Transcendence – A revolução (2014)

Por André Dick

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Quando foi anunciada a estreia de Wally Pfister, diretor de fotografia dos filmes de Cristopher Nolan, com Johnny Depp, à frente de uma grande produção, logo se criou uma grande expectativa. Talvez seja esta mesma expectativa que tenha feito o estúdio colocar Transcendence – A revolução um pouco antes das estreias de verão, como se fosse um blockbuster destinado a arrecadar milhões. Com grande prejuízo nas bilheterias e um rastro de críticas em parte bastante negativas, o filme de Pfister não conseguiu criar uma empatia direta, mesmo com seu elenco: além de Depp, Morgan Freeman e Rebecca Hall, para citar apenas os principais. Filmes de ficção científica com fundo filosófico dificilmente conseguem, de qualquer modo, atrair uma grande bilheteria, independente de seus objetivos: é quando a ficção se mescla com cenas de movimento contínuo que o gênero costuma crescer em todos os sentidos – e se tiver espaçonaves e batalhas espaciais quanto mais melhor. E é importante não esquecer: Godzilla foi um grande sucesso de bilheteria e mesmo elogiado por grande parte da crítica estrangeira, mesmo sendo o filme que, de fato, é.
Daí não ser uma surpresa que Transcendence tenha sido recebido com tanta desconfiança, além, claro, de que sua história não estava interessada em puxar os elementos mostrados para o lado espetacular da questão, preferindo se manter com uma certa reserva e um certo tom de onirismo ao longo de sua narrativa. Esta mostra um cientista, Will Caster (Johnny Deep), casado com Evelyn (Rebecca Hall), que, quando está fazendo uma palestra sobre a inteligência artificial, descobre a existência do grupo Revolutionary Independence From Technology (RITF). Ao mesmo tempo, há a presença do agente do FBI Donald Buchanan (Cillian Murphy), acompanhado do cientista do governo Joseph Tagger (Morgan Freeman), investigando a história. Caster tem o objetivo de retornar de maneira a princípio inacreditável: ele tenta transferir sua consciência para um computador. Tendo o apoio da mulher, mas a desconfiança de seu melhor amigo, Max Waters (Paul Bettany), Caster tentará se tornar uma espécie de humano habitando um sistema de informática, quase uma versão masculina do Ela de Spike Jonze.

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Enquanto isso, Max é perseguido por  Bree (Kate Mara), o líder do RIFT, e, na medida em que terá de se decidir em trair Caster ou segui-lo, e do mesmo modo continuar fiel à imagem de sua amiga, Max se tornará um personagem deslocado pelos acontecimentos.
Caster quer ainda mais: criar no deserto um lugar em que as pessoas possam ir se tratar, com ganhos envolvendo a a biologia, a tecnologia e as nanotecnologias. Estão aí todos os elementos de uma ficção científica de interesse, e Pfister os trabalha com cuidado. No início, dispondo os personagens em cena, já é possível sentir uma certa atmosfera melancólica, inusitada neste tipo de filme. Os personagens estão em contato uns com os outros, mas ao mesmo tempo parece haver um afastamento.  E, se a trama oferece a impressão de andar lenta demais, é mais porque Transcendence, embora pareça, não segue o ritmo da maioria dos blockbusters, preferindo se concentrar na relação entre Caster e Evelyn. Esta é baseada no conhecimento científico e nas descobertas, mas não consegue nunca ganhar corpo porque ambos os personagens se situam e se comportam como pessoas deslocadas. Na verdade, eles parecem sempre estar em sonhos ou transições de energia, como o da internet, nunca em lugares fixos ou determinados. O quarto de Caster e Evelyn, por exemplo, é um exemplo de lugar que aparenta ser acolhedor, mas esconde os conflitos do casal deixados em vida. O fato de se fazer o upload da consciência de Caster para um computador não significa, para Evelyn, que ele de fato exista, mas que pode ser ameaçador e dominador como a rede da internet em que ele pretende sobreviver e se espalhar.
Não é por acaso, neste sentido, que Transcendence, a partir de sua segunda metade, prefira mostrar a tentativa de Caster criar uma comunidade no meio do deserto, na cidadezinha de Brightwood. As imagens de Transcendence neste deserto são ao mesmo tempo vagarosas e contemplativas, sugerindo um espaço-tempo indefinido e lembram as do início do filme 2010 – O ano em que faremos contato, quando o sol está nascendo em frente a placas de energia solar. A direção de arte do filme de Hyams tem semelhanças com a do filme de Pfister, sendo que esta é ainda mais elaborada e evoca sempre um sentimento de solidão e afastamento do mundo. O cenário dialoga com a tentativa de Caster é soar como um deus capaz de regenerar – ou de transcender, conforme o título – toda a humanidade à sua volta. Como Caster, Depp está num limite tênue entre a apatia e a frieza tecnológica, mas talvez seja uma necessidade de não soar como seus personagens ligados aos filmes de fantasia, enquanto Hall demonstra o talento já mostrado em outros filmes, compondo uma mulher situada entre o mundo experimental e a preocupação de lidar com algo que pode fugir ao controle.

