Crepúsculo dos deuses (1950)

Por André Dick

Crepúsculo dos deusesNos anos 1950, enxergar Hollywood como um palco de mistério e assassinato, de diretores e roteiristas a serviço de uma indústria, era obviamente um feito raro. Billy Wilder segue justamente este caminho em Crepúsculo dos deuses (daqui em diante, possíveis spoilers). Estamos diante de um filme em que o narrador aparece morto, boiando numa piscina, na primeira sequência. Wilder vai apresentá-lo aos poucos: é Joseph C. Gillis (William Holden), um roteirista que não consegue vender seu trabalho a Sheldrake (Fred Clark) por causa das críticas de uma avaliadora, Betty Schaefer (Nancy Olson). Fica, então, desempregado, ameaçado mesmo de perder o carro e, quando vai falar com agente, escuta que a sua dificuldade pode resultar em novas obras. Não há espaço, aqui, para a contemplação do cinema como um mistério. Wilder estabelece logo a ligação entre o cinema e os ganhos trazidos por uma obra e a influência que um artista pode ter ou não dentro da indústria, apresentando todas as bases do cinema de metalinguagem sem, em nenhum momento, entregar-se de fato a ela, ou seja, sem tornar as motivações dos personagens numa simples homenagem a esta arte.
Isso se esclarece quando Gillis chega à mansão de uma diva do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson), fugindo de cobradores em busca do pagamento de suas dívidas. Norma vive quase totalmente esquecida, não fossem as cartas de fãs e de um mordomo, Max Von Mayerling (Erich von Stroheim), que insiste em cuidá-la. Wilder desenha longas sequências e, quando se adentra a mansão, consegue estabelecer imediatamente um clima noir e um clima policial – sem mortes. Gillis deseja voltar ao centro e, principalmente, a ter um emprego. Já Norma tem um roteiro de própria autoria, baseado na história de Salomé, e quer que um roteirista consiga estabelecer a qualidade que ele teria. O roteirista aceita, sem ter nenhuma outra oportunidade a curto prazo. Necessitando do dinheiro, ele tenta despistar, a fim de receber um valor acima, mas aceita realizar o trabalho. No mesmo dia, ele já está instalado num quarto para hóspedes em cima da garagem, com todas as suas roupas trazidas pelo mordomo. Toda atmosfera do filme de Wilder, que se desloca de um campo de golfe para uma mansão que remete à fantasmagoria do gênero de terror dos anos 30, com uma sala de cinema em uma de suas seções, lida com o universo cinematográfico, mas nela os personagens desenvolvem uma situação existencial de modo abrangente.

Crepúsculo dos deuses.Filme 4

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Daí porque Crepúsculo dos deuses vai tratar especificamente da relação entre este roteirista renegado por Hollywood e esta estrela que quase ninguém mais sabe que existe, que recebe visitas esporádicas de pessoas estáticas e passa as noites vendo seus antigos filmes, vislumbrando um passado já distante. Pela própria narração de alguém que está contando sua história depois da morte, Crepúsculo dos deuses é inovador. Ele se estabelece em camadas referenciais e surrealistas, como o próprio enterro do macaco, a que Gillis assiste na chegada à mansão, mas muito mais de uma melancolia que vaga entre os personagens. Estes não sabem exatamente o que querem – se o querem – e estão à espera de um sinal da grande cidade, com suas ruas luminosas, diante da Sunset Boulevard onde mora Norma – antecipando a Mulholland Drive de Rita em Cidade dos sonhos –, para que possam voltar aos holofotes principais. Norma sonha em estabelecer contato com o principal diretor do início de sua carreira, Cecil B. DeMille.
É justamente B. DeMille que aparece quando Norma decide fazer uma visita estúdio da Paramount, onde ele trabalha, a fim de tratar do roteiro. Este roteiro foi feito por alguém que começa a se sentir preso na mansão, como se pertencesse a Norma. Quando ele deseja estabelecer um contato com pessoas mais jovens e se depara novamente com a jovem Betty, que arruinou com críticas um de seus roteiros, fazendo-o perder um trabalho, é justamente a tentativa de continuar vinculado a um sonho. Um trecho de roteiro seu passa a representar a realização de um todo que pode ser completo. A mansão se estabelece, assim, como uma ilha fantasma afastada da realidade, das festas e sonhos de Hollywood. Mergulhada na chuva e na bruma, esta mansão tem sua piscina vazia, mas Norma passa a recuperá-la quando seu domínio sobre Gillis cresce, por meio de ódio e delicadeza misturados. Norma obviamente manipula o roteirista, com seu passado triste, seus móveis deslocados da contemporaneidade, seus filmes noturnos, e com seus gestos e cuidados estéticos de que voltará a ser a estrela. Atrás de sua mesa ou na cama, fingindo-se de diva, ela desapareceu por trás da própria imagem que Hollywood cultivou.
Diante do amante, ela encena um número vestindo-se de Charlie Chaplin e vemos os dois lados da estrela: a paixão por sua época (do cinema mudo) e a sensação de que gostaria de ser a artista completa, podendo dizer tudo pelo gestual sem necessitar de um close de Cecil B. DeMille.

