Sob a pele (2013)

Por André Dick

Sob a peleDepois de sua estreia com o filme de baixo orçamento, disfarçado pela montagem, chamado Sexy beast, o diretor Jonathan Glazer realizou um dos filmes mais criticados com Nicole Kidman, o polêmico Reencarnação. Se em Sexy beast ele apresentava Ben Kingsley como um vilão afeito a palavrões e um visual elaborado, em Reencarnação finalmente tínhamos um artesão no sentido de criar uma atmosfera a partir de uma narrativa reduzida, de uma única ideia, expandindo-se para uma discussão sobre a melancolia do casamento (que Von Trier viria a retomar tão bem no filme com Kirsten Dunst). Também conseguia lidar com uma peça dramática como se fosse um filme de suspense e horror, principalmente por meio do trabalho de som, baseado bastante em David Lynch. Ou seja, qualquer movimento de porta ou uma caminhada pelo parque traziam um clima de opressão. Não é de se surpreender que ele tenha escolhido o romance de Michel Faber como base de seu filme mais recente, Sob a pele, curiosamente elogiado justamente pelas mesmas características que eram criticadas em Reencarnação.
Lançado no Festival de Veneza, em 2013, sob protesto do público (não se sabe até que ponto isso foi significativo para a recepção mais adiante da própria crítica, talvez interessada em criar uma obra injustiçada), Sob a pele tem um início altamente promissor: ao som de dezenas de fonemas e palavras soltos, vemos o que parece uma navegação espacial que se reproduzirá como se estivesse formando uma retina humana.  É, sem dúvida, belo e cria um impacto inicial.

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A narrativa traz Scarlett Johansson no papel de uma mulher misteriosa que passa a andar de van pelas ruas e estradas da Escócia, em busca de homens, principalmente solitários. Depois do seu sucesso com a voz de Samantha em Ela (que lhe rendeu vários prêmios e indicações), Johansson volta a seu estilo já mostrado em outros momentos, desde Encontros e desencontros, quase sem falas (como Kristen Wiig no recente Hateship Loveship), imersa numa espécie de escuridão contínua, mesmo à luz do dia – em que o mar pode representar a morte e nem mesmo um bebê na areia pode significar a salvação.
O diretor Jonathan Glazer sempre teve o objetivo de lembrar Stanley Kubrick, mas talvez o único momento em que realmente se aproximou do criador de 2001, além dessa abertura de Sob a pele, foi na realização do clipe “The Universal”, do Blur, que homenageava Laranja mecânica. E os acordes da trilha sonora de Sob a pele, assinada por Mica Levi, poderiam antecipar uma versão feminina de Jack Torrance O iluminado indo para o Golden Room, em que o machado se torna um mar escuro mais semelhante a uma camada fina de petróleo. Se Reencarnação tinha uma criação eficiente do ambiente, em Sob a pele a característica atinge seu ponto mais alto, mas com o tempo passa a ficar deslocada, pois não se estende às situações. A personagem misteriosa não desperta, por sua frieza, uma proximidade do espectador com a história – certamente era o objetivo, mas a partir de determinado ponto torna-se um pouco mais difícil de acompanhar –, e Glazer consegue utilizar o que seria sua marca: uma sucessão de imagens com fundo melancólico e assustador, acertando em algumas (que envolve um dos homens atraídos pela bela misteriosa embaixo da superfície ou aquelas do final, de uma precisão visual muito grande), mas se mostrando excessivamente preciosista em outras. Ele tem a certeza de estar compondo uma obra definitiva, mas há uma aura de tristeza em todas as coisas do filme quando percebemos que ela não é. Os diálogos são mínimos, mas se Glazer tivesse o mesmo talento aqui do diretor Pawel Pawlikowski, que no recente filme Ida quase não oferece falas, mas retribui com um filme excepcional, estaríamos certamente tratando de outra obra.