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Dentro do que se propõe, ele cumpre o que Pfister organiza com a lentidão de sua narrativa, sem nenhum momento estridente de ação no sentido em que o cinema vem se moldando nos últimos anos. Embora haja elementos de filmes de Nolan, sobretudo de A origem, sobretudo numa certa confluência entre a bela trilha sonora de Mychael Danna (As aventuras de Pi), fotografia de Jesse Hall (The spectacular now) e diálogos, fazendo com que esses soem o tempo todo dispersos ou vagando pelo espaço pelo qual a narrativa se move, os personagens parecem estar sempre conversando com computadores, como se a consciência humana tivesse sido deslocada para esse compartimento, e há imagens de grande sensibilidade, sobretudo quando mostra o corpo como uma coleção de partículas, em contraste com as tormentas que surgem. Transcendence consegue muito mais empregar uma elegância por meio de seu trabalho de fotografia e diálogos breves e soltos, com o apuro de uma montagem não linear, mas que ao longo da narrativa se torna mais confusa e mais evocativa. É interessante como Pfister, por exemplo, mostra os ambientes da universidade, de maneira asséptica, e dos laboratórios e corredores em que Caster passa a trabalhar com as nanotecnologias com a mesma luminosidade de Apichatpong Weerasethakul em Síndromes e um século, assim como é compreensível que o início do filme antecipe o seu final, como uma rede ligada a outra, em que os pontos devem se conectar. Mais ainda é a maneira como Pfister filma, no início, uma gota-d’água num lugar-chave para o casal – e essa gota antecipará a verdadeira transcendência, numa imagem sobretudo elaborada, fixando-se também na semelhança com o campo de placas de energia em Brightwood, que lembram girassóis voltados para o céu. Pfister certamente não está conduzindo a humanidade, em seu filme, a uma fuga dos compromissos modernos e contemporâneos por meio dos computadores, mas vendo a base desse sentimento pela consciência artificial. Neste sentido, Transcendence é um filme que, mais do que pontos bastante interessantes a serem discutidos, foge a qualquer traço de simples filme comercial, daí sua maior originalidade e aquilo que equivale a seu título.

Transcendence, EUA, 2014 Diretor: Wally Pfister Elenco: Johnny Depp, Morgan Freeman, Rebecca Hall, Paul Bettany, Kate Mara, Cillian Murphy, Cole Hauser, Clifton Collins Jr. Roteiro: Jack Paglen Fotografia: Jess Hall Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Andrew A. Kosove, Annie Marter, Broderick Johnson, Kate Cohen, Marisa Polvino Duração: 119 min. Estúdio: Alcon Entertainment / Straight Up Films

Cotação 4 estrelas

 

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8 Comentários

  1. André Dick

     /  2 de janeiro de 2015

    Fazer gracejos indicando o que o texto não necessita exigiria uma assinatura. Mas isto é difícil de fazer, não é? Mais fácil ficar no anonimato. As page views do seu blog ou site estão baixas? Tente escrever melhor.

