Horas de desespero (1990)

Por André Dick

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Praticamente toda a carreira de Michael Cimino a partir de O portal do paraíso é marcada pela desconfiança e por críticas fora do tom habitual feita a outros diretores que, como ele, ajudaram a estruturar a Nova Hollywood nos anos 1970. É interessante, por exemplo, a trajetória de William Friedkin ganhar novamente respeito depois de Bug, quando nos anos 80 e 90 foi praticamente esquecido, enquanto Cimino continua a ser visto com certo distanciamento. Horas de desespero se constitui na refilmagem de um filme com Humphrey Bogart, de 1955, recebido como uma obra de violência extrema, com uma atuação limitada de Mickey Rourke e sem o impacto que poderia proporcionar o seu elenco. Seu produtor é o mesmo Dino de Laurentiis de O ano do dragão, parceria anterior de Cimino com Rourke e, como todas as produções do italiano, mostra uma tentativa de capturar signos conhecidos de um cinema habitualmente aceito em uma nova visão cinematográfica (foi De Laurentiis quem produziu David Lynch em Duna e Veludo azul, por exemplo).
Tendo seu início nas montanhas geladas de Salt Lake (um trecho que dialoga diretamente com os cenários de O portal do paraíso), com a advogada Nancy Breyers (Kelly Lynch) preparando um plano a ser concretizado pelo cliente Michael Bosworth (Mickey Rourke), Horas de desespero apresenta, com auxílio de sua pontuação de David Mansfield, baseada em Bernard Herrmann, um aspecto clássico, da fotografia irretocável de Doug Milsome (colaborador de Kubrick em O iluminado e Nascido para matar). Michael segue, com os comparsas Wally (Elias Koteas), seu irmão, e Albert (David Morse), para um bairro de Salt Lake City, onde há uma claridade entre os verdes dos gramados e das árvores. Esses homens entrarão na casa dos Cornells, em que o pai, Tim (Anthony Hopkins), está separado de Nora (Mimi Rogers), e tem dificuldades de relação com os dois filhos, May (Shawnee Smith) e Zack (Danny Gerard). A chegada do grupo à casa evolui num crescente: depois de estarem ao ar livre diante do lago do início do filme, eles pretendem escolher o lugar onde podem se esconder até uma fuga planejada para o Novo México. O mais interessante é a maneira como Michael parece escolhê-la: há uma placa de vendas em frente a ela, ou seja, ele pretende justamente se trancar nela e permanecer ali, como se pudesse ordenar a saída ou entrada de todos nela. A casa passa a pertencer a ele, e o smoking deve ser vestido para impressionar a família.

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Não será exatamente a presença de Michael que aliviará a tensão do ambiente, e Cimino o coloca como uma espécie de símbolo (sem reduzi-lo a isso) de uma sociedade violenta. Tim é um ex-combatente do Vietnã e, como em todos os filmes de Cimino, mas principalmente em O franco-atirador, é exatamente essa violência que se abaterá sobre a situação. Não apenas o aspecto militar é sintetizado em Horas de desespero. O FBI também é visto por Cimino de maneira irônica, por meio da figura de Brenda Chandler (Lindsay Crouse), que coloca um exagero em suas falas, característico de uma detetive capaz de liderar uma equipe de homens para tentar capturar Michael. É Brenda que proporciona esta ponte de Horas de despero entre ser uma obra violenta e opressiva e, ao mesmo tempo, uma crítica ao comportamento dos meios de investigação norte-americano. Cimino não tem receio de levar a cabo esse exagero, na sequência, por exemplo, em que Albert precisa se livrar de um corpo e, em seguida, com a camisa ensanguentada, se depara com algumas mulheres seminuas na beira da estrada, parecendo saídas de um catálogo de fotos de Hollywood. Sua tentativa de persegui-la acaba em uma sequência na qual aparece por trás de cavalos, num riacho em meio a desfiladeiros, que lembram um cenário de Velho Oeste, dialogando tanto com O portal do paraíso quanto com a obra posterior de Cimino, e sua última, pelo menos até hoje, o belíssimo Na trilha do sol.
A atitude da polícia diante desta situação é, no mínimo, acentuada – e Cimino não foge também a uma sequência de brincadeira com o gênero noir, em que a agente Brenda fala com um policial com lanternas dentro de um carro, ou mesmo aquela em que a amante de Michael recebe um microfone e encarna a femme fatale. Também há uma clara influência de Hitchcock não apenas no início, como no momento em que há uma perseguição a Nancy, em carros e helicópteros, depois que ela para na estrada para falar ao telefone. Esta influência se dá não apenas no mesmo ritmo de Intriga internacional (referenciado pela paisagem do deserto) como no próprio comportamento de Nancy como uma femme fatale. Do mesmo modo, devem ser destacados os primeiros quinze minutos, em Michael precisa colocar em prática seu plano de fuga do tribunal onde está sendo julgado.

