O grande mestre (2013)

Por André Dick

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A trajetória de Hong Kar-Wai pode ter passado pela melhor oportunidade de larga divulgação antes da montagem que Harvey Weinstein preparou para a exibição de O grande mestre nos Estados Unidos, com 22 minutos a menos em relação à original (130 minutos). Fala-se que Weinstein pretendia diminuir a complexidade do filme e entregar uma obra mais acessível, recebendo o apoio irrestrito do diretor. Pelas críticas apontando problemas graves nesta montagem, este gesto talvez tenha tirado a oportunidade de O grande mestre ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro, embora tenha sido lembrado nas categorias de fotografia e figurino. Kar-Wai é um diretor conhecido do público desde Amores expressos, e com Amor à flor da pele e 2046, aumentou o culto em torno de seu nome e seus novos projetos. Ao desaparecer por alguns anos, mais exatamente desde sua contestada estreia nos Estados Unidos, com Um beijo roubado, em 2007, não se calculava a falta que ele faz ao cinema, com suas obras diferenciadas – e O grande mestre não é diferente. O gênero de filmes de artes marciais trouxe desde o início da década passada o filme mais reflexivo desde as peças de Kurosawa, O tigre o dragão, dirigido por Ang Lee, que não pode ser confundido com um mero filme comercial apenas por ter sido nomeado ao Oscar. Mas ainda havia em O tigre e o dragão, e depois em Matrix, uma certa história linear. Em O grande mestre, as imagens parecem dar o tom exato para a premissa de Kar-Wai e, se as lutas possuem uma faceta espetacular, mais importam os movimentos e a razão de cada personagem.

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A tentativa de contar a história de Wing Chun Ip Man (Tony Leung), o mestre de Bruce Lee, parece antes ser uma possibilidade para algumas das melhores linhas de roteiro do ano e uma produção surpreendente em todos os seus aspectos. Com um início espetacular, mostrando uma luta de kung fu depois da meditação de Ip Man, somos apresentados à sua história, a seu mestre Chan Wah-shun (Yuen Woo-ping) e seu casamento com a esposa Cheung Wing-sing (Song Hye-kyo), nos anos 1930. Quando surge um mestre de artes marciais do norte, Gong Yutian (Wang Qingxiang), afirmando que deixa um herdeiro, Ma San (Zhang Jin), há o desafio de que seja escolhido um mestre do sul, para que haja o combate. Ip Man é o escolhido a enfrentar Gong Yutian. Esta luta acontece e por meio de um duelo verbal há um desfecho imprevisível. A filha de Yutian, Gong Er (Zhang Ziyi), afirma que a honra de sua família foi colocada em descrédito, pedindo um duelo com Ip Man, e ela representa, sem dúvida, a figura feminina nesse universo dominado pelo homem, papel que também cabia a Ziyi em O tigre e o dragão. Sua fidelidade ao pai, ao mesmo tempo em que tenta se afastar da figura de Ip Man, que pode conduzi-la para fora de sua família, torna-se a base de O grande mestre, assim como a possível traição de pupilos, capaz de provocar uma mudança em toda a tradição.
A trama de O grande mestre é um tanto complexa em razão de sua genealogia familiar, mas Wong Kar-Wai se interessa muito mais no uso do movimento do corpo e o poder da escrita – não por acaso, o filme se constrói em cima não de pensamentos soltos, mas de uma imaginação corrente, tão forte quanto o enfrentamento e tão livre quanto aquilo que parece ser apenas ligado à luta. Estruturado num design de produção espetacular assinado por William Chang e Alfred Yau, com fotografia de Phillipe Le Sourd e coreografia das cenas de luta de Yuen Woo-ping (o mesmo de MatrixO tigre e o dragão Kill Bill), O grande mestre mostra ser um dos filmes mais sensíveis feitos sobre a base do confronto entre correntes opostas, de duelos familiares e castas. No entanto, não há certamente uma linearidade nele, assim como não vemos em nenhum filme da trajetória de Kar-Wai – a começar por seu já clássico Amores expressos, que ajudou a redefinir os anos 90, inclusive com sua influência da linguagem do videoclipe. Por vezes, é certo, pode-se mesmo sentir certo tédio ao acompanharmos determinadas narrativas do diretor, no entanto é apenas uma sensação enganosa: por trás da linguagem que ele adota, sempre há um desenvolvimento de símbolos que pode satisfazer a narrativa principal.

