vemos uma conversa sequer fora desse universo. E, infelizmente, praticamente nenhuma conexão emocional entre os personagens.
      Agradeço novamente pela visita e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder
  2. Paula Rocha

     /  7 de outubro de 2015

    Também acredito na importância dessa conexão emocional não só entre os personagens, mas também com o público, pois é isso que nos cativa e nos faz admirar determinados atores. Embora minhas opiniões sejam subjetivas, pois não tenho conhecimento aprofundado (teórico ou prático) em cinema, também concordo com o ponto que você citou sobre Ethan Hawke ser um ator subestimado. Suas atuações são excelentes (Dia de treinamento é um ótimo exemplo) e muitas vezes Hollywood dá crédito demais a atores nem tão bons assim. Exemplo: gosto muito de certos filmes com o Denzel Washington, mas percebo que ultimamente sua atuação não parece se diferenciar, ele parece o mesmo cara de sempre.
    Obs: Infelizmente ainda não vi nenhum dos filmes do seu Especial Anos 2000, mas pretendo assisti-los em breve.

    Obrigada pelo feedback!

    Responder
    • André Dick

       /  7 de outubro de 2015

      Prezada Paula,

      Agradeço novamente por sua mensagem. Acredito que seja justamente essa conexão emocional do espectador com os personagens de um filme que o torna melhor do que outros. E só há essa conexão quando os personagens também possuem conexões entre eles. Boyhood é um exemplo bastante evidente disso. Quanto a Ethan Hawke, é certamente um dos atores mais subestimados de Hollywood. Dia de treinamento é um dos meus filmes policiais favoritos. Particularmente lembro dele com Delpy na trilogia romântica feita por Linklater, em Sociedade dos poetas mortos, Gattaca, Caninos brancos, Antes que o diabo saiba que você está morto e Grandes esperanças. Um excelente ator, que já deveria ter recebido o Oscar por Dia de treinamento ou Boyhood. Ou mesmo por algum roteiro da série de Linklater. Também admiro filmes com Denzel Washington, mas parece que ultimamente ele tem optado apenas por filmes de ação. Uma pena e um desperdício para um ator como ele. Mesmo assim, ele está grande em O voo e O gângster, relativamente recentes. E espero que aprecie os filmes do Especial quando for assisti-los.
      Agradeço novamente pela visita e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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