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Mesmo com perseguições em carros e helicópteros e embora os personagens dialoguem por telefone e acompanhem o noticiário ao vivo, há algo muito mais primitivo nessa violência enfocada por Cimino: é a base de uma sociedade. Há uma discrição nesta sátira, quase a mesma daquela de Paul Verhoeven em Showgirls, outro filme visto como um dos menos bem-sucedidos dos anos 90 (não sabemos onde termina a crítica e onde inicia a sátira). Não à toa, Michael se refere a Tim como o “xerife” da casa, e que as regras ali são muito rígidas, tentando soar simpático com o filho, Zack. Cimino não controla os personagens em busca de suspense, mas tenta mostrar as reações que eles terão diante da violência. Parece, desse modo, bastante plausível a própria Nancy ter tanto medo de Michael e mesmo assim continue atraída por ele, ou seja, para o perigo – como se ele significasse o próprio destino dessa sociedade enfocada.
O ator inglês Anthony Hopkins, um ano antes de receber o Oscar por O silêncio dos inocentes, e é o alicerce do filme, apoiado pela interpretação de Rourke, a sua melhor antes de O lutador, capaz de comprovar sua revelação nos anos 80, de Mimi Rogers e de David Morse. A atmosfera de Horas de desespero, num tempo linear, mistura pressão e tentativa de se libertar. Uma parte do filme se passa de dia, com o bairro ao redor da casa sob uma luminosidade e com o verde dos gramados, e outra à noite, quando não há nenhum movimento, a não ser dos personagens, e Cimino compõe um thriller que, apesar de sua linearidade, oferece mais do que o gênero costuma propor, principalmente neste diálogo com a sociedade como vítima. E o final (spoiler) é um dos retratos mais contundentes sobre a presença do sentimento de guerra na sociedade norte-americana: a porta crispada de balas do FBI sendo fechada pela família Cornell, a meu ver, é irretocável e dialoga diretamente com O portal do paraíso, no desfecho para a relação entre James Averill e Ella. Para Cimino, o ambiente de guerra, de duelos do Velho Oeste e do Vietnã, mesmo no subúrbio aparentemente tranquilo dos Estados Unidos, está longe de terminar: faz parte de uma cultura voltada a lidar com o medo. Daí o extremo exagero da rua fechada por um miniexército: Michael Bosworth é apenas um motivo para que esta reação sem limites ao medo venha à tona.

Desperate hours, EUA, 1990 Diretor: Michael Cimino Elenco: Mickey Rourke, Anthony Hopkins, Danny Gerard, David Morse, Elias Koteas, Kelly Lynch, Lindsay Crouse, Mimi Rogers, Shawnee Smith Roteiro: Joseph Hayes Fotografia: Douglas Milsome Trilha Sonora: David Mansfield Produção: Dino De Laurentiis, Michael Cimino Duração: 105 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)

Cotação 4 estrelas e meia

 

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