    Responder
  2. Melhor texto sobre o filme que encontrei nesse ninho de Maria vai com as outras. Parabéns e obrigado!

    Responder
    • André Dick

       /  18 de janeiro de 2015

      Prezado Frank,

      Fico feliz que também aprecie esta ficção científica subestimada. Todo ano escolhem algum filme sem motivo para apontar todos os males da indústria; o de Pfister foi o da vez. E agradeço pelo comentário generoso.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  3. André Filho

     /  30 de janeiro de 2015

    Eu gostei do filme e da crítica também. Eu gosto quando o enfoque é no roteiro, ao invés de imagens grandiosas, explosões e chororô mexicano. É um filme cabeça, com mensagem, no entanto é preciso ter alguma noção de neurociência, cibernética, singularidade, bioética e nanotecnologia para captar a captar, coisa que a maioria não tem, em especial os que adoram blockbusters e filmes de super-heróis. Eu só achei a direção fraca, mas está explicado por ser a estreia de um fotógrafo na direção. De resto, é muito bom, um filme que recomendo.

    Responder
    • André Filho

       /  30 de janeiro de 2015

      *captar a mensagem

      Responder
      • André Dick

         /  1 de fevereiro de 2015

        Prezado André,

        Agradeço por seu comentário a respeito do filme e da crítica. Também gostei muito no enfoque dado ao roteiro e ao ambiente em detrimento da ação desenfreada. É um filme bastante deslocado, mesmo pelos temas com que trabalha, lembrados por você, mas é muito válido que tente algo diferente. Eu até aprecio a direção de Pfister, que considero um grande fotógrafo, mas parece faltar ainda a ele o que falta até em diretores mais firmados: uma melhor direção de atores. Ainda assim, o elenco parecer mais frio é proposital pelo tom que ele quis dar e realmente eu acho que ele tem um diferencial no que se refere ao modo de trabalhar as imagens. Espero que ele possa fazer outros filmes, não só como diretor de fotografia.
        Obrigado pela visita e volte sempre!

        Um abraço,
        André

  4. Zamperlim

     /  1 de novembro de 2015

    Caramba, assisti esse filme hoje, e digo que… GOSTEI MUITO!
    Realmente não dá pra levar as críticas como sendo a verdade absoluta… Sim, elas ajudam, MAS, tire suas próprias conclusões!
    Não sei o que as pessoas esperavam desse filme, mas realmente gostei do que foi apresentado!
    Os conceitos abordados de tecnologia, IA e tudo que isso envolve… [SPOILER] A única coisa que pegou pra mim foi o lance do vírus no final… pois a IA deveria interpretar e anular o vírus! (Minha opinião!) Mas, ok, aceitei o final da “estufa”! [/FIM DO ESPOILER]
    Daria no mínimo 3 estrelas! (de 5)

    Responder
    • André Dick

       /  2 de novembro de 2015

      Zamperlim,

      agradeço por seu comentário a respeito de Transcendence, que teve a infelicidade de obter uma seleção não de críticos em seu lançamento, mas de haters pouco interessados em olhar realmente para os temas que o filme apresenta. E, quando um filme recebe uma aversão frequente e em cadeia, é lamentável dizer que muitos seguem atrás, desconsiderando, às vezes, o que acharam. Afinal, a crítica tratou Godzilla, ano passado, como um grande blockbuster. Ou seja, deve-se aceitar quem gostou realmente de Transcendence, lançado como um blockbuster sem, na verdade, ser um.

      Um abraço,
      André

      Responder

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