Godzilla (2014)

Por André Dick

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Desde o trailer, esperava-se que este novo Godzilla trouxesse uma mistura entre ação e narrativa envolvente, sobretudo para quem apreciou Círculo de fogo, em 2013. Com isso, o diretor Gareth Edwards tenta buscar elementos em J.J. Abrams – que se especializou em monstros na produção de Cloverfield e na direção de Super 8 – e Guillermo del Toro. No entanto, ele se depara pelo caminho com outros cineastas ainda mais interessados na destruição de uma cidade, em colocar militares a cada perímetro e em fazer de dutos do subsolo a única passagem para os cidadãos: Michael Bay e Roland Emmerich. Dificilmente se vê um filme com uma campanha de marketing tão assídua como o novo Godzilla, que surge para tentar apagar a visão que deixou com a versão de Emmerich, do final dos anos 90.
Exatamente no final dessa década, os cientistas Dr. Ichiro Serizawa (Ken Watanabe) e Vivienne Graham (Sally Hawkins) vão a uma mina nas Filipinas a fim de investigar a descoberta de um esqueleto gigante naquela parte do filme que mais lembra o início de Prometheus. Enquanto isso, no Japão, Joe Brody (Bryan Cranston) e Sandra (Julieta Binoche), sua esposa, estão às voltas com transtornos sísmicos na usina nuclear onde trabalham. Quinze anos depois desse acontecimento, o filho de Joe e Sandra, Ford Brody, está na América, mais especificamente em San Francisco casado com Elle (Elizabeth Olsen) e pai de um menino, Sam (Carson Bolde). Ele trabalha na Marinha, tendo como superior o Almirante Stenz (David Strathairn). No entanto, seu pai requer cuidados, vivendo ainda no Japão e visto como alguém no mínimo problemático. Os arcos estão desenhados: um filho afastado do pai; o pai afastado do mundo; e uma dupla de cientistas que sabe de algo misterioso.

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As presenças de Bryan Cranston e Juliette Binoche, ambos de talento insuspeito, tentam acrescentar um elemento dramático – e sobretudo a segunda consegue um momento de humanidade numa obra que parecia pronta para agradar ao grande público –, no entanto são coadjuvantes. Isso significa que Ford Brody, com o mesmo script de Gerry Lane (Guerra Mundial Z), interpretado por Aaron Taylor-Johnson, o “herói”, terá mais tempo de tela na narrativa. A ameaça se cumpre: embora com menos presença do que Godzilla e o inimigo que ele combate (a figura imponente desta vez não é o vilão), temos a presença permanente de Brody. Não apenas seu nome aliterativo chama a atenção, como também tem ao menos uma frase antológica: diante de imagens de Godzilla, ele constata, um tanto preocupado: “É um monstro”. Taylor-Johnson é conhecido pela série Kick-Ass, mas foi em Anna Karenina que mais suscitou críticas, quando, paradoxalmente, faz um papel dentro do que se impõe o personagem. Não se trata de um mau ator, e às vezes tem-se a impressão de que ele tem vontade de rir das próprias linhas de diálogo que escapam dele; em Godzilla ele certamente tenta passar para o campo dos atores que abandonam qualquer gênero para se dedicar à ação. Trata-se, certamente, de uma imperícia dos roteiristas em não conseguir uma linha de diálogos plausível – mas, se houver tranquilidade, o espectador pode definir se tudo não passa de algo pensado por Jim Abrahams, Jerry e David Zucker, embora sem a mesma graça.
O mais curioso é perceber que, mesmo com o desastre cinematográfico literal que certamente marca sua passagem, há quem perceba o filme, sobretudo nos Estados Unidos, como superior a blockbusters do passado, como Além da escuridão – Star Trek, e mesmo este ano a RoboCop, de Padilha, com elogios a um dos diretores menos talentosos a surgirem em Hollywood em muitos anos, com dificuldade de trabalhar com a câmera ou de desenvolver um diálogo saboroso. Ou seja, há análises procurando o que certamente o filme não oferece: uma história minimamente interessante. Mas é ainda mais, pois Godzilla é uma reunião de partes de filmes diferentes, sem um momento preciso de envolvimento com os personagens. Cada movimento parece feito num laboratório de montagem de blockbusters e, nesse sentido, o roteiro é recortado a ponto de ser possível descobrir onde efetuaram um corte para que fosse incluída uma frase expositiva, a fim de tentar resumir o conceito de alguns personagens.

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Godzilla acaba ganhando, assim, um apanhado genérico, desde a movimentação de câmera (também querendo dialogar com Paul Greengrass) até o próprio surgimento dos monstros – e o gráfico das imagens vai de O dia depois de amanhã, passando por 2012, até Cloverfield, O homem de aço, Batman – O cavaleiro das trevas ressurge e mesmo A hora mais escura (nos vinte minutos finais), e recuando para o próprio filme de Emmerich – aqui sem a insistência da chuva. É neste ponto que se percebe a diferença em relação a um filme que tem um autor por trás. Em Círculo de fogo, pode-se até falar dos personagens levemente superficiais, mas tudo nele caminha junto, pois é pensado por um cineasta criativo, Guillermo del Toro, além de sua capacidade de fazer um visual fantástico, com um design de produção notável, principalmente nas batalhas dos robôs contra os Kaiju. E um filme de monstros não significa necessariamente que só deve ter destruição e os monstros em cena – em Godzilla, por outro lado, os monstros pouco aparecem, praticamente apenas na terceira parte, quando, diante das atuações inexpressivas, do roteiro, do CGI e das maquetes, o espectador precisa demonstrar uma resistência hercúlea, parecida com a dos monstros.
Em termos de mitologia do Godzilla, nada parece recuperar a nostalgia dos anos 50 ou 60 e, a meu ver, não faz jus a nada que veio antes, com mais nostalgia e capacidade visual. E ao menos no filme de 1998 tínhamos Ferris Bueller tentando salvar Nova York, com um francês cômico (Jean Reno) e um prefeito pensando apenas na sua eleição (Michael Lerner). Além disso, tinha algumas pérolas em sua trilha sonora (uma regravação de David Bowie, por exemplo) e rendeu um videoclipe icônico de Jamiroquai dançando dentro de um cinema com as cadeiras embaixo d’água depois da passagem do monstro. Aqui, temos algumas referências com viés reflexivo à Bomba de Hiroshima e ao tsunami do Oceano Índico (em momentos que lembram O impossível), mas Gareth Edwards não propicia um instante de real emoção e coloca o elenco como parte de uma engrenagem inexistente (difícil não poder se referir às atuações de Ken Watanabe e Sally Hawkins, esquecidos a partir de determinado instante). A parte final, com um festival de efeitos especiais, com todos os seus decibéis, não passa de uma coda silenciosa e, com cuidado e elaboração, Godzilla adentra numa espécie de metalinguagem: dificilmente um filme como o de Edwards consegue se tornar uma calamidade pública tanto dentro quanto fora da tela, redefinindo, em larga escala, o conceito de “disaster film”.

Godzilla, EUA, 2014 Diretor: Gareth Edwards Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Ken Watanabe, Elizabeth Olsen, Juliette Binoche, Bryan Cranston, Sally Hawkins, David Strathairn, Richard T. Jones Roteiro: David Callaham, David S. Goyer, Max Borenstein Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Brian Rogers, Dan Lin, Jon Jashni, Roy Lee, Thomas Tull Duração: 123 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Legendary Pictures / Lin Pictures / Toho Company / Vertigo Entertainment / Warner Bros. Pictures

Cotação 1 estrela

 

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