Ninfomaníaca – Volumes I & II (2013)

Por André Dick

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Já bastante distanciado do estilo que ajudou a empregar, do grupo Dogma 95, nos anos 1990, ao lado de Thomas Vinterberg (Festa de família e A caça), Lars von Trier continua sua trajetória de filmes polêmicos e provocadores, voltados a uma tentativa de instigar a opinião pública, tentando não estabelecer apenas uma ideia de cinema, mas de publicidade cultural. Isso se percebe nas apenas nas suas obras louvadas em Cannes, como Dançando no escuro (seu melhor filme, ao lado de Ondas do destino) e Dogville, mas em suas obras até menores, a exemplo de Os idiotas, e ganha seu ponto culminante em Ninfomaníaca, dividido em duas partes (para ser lançado sem problemas no cinema), que contou com uma campanha de marketing até inovadora, em se tratando de obras consideradas mais de art house: o elenco da obra posava, em cartazes promocionais, com gestos e posições remetendo a atos sexuais. Tudo isso acabou antecipando o conceito de que Ninfomaníaca seria provocador, uma obra de fetiches e, sobretudo, pornográfica. Mas, se Kechiche, com Azul é a cor mais quente, sofreu uma série de acusações de exploração a respeito do tema no ano passado, o mesmo não pode ser dito ao se lançar Ninfomaníaca, considerado até conservador em relação ao que se esperava. Mesmo porque Ninfomaníaca não é uma obra exatamente pornográfica ou que tome a sexualidade como motivo de romper limites, e sim como exemplo, para o espectador, de como o sexo pode, num determinado momento, passar do prazer estabelecido pela possibilidade amorosa para um espaço em que, para se fugir de uma pretensa normalidade social e se sentir vivo, tudo começa a ficar próximo de uma autodestruição.

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Esta é uma característica que já existia em Ondas do destino, com a personagem de Emily Watson vagando em busca de homens que pudessem satisfazer às fantasias do marido, e Dogville, em que a personagem de Nicole Kidman sofria numa pequena comunidade os mais violentos abusos. Von Trier nunca foi um diretor discreto, e Ninfomaníaca se mostra como sua obra mais reveladora neste sentido. O interessante é como ele usa um artifício simplista – a personagem central, Joe (Charlotte Gainsboroug), ser encontrada com marcas de violência num beco, pelo bondoso Seligman (Stellan Skarsgård) – para iniciar uma espécie de fragmentos de um discurso ninfomaníaco, lembrando-se a obra de Barthes que tanto fez sucesso nos anos 70, transformando-se numa coleção de peças interligadas sobre o desejo da personagem central em descobrir o ingrediente secreto do sexo, segundo sua amiga: o amor. É justamente o que não consegue sentir Joe, que pede a Jêrome (Shia LeBeouf, excelente), mais interessado em sua motocicleta, para perder sua virgindade. Os sentimentos de Joe estão quase todos ligados à maneira como o pai (Christian Slater, no papel, embora curto, de sua carreira) quis apresentá-la à natureza, em passeios pelo parque, com uma influência clara do cineasta russo Andrei Tarkovsky – e são belas e densas as analogias que Joe traça entre os detalhes dos diferentes tipos de folhas com partes do corpo humano, mais do que aquela que Seligman traça da busca de Joe pelos homens com uma pescaria. Ela não consegue sentir prazer no sexo; mais, como a personagem de Kirsten Dunst em Melancolia, o sexo é apenas um símbolo de escape da própria personalidade, perdendo-se num espaço vazio, em que a personalidade ou o desejo de se preocupar com o que a outra pessoa está sentindo não é mais presente (o que se apresentava também em Shame, mas de forma menos interessante). Isso se revela em suas incursões com a amiga B. (Sophie Kennedy Clark) por um trem, além de sua vida sexual com a entrada e saída de vários homens num apartamento, depois de provar a si mesma um conceito (“mea vulva, mea maxima vulva”) que poderia estar em alguma parede da Roma Antiga. Um desses amantes é casado com a personagem de uma esposa traída feita com extraordinária desenvoltura por Uma Thurman, em seu momento mais interessante no cinema depois de Kill Bill, numa mistura de comédia, absurdo e drama familiar.

