Vida de adulto (2013)

Por André Dick

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Há uma tendência de se rotular filmes como herméticos e inteligentes e outros como simplesmente descartáveis. Sob este ponto de vista, determinados filmes são lançados e rotulados como desprovidos de uma aura especial de inteligência: Vida de adulto, o mais novo filme com John Cusack, se tornou um deles. Desde seu lançamento, apesar de boas críticas parciais, estávamos diante de um cult fracassado, que não acrescentaria a seu tema, pois simplesmente se prestaria a um determinado humor involuntário. A antítese desse tipo de tratamento seria, por exemplo, aquela concedida a uma obra como Amores imaginários, de Xavier Dolan, por seu tratamento mais influenciado pelo cinema francês.
Com uma rápida trajetória nos cinemas norte-americanos, Vida de adulto foi lançado diretamente em DVD e Blu-ray no Brasil. Enquanto se assiste a ele, pode-se ficar em dúvida sobre o que gostaria de ser: por um lado, é uma comédia estridente, nada discreta e por vezes até excêntrica; por outro, ele consegue ter espaço para um certo drama e conflito existencial da personagem central, Amy, que gostaria de ser poeta e tem como influência Sylvia Plath, cujo suicídio ela tenta imitar já na primeira sequência. Ao contrário de outros filmes sobre o tema literatura, Vida de adulto não conduz seus personagens para um universo à parte, como Dentro da casa ou Depois de maio, ou de pretensa introspecção de um artista, como Inside Llewyn Davis, nem apresenta a densidade de Poesia. No entanto, ao mostrar essa jovem que gostaria de ser vista como um talento poético, com uma atuação exagerada de Emma Roberts (também presente no surpreendente Palo Alto), mas estranhamente convincente em sua mescla de comportamento bipolar e melancolia, e intervalos pop soando o descartável, consegue dizer certamente mais do que os três primeiros, com toda sua seriedade ou sua metalinguagem em parte previsível.

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A história de Vida de adulto se desenvolve em Syracuse, com Amy, que tem como melhor amiga Candace (Shannon Woodward), mais afeita a participar de movimentos pelos quais a amiga não tem nenhum interesse, encontrando emprego numa sex shop, chamada exatamente Adult World. Nela, conhece uma das donas, Mary Anne (Cloris Leachman), e o gerente, Alex (Evan Peters), amigo de um transexual, Rubia (Armand Riesco). No entanto, Amy ainda é virgem e o ambiente em que inicia seu trabalho não seria o mais indicado para compartilhar suas experiências. Em conflito com os pais, Amy encontra seu poeta preferido, Rat Billings (John Cusack), o qual passa a perseguir, sobretudo depois de uma sessão de autógrafos desastrada em que a narrativa esboça seus exageros. Amy quer ser protegida de Billings, investindo numa carreira, mas o filme não desliza para as falhas de Garotos incríveis, o filme bastante superestimado de Curtis Hanson, mostrando Billings como um autor no mínimo irônico, a melhor atuação de John Cusack em vários anos, e com alguma influência de O lado bom da vida, no ritmo de conversas entre os personagens.
A inclusão de Cusack não acontece por acaso: com uma bela fotografia de James Laxton, dialogando com filmes independentes, o clima e a atmosfera, também da trilha sonora (assinada quase completamente pela Handsome Furs), de Vida de adulto é de anos 80, além de determinados maneirismos de Cusack que vimos em Matador em conflito. O cinema dos anos 80 ficou também conhecimento pela vertente de filmes jovens apoiada por John Hughes, com peças que acabaram se tornando referenciais, como Gatinhas e gatões, O clube dos cinco e A garota de rosa shocking, para não falar em Curtindo a vida adoidado. No final da década de 90, Alexander Payne conseguiu utilizar a inteligência do cinema de Hughes com uma vertente de cinema considerado indie em Eleição – e o que temos neste trabalho de Coffey é um aproveitamento de ambas as vertentes sob o ponto de vista do humor estridente, com alguns elementos do ótimo Jovens adultos, em que Jason Reitman mostrava uma escritora, interpretada por Charlize Theron, voltando à sua cidade depois de se tornar ghost-writer de livros infantojuvenis.

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Vida de adulto pode mesmo se tornar um filme exagerado, mas não é possível ficar indiferente à maneira como ele vai combinando os personagens de forma despretensiosa e aparentemente sem conflitos quando na verdade reserva uma visão corrosiva sobre aquilo que pretensamente é visto como cult ou respeitável – e a personagem central, ao mesmo tempo em que não se sente com talento, sempre agindo de acordo com clichês de comportamento (como em outro momento no qual Amy tenta seduzir Billings), sendo, por outro lado, estranhamente, uma figura original.  Sua amizade com Rubia, em grande atuação de Riesco, não chega a ser explorada da maneira que poderia, mas Evan Peters, como seu amigo de loja Alex, consegue, ao mesmo tempo, soar como uma inclinação a um romance verdadeiro. Peters, para isso, é bastante convincente, situado entre o interesse por Amy e uma insegurança em demonstrá-lo. No entanto, é a desenvoltura da relação entre os personagens de Amy e Billings que dá o tom do filme e, consequentemente, as atuações de Roberts e Cusack. Há pelo menos duas sequências excelentes (em que Cusack é plenamente confrontado com a falta de discrição de Amy), quando o elenco se mostra efetivo.
Nesse sentido, o que, no início, parecia apenas uma sátira se transforma em um filme mais interessante do que se previa, estranhamente emocional, beirando o limite do seu tema, por causa não apenas de Roberts e Cusack, mas por seu diretor Scott Coffey (que fez Ellie Parker, com Naomi Watts). Coffey foi ator nos anos 80 e trabalhou, de forma quase invisível, como um dos coelhos de Império dos sonhos, de David Lynch, e sentimos que aqui ele se coloca como autor. É ele o responsável pelos maiores acertos de Vida de adulto, no qual existe mais do que pede para ser visto: sua alegria desmedida, que não se leva a sério, parece esconder tanto a despedida de toda uma estação na vida dessa personagem quanto os idos de uma geração, que perdeu a inocência, além do fato de que não é possível se esconder do seu destino mesmo sem ter ao lado Rilke, Octavio Paz ou Billings. Quando as luzes de uma discoteca se acendem e Amy parece descobrir o mundo adulto, ao som de “Repatriated”, há uma estranha sensação de que a personagem não se sentiria mais tão excluída do mundo se participasse de uma antologia apenas como fonte de diversão e afastamento de tudo, e o espectador embarca com ela para uma jornada desconhecida. Gostando-se ou não de Vida de adulto, ele proporciona essa jornada com grande autenticidade.

Adult world, EUA, 2013 Diretor: Scott Coffey Elenco: Emma Roberts, John Cusack, Evan Peters, Armando Riesco, Shannon Woodward, Cloris Leachman Roteiro: Andy Cochran Fotografia: Gina Hirsch, James Laxton Trilha Sonora: BC Smith Produção: Alex Goldstone, Joy Gorman, Justin Nappi, Manu Gargi Duração: 97 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Anonymous Content / Treehouse Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

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