Ida (2013)

Por André Dick

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Desde sua estreia em festivais do ano passado, este filme do polonês Pawel Pawlikowski vem sendo bem recebido tanto pelo público quanto pela crítica e foi indicado por seu país para representá-lo no Oscar do próximo ano. Também exibido recentemente em alguns festivais no Brasil, espera-se que entre logo em circuito comercial, pelo principal motivo: Ida apresenta um cinema cada vez mais raro de se encontrar. Com elementos da cinematografia sobre o pós-Guerra, mostrando uma Europa sendo recomposta aos poucos, o filme de Pawlikowski segue todos os passos de uma obra que busca apresentar uma nova sensibilidade. Embora o diretor não seja estreante, tendo feito antes Meu amor de verão e Estranha obsessão, com uma carreira iniciada na Inglaterra, Ida sinaliza um regresso à sua origem e suas memórias vividas no período em que se a tragédia provocada pelo nazismo ainda era bastante recente.
O roteiro mostra uma jovem, no ano de 1962, que está para fazer os votos no convento para se tornar freira: Anna (Agata Trzebuchowska). A sua Madre Superiora (Halina Skoczynska) diz que ela deve conhecer sua família, constituída apenas por sua tia Wanda (Agata Kulesza), uma juíza atormentada por suas ligações políticas pregressas, e saber de sua história verdadeira: ela é de origem judaica, chama-se Ida Lebenstein e deseja agora encontrar seus pais, dos quais se separou na Segunda Guerra Mundial. A viagem que ela fará com a tia constitui o núcleo do filme, trazendo ainda a figura do saxofonista Lis (Dawid Ogrodnik). A tia Wanda é uma espécie de correspondente para o personagem de Jean-Louis Trintignant em O conformista, de Bernardo Bertolucci: com um passado comprometedor, ela está mais interessada em conquistar novos homens e em prazeres etílicos; parece, em sua composição, um oposto da sobrinha. De qualquer modo, o que as duas buscam é o entendimento do passado, no qual estão congeladas, para que possam buscar novamente o futuro – e, se houver, ainda longe de uma Guerra ainda não tão distante. E o fazem numa espécie de road movie sem grande duração, mas cuja transformação se dá por meio de sua estrutura singular.

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Mostrar um personagem de alguém sendo convertido à religião já rendeu muitos filmes de qualidade, e talvez o mais recente de destaque seja, junto a Calvary, ainda inédito nos cinemas brasileiros, o romeno Além das montanhas, de Christian Mungiu. Há alguns traços deste filme na trajetória de descoberta de Ida e seu conflito diante da religião, embora o filme de Pawlikowski seja muito mais ágil, mesmo que se desenvolva de maneira lenta.
Poucos filmes são tão bem filmados quanto Ida – e suas imagens e cenários conseguem recordar tanto Satantango quanto A fita branca, e ainda No decurso do tempo, o road movie antecipatório de Wim Wenders nos anos 70 –, ainda mais do que os clássicos de Bergman e Bresson – e os conflitos da personagem baseados em gestos silenciosos, com uma discrição irreparável. No entanto, Ida não se constitui apenas num filme de poucas palavras, e sim numa obra que consegue mostrar como o ser humano quer encontrar sua origem e seu direcionamento. No caso, Ida não quer apenas conhecer de onde veio como imaginar, mas experimentar o que não conhece. Sua postura não é a de seguir sua tia, mas tentar buscar o universo contrário àquele que é mostrado dentro do convento. No entanto, e é isso que Pawlikowski desenvolve: até que ponto a personagem está pronta, tendo vivido a maior parte de seu tempo dentro de uma rotina de enclausuramento, para enfrentar as paisagens distantes que esta obra oferece a cada passagem? O que ela pode enfrentar depois de conhecer o seu passado que já não compreende toda uma vida? E Pawlikowski se mostra aqui um artesão eficiente em desenhar imagens que podem ter uma ressonância para a narrativa e o envolvimento com cada personagem, mesmo que não existam tantos diálogos. Nesse sentido, existe uma reserva de movimentos ao longo do filme: os instantes de reunião no convento remetem sempre a uma rotina preestabelecida, e o diretor trabalha essa sensação de maneira efetiva para o espectador se sentir inserido nela.
O diretor revela cenas de profundo sentido, mesmo quando a personagem sai de um quarto de hotel e sob duas lâmpadas, enquanto há uma lâmpada no andar debaixo – e a escada simboliza descer de um certo pedestal e encontrar, no térreo do hotel, a música de John Coltrane. O salão, com jovens dançando em cima de um xadrez que serve como eco dos anos 50 e antevê os anos 80, com a música de jazz ao fundo reserva, ao mesmo tempo, um ânimo e uma melancolia, que desencadeia uma conversa do lado de fora, quando não se espera que a música sirva como aproximação. Ou a sequência em que Ida visita o antigo lugar da família, com seu vazio notável, ao mesmo tempo tomado de história a ser relatada.

