Amores inversos (2013)

Por André Dick

Amores inversosQuando se tem Bob e Harvey Weinstein como produtores executivos, um filme pode encontrar o caminho das indicações ao Oscar, como vem acontecendo há alguns anos, com filmes como Os discurso do rei vencendo o prêmio, ou, no sentido oposto, atrair pouca atenção, devido justamente ao fato de os produtores não acreditarem tanto em seu potencial para a temporada de final de ano, quando costumam surgir os favoritos às categorias. Em alguns momentos, mesmo o aspecto clássico dado pelos Weinstein a algumas produções costuma ser não apenas uma característica, mas um verdadeiro caminho para se estabelecer uma ligação com o espectador. Quando se tem à frente do elenco uma atriz como Kristen Wiig, pode ser, no entanto, que o filme não se enquadre num determinado gênero. Talvez seja o caso de Amores inversos, que já nos Estados Unidos não encontrou público, apesar de ter sido lançado acompanhado de bons comentários no Festival de Sundance, mesmo porque lembra mais aqueles dramas intimistas e talvez longínquos, bastante lentos, com um estilo de filmagem discreto, também baseado nos dramas cadenciados feitos na Europa.
Wiig, mais conhecida por ser comediante, sobretudo em Missão madrinha de casamento – filme que costuma ser confundido com as comédias descartáveis –, faz Johanna Parry, uma espécie de babá que acabou de passar por um momento difícil em sua vida. Ela chega à família do Sr. McCauley (Nick Nolte), para cuidar de Sabitha (Hailee Steinfeld), sua neta. A adolescente perdeu sua mãe e seu pai, Ken (Guy Pearce), apesar de morar em outra cidade, desperta o interesse de Johanna, imaginando um amor a distância, em razão de uma determinada situação. Esta primeira parte do filme está centrada justamente no modo como Johanna tem dificuldade de se ajustar num ambiente familiar, embora seja atraída por ele justamente por não tê-lo – e sua chegada, com a mala na mão, lembra o ingresso de uma personagem dos anos 50 numa trama contemporânea, inclusive por causa de seu figurino deslocado e seu comportamento dividido entre atender ao chamado que lhe é feito e tentar incluir nele uma espécie de mudança em sua vida.

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Já vimos outros artistas fazendo o movimento da comédia para o drama, e o principal, no cinema contemporâneo, talvez seja Jim Carrey, bastante convincente em O show de Truman, O mundo de Andy e Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Isso demonstra, principalmente, que Wiig é uma atriz múltipla. Ela compõe um personagem que faz jus ao conto em que ele se baseia, escrito por Alice Munro. Em alguns momentos, há lacunas próprias de uma adaptação feita de um conto, com menos expansão nos diálogos, no entanto é difícil encontrar atuações fortes como a de Nick Nolte, mesmo com sua pouca presença em cena. Steinfeld, depois de ser indicada ao Oscar de coadjuvante por Bravura indômita, apesar do papel pequeno, também volta a ser boa presença e Samy Gayle, como sua amiga Edith, é outro destaque. Há uma motivação estranha por trás do comportamento de Edith, que permite ao filme que se trace uma espécie de rivalidade subjetiva entre ela e a personagem central, conferindo a algumas cenas uma certa naturalidade juvenil. Mas, ao lado de Wiig, parece ser o melhor momento da trajetória de Guy Pearce, ator australiano que está também no recente A caçada, ao lado de Robert Pattinson. Ele cresceu muito depois de se revelar sobretudo em Amnésia de Nolan, seguido pela ótima atuação em Reino animal, e no papel de Ken, que passa por problemas com drogas, consegue ser mais uma vez convincente, com um drama pessoal também acompanhado por Chloe (Jennifer Jason Leigh). A diretora  reproduz a rotina de Ken de maneira a mostrar que sem ela não haveria o interesse real de Johanna em buscar a sua própria mudança: afinal, se o filme inicia com uma pontada de depressão, pode haver uma reviravolta solar para a trama. Nesse sentido, do mesmo modo que na prosa de Munro, há uma espécie de fidelidade da diretora Liza Johnson às mudanças da narrativa sem que sejam dadas explicações detalhadas sobre o que está acontecendo; nesse sentido, não se trata de um roteiro previsível, mas baseado na mudança comportamental e subjetiva dos personagens.

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A narrativa segue um ritmo do cotidiano, sem grandes acontecimentos, no entanto com uma fotografia cuidadosa de Kasper Tuxen, iluminando ambientes do interior ou da periferia de uma cidade, onde Ken mora, a diretora Liza Johnson delineia bem o afastamento da personagem central: Wiig mostra a sensação de alguém que está afastada do mundo na mesma medida em que tenta fugir do lugar-comum (a sequência em que ela tenta se inscrever na biblioteca mostra o quanto ela tem talento). Desde o seu início, ela dá a impressão de ser completamente distante de qualquer resquício familiar, e o espectador não tem informações de sua vida. Esse afastamento acaba sugerindo uma imersão mais detalhada nos sentimentos da personagem, uma espécie de Mary Poppins silenciosa (vejamos a cena dela entrando no apartamento de Ken pela janela, com uma projeção de cinema infantojuvenil). Há uma espécie de silêncio rondando as motivações dos personagens, e a diretora nunca os coloca num determinado embate, reduzindo os diálogos e as motivações quase ao mínimo, mas sem deixar de explorar o que parece ser pouco e se mostra capaz de revelar as situações com mais ênfase.
O drama pessoal de Ken, desse modo, acaba ganhando uma caracterização sem apelo dramático, fazendo com que Wiig e Pearce se concentrem basicamente em gestos de apoio mútuo, assim como o interesse do Sr. McCauley por Eillen (Christine Lahti) acabe se mostrando não exatamente um acréscimo para a obra, mas um exemplo de como Liza Johnson delineia com cuidado todos os elementos da narrativa, ampliando o entendimento do espectador para cada drama apresentado. No entanto, refletindo seus gestos e é surpreendente o quanto foi recebido com certa indiferença este belo drama nos Estados Unidos. Mas não siga o mesmo engano: Amores inversos, com sua simplicidade e lentidão, é um dos melhores filmes a serem lançados este ano.

Hateship loveship, EUA, 2013 Diretora: Liza Johnson Elenco: Kristen Wiig, Guy Pearce, Nick Nolte, Hailee Steinfeld, Christine Lahti, Jennifer Jason Leigh, Sami Gayle Roteiro: Alice Munro, Mark Poirier Fotografia: Kasper Tuxen Trilha Sonora: Dickon Hinchliffe Produção: Dylan Sellers, Jamin O’Brien, Michael Benaroya, Robert Ogden Barnum Duração: 102 min. Distribuidora: Paris Filmes

Cotação 4 estrelas

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