Planeta solitário (2011)

Por André Dick

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Há uma grande dificuldade em obter financiamento para um filme em que o personagem principal parece ser a paisagem, mesmo que está seja das belíssimas montanhas do Cáucaso, localizadas na Geórgia (ex-república soviética). Imagina-se o quanto deve ter sido difícil reunir força financeira para a conclusão de um experimento cinematográfico como Planeta solitário, da cineasta Julia Loktev, em seu segundo filme, depois de Dia noite, dia noite. Melhor ainda quando um filme como este consegue, mesmo depois de três anos de seu lançamento oficial, chegar às telas do cinema. Mostrando um casal, Alex (Gael García Bernal) e Nica (Hani Furstenberg), que chega a um vilarejo da Geórgia onde combina com o guia Dato (Bidzina Gujabidze) uma viagem por essas montanhas, Planeta solitário revela antes de tudo uma fotografia exuberante de Inti Briones.
Estamos num terreno caro ao cineasta mexicano Carlos Reygadas, principalmente em seus filmes Luz silenciosa e Luz depois das trevas, exatamente dois filmes em que os personagens se fundem com a paisagem de modo extremo. Trata-se de um cinema difícil, em que os movimentos são imperceptíveis, às vezes até inexistentes, e as atuações conseguem sempre estar num limite entre o comum e o extraordinário. O casal de Planeta solitário parece comum, com a diferença de que está se preparando para o casamento. Não temos muitas informações a respeito deles, a não ser que Alex se dá bem com o universo familiar, brincando com crianças, e aceita a diversão num bar antes da viagem, não sem antes estar no terraço de uma construção extraordinária, com o sol batendo em cheio – numa vertente quase de Malick. Estas nuances entre a escuridão do bar e a luz do amanhecer e do dia neste lugar reservam o que poderá ser a viagem para este casal. O guia contratado para a viagem, Dato, não tem a carga do homem misterioso que vemos em A morte pede carona, na persona de Rutger Hauer, mas não fica, de certo modo, muito longe. Não se sabe ao certo se o casal poderá confiar nesta figura à medida que adentra cada vez mais as montanhas e esses personagens passam a ser figuras quase ínfimas em relação à grandiosidade da paisagem.

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Há alguns anos, Vincent Gallo interpretava um homem que fugia do exército por uma paisagem inóspita em Essential killing, com todos os imprevistos possíveis, e a solidão dela se reproduz neste filme. Não raro, a cineasta Julia Loktev filma em grande amplitude os personagens caminhando em meio ao verde e a corredeiras, assim como perto de rochas e desfiladeiros, com o uso criativo da sonoridade (de águas, por exemplo), criando uma espécie de tensão involuntária. Todo este cuidado acaba trazendo um registro natural ao filme, em que o comportamento dos personagens passa a ser sempre integrado ao que está acontecendo ao redor, numa semelhança com Gerry, de Gus Van Sant.
Se pouco acontece, e Planeta solitário pode ser visto como um filme entediante, dependendo da aceitação do espectador, é porque justamente Loktev pretende focar a relação de Alex e Nica, quase ingênua e romântica antes de um casamento planejado, mas não exatamente confiante em seu estabelecimento. Percebe-se que o casal possui uma visão idílica a respeito da vida, sobretudo Nica, e estão neste planeta solitário a que se refere o título como uma espécie de casal que habita o Paraíso: quando não estão caminhando, eles procuram se divertir de variadas formas, e passam o tempo tirando fotos contra a paisagem, embora Alex não queira a proximidade sexual por causa do guia que os acompanha. Dato não deixa às vezes de simbolizar aquilo que pode afetar a ordem deste paraíso, mas ainda mais é o que acontece em torno da metade do filme e que muda completamente a maneira de os personagens se comportarem. Até aquele momento é como se estivessem escondendo o que sentiam para então se mostrarem realmente como são, e paira uma névoa sobre o que até então era perfeito e solucionado, no qual o único senão seria a dificuldade de comunicação com o guia e a brincadeira com terminologias.
Loktev mostra como uma determinada situação pode fazer um casal olhar não para o que até então procurava – paisagens com peso turístico e de recordação perene –, mas para dentro de si mesmos, com os conflitos mais incontornáveis, em que um gesto de ajuda pode significar mais do que se imagina – e também a revolta pode existir em razão de desacordos não explícitos. E o que se consegue com este material a princípio limitado é realmente insinuante, dispondo algumas temáticas implícitas sobre a aceitação do casal, a personificação do homem, a distância da mulher em relação a uma determinada visão que se tem do universo masculino, a insegurança do homem em conseguir retratar essa segurança que precisa demonstrar.

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Os personagens Alex e Nica são feitos com rara perícia por Gael García Bernal e Hani Furstenberg. Bernal vem se tornando um dos melhores atores da atualidade (sua atuação em No chega próximo do antológico, por sua discrição), mas é Furstenberg que apresenta uma atuação realmente excepcional. A maneira como Loktev utiliza a cor ruiva dos cabelos de Nica também se integra à cor das paisagens, assim como a fotografia quando o casal está dentro de uma barraca, com sua luminosidade obsessiva, consegue levar os personagens para uma espécie de lugar em que sua solidão também dialoga com as paisagens. Nela, Dato acaba servindo como um contraponto estranho, principalmente quando ele utiliza uma espécie de humor estranho, em que uma fala pode ser ameaçadora tanto para o casal quanto para o espectador, criando uma expectativa para o que, de fato, pode acontecer. Isso tudo acontece quase sem diálogos, em que o evento determinante da metade do filme consegue ecoar tanto em relação ao que acontece antes quanto ao que acontece amanhã. Mas, guardando sensível diferença com o recente Até o fim, esse desconhecimento, em grande parte, de quem são os personagens não cria uma falsa trama firmada em alguns pontos reconhecíveis – o que temos em Planeta solitário é realmente um filme, embora possivelmente desgastante para muitos, que consegue manejar os poucos diálogos de modo a criar uma tensão para a cena seguinte, tanto em relação ao casal quanto em relação a seu guia. E a falta de diálogos é sempre para colocar em questão a facilidade ou não deste casal em enfrentar aquilo que pode ser imprevisto num relacionamento, que pode fugir ao controle ou mesmo não ter solução, independente da força que seja concentrada para que isso não aconteça. A trilha sonora de Richard Skelton acaba captando esta atmosfera áspera e duvidosa existente entre os personagens, devendo-se dizer que Bernal e Furstenberg se saem de maneira esplêndida nesse embate psicológico. Neste sentido, Planeta solitário torna-se um filme sobre como o vazio de um cenário pode dizer muito mais das relações do que os próprios personagens envolvidos. E, se há uma indefinição pairando no relacionamento do casal, ela apenas reproduz seus próprios conflitos, diante de um paraíso indefinido.

The loneliest planet, EUA/ALE, 2011 Diretora: Julia Loktev Elenco: Gael García Bernal, Hani Furstenberg, Bidzina Gujabidze Roteiro: Julia Loktev Fotografia: Inti Briones Trilha Sonora: Richard Skelton Produção: Helge Albers, Jay Van Hoy, Lars Knudsen, Marie Therese Guirgis Duração: 113 min.

Cotação 4 estrelas

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