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Essa faceta campestre do filme dialoga diretamente com os filmes de Béla Tarr e guarda uma ambientação bastante real, ao mesmo tempo em que transporta o espectador para um universo que parece à parte. O universo enfocado aparentemente revela o embate entre o mundo religioso e o mundo fora do convento, mas Pawlikowski, mesmo assim, em nenhum momento, foge à simetria daquele cotidiano da jovem destinada a ser freira: cada momento é, ao mesmo tempo, uma novidade (como o conhecimento da música) e uma condição prévia para se entender uma tradição. Cada personagem, nesse sentido, simboliza algo: Wanda representa um lado tortuoso da justiça, o saxofonista a música e a liberdade e Ida, a busca por um determinado ideal, ligado ou não à religião. Os personagens, de determinado modo, se completam, mas todos estão à sombra dessa sensação de que algo se perdeu com a Guerra, mais precisamente o ânimo objetivo e sem culpas diante de tomar um direcionamento na vida. Com música ou a liberdade, tudo parece se reduzir a um peso opressivo e uma indefinição do que deve ser feito ou enfrentado.
Por isso, o roteiro a princípio simples esconde um estudo sobre o desenvolvimento da culpa em cada geração, relacionado a acontecimentos anteriores (neste caso, a Segunda Guerra Mundial) ou à própria condição existencial, e Ida e Wanda representam mulheres inseridas, cada uma, dentro de um determinado olhar sobre a experiência humana.
Ida certamente é auxiliado pelas imagens da fotografia em preto e branco antológica de Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski – cada uma parece um retrato antigo, com suas sombras e luzes, além das árvores a distância, lembrando algo do expressionismo alemão, o que já havia em Satantango, homenageado na última cena, fazendo de seus ágeis 80 minutos (uma metragem comum na trajetória do diretor) uma experiência transformadora. O preto e branco de Ida não corresponde apenas a uma escolha estética, mas ao fato de que não apenas o seu tema está divido entre o que está descoberto como o que é implícito, mas também os personagens precisam enfrentar o inverno exterior como as perdas que ficam escondidas dentro: a neve que o sol não derrete em determinado momento é tão nebulosa quanto o espectro de um passado que a personagem central precisa encontrar, a fim de se reerguer de uma vida misteriosa. A maneira como o diretor detalha essa dualidade provocada pelo preto e branco, e o modo como ele vai demarcando cada cenário, em que marca presença uma tentativa de também dialogar com a  situação dos personagens, torna-se uma das características mais acertadas deste filme extraordinário.

Ida, POL, 2013 Diretor: Pawel Pawlikowski Elenco: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dawid Ogrodnik, Jerzy Trela, Adam Szyszkowski, Halina Skoczynska, Joanna Kulig, Dorota Kuduk, Natalia Lagiewczyk, Afrodyta Weselak Roteiro: Pawel Pawlikowski, Rebecca Lenkiewicz Fotografia: Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski Trilha Sonora: Kristian Eidsen Andersen Produção: Eric Abraham, Piotr Dzieciol e Ewa Puszczynska Distribuidora: Music Box Films Duração: 80 min.

Cotação 5 estrelas

 

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