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O que Crepúsculo dos deuses assinala com grande sucesso, dificilmente repetido em outros filmes, é a eficiência em mostrar uma estrela de Hollywood que habita apenas uma ausência e o sentimento um tanto vago, por si mesma e pelos outros. A figura do mordomo, nesse sentido, é exemplar: sempre recorrendo ao passado para tentar encobrir o presente, ele estabelece um clima de filme de suspense e terror – a mansão oferece isso –, enquanto insere mais drama em pequenas situações que cercam a estrela que deseja cultivar.
O roteirista, além de deslocado do universo de Hollywood, o qual só pode visitar em escapadas noturnas, para enfrentar a própria realidade e sua limitação diante de um amor apenas imaginado, é o eixo central para que os outros personagens transmitem com essencial particularidade. Percebe-se o quanto seu personagem influenciou o de Vincent D’Onofrio em O jogador, de Robert Altman, e, ainda pela sua contemporaneidade, pode ser visto como uma espécie de símbolo resignado do que Hollywood pode oferecer a quem pretende extrair algumas saídas de suas ruas. Nelas, podemos nos deparar também com Buster Keaton, H. B. Warner e Anna Q. Nilsson (todas estrelas do cinema mudo). Mas Hollywood, no filme de Wilder, não anuncia nenhum alívio. O motivo de Norma comparecer aos estúdios da Paramount, por meio do telefonema de Gordon Cole (mesmo nome do agente do FBI interpretado por David Lynch em Twin Peaks, o que se explica pelo fato de Crepúsculo dos deuses ser um dos filmes preferidos dele), abala a estrutura do filme e reinsere os personagens em seu jogo de espelhos, fingindo ignorar a realidade e os próprios ratos que caminham pela piscina da mansão por meio da presença de um carro, cujo passado só pode servir a um filme necessariamente de época.
Com uma fotografia em preto e branco de John F. Seitz e uma direção de arte fascinante – sobretudo com os detalhes da mansão e do estúdio que Norma visita –, Crepúsculo dos deuses retoma um registro de desilusão em cada caminhada dos personagens. Diante de Norma e Gillis, estamos diante de dois personagens que se enganam ou verdadeiramente se gostam, independente do universo em que vivem? O papel do mordomo é apenas servir de consolo para o passado já perdido por Norma ou representa a própria repetição dos clichês de filmes antigos? Os atores estão num momento esplêndido: se Holden mostra a fragilidade de um homem guiado pela ordem de continuar sempre jovem em Hollywood, Swanson desenha uma ex-diva afastada da realidade com uma consistência grave, enquanto Von Stroheim empresta a seu mordomo as nuances necessárias para um filme de mistério sem exatamente pertencer a um determinado gênero.
Wilder deposita cada uma dessas perguntas numa sequência enfileirada de imagens que nos permitem, mais do que entender o sonho de cada um, perceber a sua tentativa de se perder, para não voltar mais às rodas de Hollywood e dançar diante de uma banda numa mansão quase totalmente vazia. Nesse sentido, um close-up não seria primordial para perceber que Crepúsculo dos deuses é extraordinário.

Sunset Boulevard, EUA, 1950 Diretor: Billy Wilder Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Jack Webb, Cecil B. DeMille, Buster Keaton, Hedda Hopper, H.B. Warner, Ray Evans, Jay Livingston Roteiro: Billy Wilder, Charles Brackett, D. M. Marshman Jr. Fotografia: John F. Seitz Trilha Sonora: Franz Maxman, Richard Strauss Produção: Charles Brackett Duração: 110 min. Distribuidora: Paramount Home Entertainment

Cotação 5 estrelas

 

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