Cores do destino (2013)

Por André Dick

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Uma grande surpresa de 2013, desde sua estreia em Sundance, Cores do destino é perturbador, a começar pela direção de Shane Carruth. Em alguns momentos, ele lembra um filme de David Cronenberg, que sempre teve uma tendência a lidar com temas polêmicos e a mostrar o corpo como um fetiche de seus maneirismos. Filmes como Crash mostram bem essa característica, assim como o recente Cosmópolis, em que Pattinson atuava. Há sempre o choque em Cronenberg, seja do homem que, como em Kafka, vai se transformando lentamente num inseto, seja do corpo que é castigado, em Videodrome e eXistenZ, seja algumas obsessões pelo sexo, como em Um método perigoso, ou a violência asfixiante, em Marcas da violência. Ou seja, Cronenberg nunca escondeu suas obsessões. De certo modo, Carruth também não. Desde sua estreia polêmica em Primer, uma obra capaz de instigar e visualmente extraordinária, ele se preparava para apresentar esta nova obra.
Amy Seimetz faz Kris, que é sequestrada por um homem, simplesmente The Thief (Thiago Martins). Depois, a vemos combalida, parecendo ter passado por um experimento com drogas. Ela está na cama do seu quarto e há algo embaixo de sua pele, uma espécie de parasita; depois está na cozinha e tenta abri-la; vagando à noite, Amy entra misteriosamente num trailer, onde se depara com uma figura estranha e porcos, para passar por outra experiência. Carruth utiliza algumas imagens, ao estilo de Cronenberg, propositadamente para chocar. É um ambiente certamente desagradável, em que o espectador terá de acompanhar a personagem. Não fica claro quem é este homem misterioso, The Sampler (Andrew Sensenig), que se senta à noite em uma cadeira em meio a um lamaçal cercado de porcos e que grava sons da natureza e ter relação com esse parasita que percorre o organismo de Kris.

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Num desdobramento temporal, estamos acompanhando novamente esta personagem, e ela embarca num ônibus. Aproxima-se dela um homem, Jeff (o próprio Carruth), uma misteriosa proximidade que, aos poucos, se revela com traços obsessivos. Parece que esses personagens já tiveram uma convivência sem saberem. A partir daí, Carruth vai alternar sequências em que os personagens convivem e viajam juntos com as do homem misterioso. Eles fizeram parte de uma experiência de que não sabem. Certas sensações e situações se reproduzem em paralelo, e quando eles andam num lugar semiabandonado onde o homem recolhia sons existe a impressão de que deveriam estar lá, ou estavam programados para isso. Ao mesmo tempo, todos os cenários em que o filme se passa alternam uma luz disforme, indicando um clima de experimento, ou uma determinada escuridão – mas bela mesmo é a sequência em que os personagens conversam enquanto pássaros voam sobre eles, em fios de eletricidade – e Carruth nunca deixa a narrativa repousar, pois o espectador nunca sabe ao certo em que lugar se encontra. Tanto se pode estar na rua quanto dentro de um apartamento, ou mesmo dentro de uma piscina como em uma banheira, empunhando uma lanterna contra uma ameaça a princípio invisível. Esta característica estava presente em Primer, uma obra notável a ponto de questionar a própria concepção de um filme. Os personagens de Primer falam ininterruptamente, como se Carruth não recortasse determinados momentos para compor uma história linear – e a estranheza surge exatamente desse olhar – e há uma influência da formação de Carruth como engenheiro de software e matemático nas discussões, incluindo aquela que sugere viagens no tempo (o cineasta também deu sugestões para o roteiro de Looper, com Levitt e Bruce Willis), tornando-o semibiográfico. Nele, há também um ambiente insolucionável, no qual o espectador não consegue adentrar a ponto de conseguir reunir todas as pontas.
Com uma sensação de estarmos num filme de ficção científica, mas na verdade um drama subjetivo, como Primer, Cores do destino nunca deixa o espectador ter certeza do que está ocorrendo, talvez porque exatamente não quer se definir. Mas há uma certa simetria no trabalho de Carruth, uma simetria desejada não apenas pela composição dos personagens, mas também por seu comportamento detalhado e minucioso em cada momento no qual tentam fugir de si mesmos. O maior acerto de Cores do destino está em sua mistura de obra descompromissada com obra repleta de pontos existenciais, em que todas as coisas parecem ser explicadas por uma determinada imagem e o cosmos em que circulam os personagens soa estranho, tão estranho quanto uma piscina servir como universo paralelo com um rio, e orquídeas azuis significarem uma nova experiência com outros humanos, ecoando ainda em leituras do iconoclasta Walden, de Henry David Thoreau. Este livro tinha como um dos preceitos a liberdade do sujeito, o seu contato com a natureza, exatamente algumas das premissas com as quais Cores do destino lida: no entanto, esses personagens, apesar de dominados pela natureza, não se sentem livres; é como se, na verdade, a natureza trouxesse um aprisionamento, do qual não pudessem se livrar.