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Escusado será dizer que Sob a pele visa contemplar uma certa art house pop. Há nele uma certa circunstancialidade experimental (como as atitudes da personagem num restaurante), algumas imagens que lembram algo de uma galeria cult, em que ficamos em frente a vidros com alguma obra por trás, pretendendo ser enigmática, ambientes que lembram algum chroma-key de videoclipes, certos enquadramentos que lembram um found footage e um excesso do que Glazer tem de impactante (e se fazia, a meu ver, com acerto em Reencarnação): a virtuose. Algumas vezes ele destaca uma moto numa paisagem isolada, fazendo ressoar o som dela. É certo: estamos diante de um mundo solitário, e nem as imagens de pessoas no centro de uma cidade conferem ajuda. A personagem misteriosa é uma representação dessa solidão – e ela não tem pena dessa solidão, mas Glazer podia ter tido alguma parcela desse sentimento em relação ao espectador.
O que ele nos oferece é uma sucessão de sequências como Carax em Holy Motors, em que Mr. Oscar se transforma numa figura misteriosa. Glazer está mais interessado em esconder a linearidade de sua narrativa, como Carax em Holy Motors, com temas sugestionados ao espectador, mas que se repetem, com o passar da narrativa, até um certo cansaço. O próprio visual gráfico de uma determinada passagem de Holy Motors que remetia a um casal fazendo contorcionismos sexuais num estúdio anuncia este visual elaborado por Glazer. Tudo é simbólico, mas quando o espectador se aproxima desses símbolos só há uma sensação de vazio, da qual é difícil extrair algo significativo. Não é exatamente porque uma obra é simbólica ou hermética que ela consegue atrair da maneira como gostaria, e parece ser o caso de Sob a pele.
Há casas escuras, à beira da estrada, cavernas, árvores, florestas, o fogo e a neve, as cinzas e o céu, o mar, a inocência, a perversão, o sexo e o castigo: há inúmeros símbolos, mas resta ao espectador conectá-los ou não, e depois de uma possível conexão não se sabe o que acrescentariam realmente ao filme, a não ser voltar ao círculo inicial da retina: tudo é triste porque, afinal, para Glazer, representa a humanidade, e as cinzas cairão do céu quando tudo for um apocalipse, de preferência no interior da Escócia. A atuação de Johansson é colocada numa posição difícil; o diretor não a deixa sair do seu controle, e as suas reações são apenas conceituais, quando ela começa a descobrir seu próprio corpo, que é quando o filme obtém seu significado maior e o rosto humano é interpretado por aquilo que não tem rosto. Ela sai-se bem, inclusive com cenas de nudez difíceis, que atraíram publicidade para o lançamento do filme nos Estados Unidos, embora seu personagem pareça sempre estar nos cenários decadentes de Ninfomaníaca, ou seja, é tudo tão asséptico quanto o quarto branco no início do filme, e ela claramente não esteja, em nenhum momento, à vontade – independente de o papel ter esse objetivo. A questão é que, com o roteiro dado por Glazer, Johansson não conseguiria elevar o filme ao patamar que ele gostaria, e Sob a pele se encerra como uma falha de ignição, instigante, com certa ousadia, mas ainda assim uma falha.

Under the skin, EUA, 2013 Direção: Jonathan Glazer Elenco: Scarlett Johansson, Paul Brannigan, Krystof Hádek, Jessica Mance, Scott Dymond, Joe Szula, Michael Moreland, Lee Fanning, Ben Mills, Lynsey Taylor Mackay, Jeremy McWilliams  Roteiro: Walter Campbell Fotografia: Daniel Landin Trilha Sonora: Mica Levi Produção: James Wilson, Nick Wechsler Duração: 108 min. Estúdio: Film4 / FilmNation Entertainment / JW Films

Cotação 2 estrelas

 

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3 Comentários

  1. Jean

     /  27 de junho de 2014

    Concordo com tudo!

    Responder
  2. Uma ótima critica

    Responder
    • André Dick

       /  6 de agosto de 2014

      Caro Dado,

      agradeço pelo comentário generoso e pela visita.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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