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É justamente a obra Kill Bill, de Tarantino, a principal referência para se analisar Ninfomaníaca como um filme dividido em duas partes. Assim como o filme de Tarantino, esta divisão se deu mais por razões comerciais e de distribuição do que por uma diferenciação exata entre as duas partes. Mas, como Kill Bill, Ninfomaníaca também possui em cada um dos episódios suas características demarcadas. Se o primeiro Ninfomaníaca é mais descompromissado e, mesmo com as cenas de sexo ousadas, mais leve e até bem-humorado em alguns pontos, o segundo é muito mais trágico e soturno, um pouco semelhante ao andar em que as mulheres descem – inclusive Joe – para encontrarem K. (Jamie Bell, de Billy Elliot e Tintim para um papel de impressionante dificuldade e contenção). Esta separação não é sem alguns resultados estranhos. A atriz que faz Joe na adolescência e durante um pedaço da vida adulta, Stacy Martin, tem trejeitos completamente diferentes daqueles que Charlotte Gainsboroug em sua versão ainda mais adulta, e isto torna o filme levemente estranho em alguns aspectos – e, apesar de Gainsboroug ser uma atriz mais reconhecida e Martin querer ainda descobrir uma linha de interpretação, é esta que dá mais sentido à história. O mesmo se pode dizer dos diálogos de Joe com Seligmann, mais naturais no primeiro do que no segundo filme, embora igualmente, até determinado momento, superficiais e um tanto impostos excessivamente ao que será relatado, com uma aura de referência cultural, acentuada pelos grafismos de Von Trier, característicos desde Ondas do destino, mas aqui ainda mais presentes. Diálogos como aquele sobre a polifonia ou sobre as imagens que teriam aparecido a Joe em determinada experiência sexual não conseguem servir mais do que peças para Von Trier trabalhar a sua arquitetura – e são pouco orgânicos. Mais complicada ainda é a passagem da temática de admiradora sexual do primeiro para a de ninfomaníaca em busca de autoflagelação, de masoquismo, do segundo. E o segundo não possui tanto a bela relação entre Joe e o pai da primeira parte, guiando-se por um caminho que resulta num vínculo um tanto mal explicado com L. (feito por um intruso Willem Dafoe), apesar de determinados momentos continuarem evocando a obra de Tarkovsky (quando Joe está no alto de uma montanha, por exemplo) e o ritmo da montagem manter sempre o interesse, sem entregar claramente as soluções de cada personagem. Desse modo, cada um dos capítulos impõe um respeito – e Von Trier mostra uma certa evolução em relação a seu filme mais denso sobre o tema, Dogville, ao não colocar os personagens simplesmente como estranhamente perversos, mas todos com uma certa falha inerente diante da personalidade centralizadora de Joe, satirizando, inclusive, a proximidade entre alguém que relata uma história e o ouvinte que procura aparar suas arestas.

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Não há nenhum resquício de toques morais no trabalho de Von Trier porque o cineasta justamente os coloca sempre numa posição de eles não conseguirem corresponder à realidade de Joe – e onde se colocam imagens pretensamente filosóficas a personagem faz questão de levar para o espaço de sua realidade, pois, acima de tudo, ela pretende ter o controle máximo da situação, inclusive em relação a quem a ajuda e a acolhe. O melhor elogio que se faz a esta obra é justamente como a primeira parte requisita a segunda e como, apesar de episódica, a obra de Von Trier contém uma organicidade singular, por mais longa que seja (em torno de 4 horas), com um encadeamento absolutamente tranquilo, quase ausente em seus outros filmes e que o aproxima, sob determinados aspectos, inclusive dos enquadramentos escolhidos, a Michael Haneke e Terrence Malick – as caminhadas de Joe pelo parque. E que Lars Von Trier se mostra, mais uma vez, um cineasta que, apesar de quase impor suas polêmicas, sabe administrá-las com coerência no mínimo interessante. Mesmo nos momentos mais indecisos da segunda parte, por exemplo, que não se sustentam como as da primeira parte, o diretor demonstra um notável equilíbrio e domínio sobre o elenco, jogando com temas polêmicos, embora alguns de maneira bastante questionável e até tortuosa. O final, que parece abrupto e mesmo decepcionante para uma obra que se anunciava, pelo tamanho, mais “épica”, não reduz a história; pelo contrário, Lars von Trier continua considerando que a ajuda pode esconder mais do que uma simples gentileza: pode esconder apenas aquilo que a sociedade parece aceitar, mas não aceita. É uma conclusão pessimista, mas a obra do diretor dinamarquês é toda feita em cima desse pressuposto, e, concordando ou não com ele, suas qualidades cinematográficas não conseguem apagá-lo.

Nymphomaniac – Vol. I, Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha, 2013 Diretor: Lars von Trier Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Christian Slater, Connie Nielsen,  Shia LaBeouf, Sophie Kennedy Clark, Uma Thurman Roteiro: Lars von Trier Fotografia: Manuel Alberto Claro Produção: Bert Hamelinck, Bettina Brokemper, Louise Vesth, Maj-Britt Paulmann, Marianne Jul Hansen, Marianne Slot, Marie Cecilie Gade, Peter Aalbæk Jensen, Peter Garde, Sascha Verhey Duração: 118 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Zentropa Entertainments

Cotação 4 estrelas e meia

Nymphomaniac – Vol. II, Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha, 2013 Diretor: Lars von Trier Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Jamie Bell, Shia LaBeouf, Jean-Marc Barr, Willem Dafoe, Kookie, Christian Slater, Kate Ashfield, Mia Goth  Roteiro: Lars von Trier Fotografia: Manuel Alberto Claro Produção: Bert Hamelinck, Bettina Brokemper, Louise Vesth, Maj-Britt Paulmann, Marianne Jul Hansen, Marianne Slot, Marie Cecilie Gade, Peter Aalbæk Jensen, Peter Garde, Sascha Verhey Duração: 123 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Zentropa Entertainments

Cotação 4 estrelas

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