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É notável como O grande mestre consegue trazer essa mescla entre o estilo conhecido de Kar-Wai e uma vertente de ação que ele desconhece em sua filmografia. Consegue sair-se de forma muito mais impactante do que o normalmente elogiado Zhang Yimou, em peças como Herói ou O clã das adagas voadoras, que utilizam, de certa maneira, os mesmos traços exibidos em O grande mestre, mas sem o mesmo impacto. Kar-Wai consegue algo bastante raro: ele insere alguns elementos de blockbuster numa história com toques de simbolismo oriental bastante precisa sem reduzir nenhum dos dois caminhos. É evidente que em determinados momentos – a luta da chuva – podemos ver Ip Man quase como Neo, sobretudo na solução da série dos irmãos Wachowski, Matrix revolutions, no entanto isso não tira o impacto das coreografias, e elas, acima de tudo, são impressionantes.
Em determinados momentos, Kar-Wai arrebata o espectador com imagens invernais capazes de dialogar com Kurosawa em seu melhor momento. Há uma atmosfera, ao mesmo tempo, de sonho, de passagem de tempo indefinida, numa série de recursos de montagem. Tudo parece esconder a impossibilidade de amor, com Leung e Ziyi novamente, o mesmo casal de 2046, um de seus filmes com uma carga especial de beleza, mostrando a relação entre um casal num hotel, com alguns despistes para o futuro. Eles naturalmente são apaixonados um pelo outro, mas se o amor pelo kung fu os aproxima certamente suas genealogias familiares os afastam de maneira decisiva, vivendo uma passagem de tempo que transcorre rapidamente pelas lentes de Kar-Wai, mostrando diferentes períodos da história da China (inclusive a Segunda Guerra Sino-Japonesa), contudo com um resultado emocional capaz de aproximar os personagens em seu afastamento. Tony Leung é o ator preferido do diretor, e está em seu melhor momento em O grande mestre, oferecendo uma atuação não apenas complexa, entre a palavra e o movimento, mas calculada e ao mesmo tempo dramática, principalmente quando Ip Man se dirige a Hong Kong, a fim de iniciar uma nova vida. Trata-se de um ator com poder de convencimento apenas pelo olhar. E Ziyi Zhang faz uma Gong Er dentro de suas características como atriz – como sua presença em 2046 –, com um domínio completo de dramaticidade corporal, principalmente no encontro que terá, em determinado momento, com Ma San numa estação de trem, na sequência talvez mais magnética do filme.
A parceria entre Leung e Ziyi se dá num plano de duelo e de ressonância emocional, um interesse amoroso que se perde por meio de cartas, mas que vai desaparecendo conforme as estações mostradas pelo diretor com a sensibilidade de descoberta. O amor entre os dois é como a troca de palavras colocada no lugar da luta. No entanto, no caso deles, o silêncio pode provocar um apego ainda maior à melancolia, e O grande mestre se mostra o símbolo mais próximo da passagem de tempo.

The grandmaster/ Yi dai zong shi, Hong Kong/China, 2013 Diretor: Wong Kar-Wai Elenco: Tony Leung, Chiu Wai, Ziyi Zhang, Song Hye-kyo, Cung Le, Chang Chen, Wang Qingxiang Roteiro: Xu Haofeng, Zou Jingzhi, Wong Kar-Wai Fotografia: Philippe Le Sourd Trilha Sonora: Nathaniel Méchaly, Shigeru Umebayashi Produção: Jacky Pang Yee Wah, Wong Kar-Wai Duração: 130 min.; 123 min. (versão exibida no Brasil) Estúdio: Block 2 Pictures / Bona International Film Group / Jet Tone Films / Sil-Metropole Organisation

Cotação 5 estrelas

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