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Sob o ponto de vista da originalidade do roteiro, independente de se gostar do filme ou não, Cores do destino soa ao mesmo tempo experimental e coerente. Carruth consegue com poucos diálogos e situações calculadas levar uma sensação de estranheza ao espectador, capaz de conectá-lo a todo o momento com o que está acontecendo e, mesmo quando se apresenta mais bloqueado em suas tentativas, ainda paira no ar uma certa atmosfera de desespero humano, que diz sempre mais dos personagens do que da trama. Jeff e Kris parecem vagar sem um rumo definido a não ser por aquele que proporciona determinadas lembranças do experimento a que foram expostos. Por isso, a solidão de ambos simboliza justamente as inter-relações numa grande metrópole, cheia de corredores de ônibus, de escadas rolantes, de corredores de edifícios, bibliotecas, mas que, no final, acabam simbolizando o mesmo sentimento de perda. Parece ser esta a sensação que Carruth pretende passar com seus personagens em busca de um sentido, mesmo que seja enganoso. Apesar de haver estranheza o suficiente em Primer, faltava a ele essa aproximação maior com os personagens, o que acontece Cores do destino, mesmo que não seja da maneira habitual. Talvez de se trate de uma história romântica para os tempos atuais, em que os seres humanos tentam se sentir confortáveis mesmo sem saberem exatamente o motivo pelo qual buscam isso.
A atriz Amy Seimetz entrega uma atuação arrebatadora, e, com uma fotografia que remete a filmes de Malick, com estilo digital, o roteiro acaba tendo uma base de humanidade inesperada no seu desfecho, na mesma proporção da dor que oferece, com seu labirinto desafiador de imagens. Não é um filme fácil (os 10 primeiros minutos são especialmente desafiadores e talvez façam o espectador com menos paciência desistir), contudo há algo grandioso em seu impacto, algo que certamente não pode ser sintetizado nem pelas possíveis soluções de sua narrativa. Fica claro, também, que Shane Carruth é um autor completo (participa também da trilha sonora, fotografia e da montagem). Agora resta saber se ele conseguirá, como David Cronenberg, fazer uma longa trajetória. Por seus projetos iniciais, Carruth desperta no mínimo um interesse muito acima da média. Cores do destino é facilmente uma obra diferenciada e notável; é facilmente um grande filme.

Upstream color, EUA, 2013 Diretor: Shane Carruth Elenco: Shane Carruth, Amy Seimetz, Andrew Sensenig, Thiago Martins, Frank Mosley, Carolyn King, Myles McGee, Kathy Carruth, Meredith Burke Roteiro: Shane Carruth Trilha Sonora: Shane Carruth Fotografia: Shane Carruth Produção: Ben LeClair, Casey Gooden, Shane Carruth Duração: 96 min.

Cotação 5 estrelas

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