Uma cilada para Roger Rabbit (1988)

Por André Dick

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Duas crianças causam muitos problemas aos pais, até o dia em que pedem uma nova babá. Quem chega, voando de guarda-chuva, é Mary Poppins(Julie Andrews), que transforma a vida dessa família tradicional, administrada por Mr. Banks (David Tomlinson). O melhor amigo dela é um rapaz que faz apresentações no parque – talvez a interpretação mais conhecida de Van Dyke neste filme de 1964. Enquanto Mary viaja com as crianças por um mundo encantado (a primeira mistura perfeita de humanos com animação), Banks pretende associá-las ao banco onde trabalha. Alguns o consideram um musical, outros um filme direcionado ao público infantil, mas é difícil negar sua qualidade e números de dança, como o da chaminé, na qual se mistura a realidade e a fantasia para recriar um novo mundo. Desde a parte técnica, passando pela direção e elenco, Mary Poppins, de Robert Louis Stevenson, marcou época.
Em 1971, na mesma linha, foi realizado Se minha cama voasse, do mesmo diretor de Mary Poppins, também com algumas cenas animadas. A atriz da Broadway Angela Lansbury faz uma aprendiz de feiticeira na época da invasão nazista. Utiliza uma de suas mágicas para fazer uma cama voar e leva junto três crianças. Juntas, viajam para um mundo animado (com cenas que lhe valeram o Oscar de efeitos especiais).
Outra referência distante a misturar desenho animado com atores foi A canção do sul, de 1946, também dos estúdios Disney, ganhador do Oscar de canção (“Zip-A-Dee-Doo-Dah”), e com cenas antológicas. É o retrato de uma criança, que vai viver no sul dos Estados Unidos com a mãe. Lá, acaba fazendo amizade com um homem (James Baskett), contador de histórias sobre um coelho, uma raposa e um urso – as cenas animadas são ótimas –, o que acaba provocando a vaidade da mãe do garoto. É uma pequena obra-prima.

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Uma cilada para Roger Rabbit, baseado no romance homônimo de Gary K. Wolf, reuniu as técnicas desses filmes do final dos anos 1980 com os ganhos da Industrial Light & Magic de Goerge Lucas. Tecnicamente impecável – ganhou Oscars de montagem, efeitos sonoros, efeitos especiais e melhor animação especial –, é um dos melhores filme de Robert Zemeckis (Febre de juventude, De volta para o futuro e Forrest Gump), também porque consegue mostrar uma ambientação histórica (a Hollywood dos anos 40, mais exatamente de 1947, ou seja, durante a II Guerra Mundial), mais rara em sua trajetória. Ele acerta desde a escolha do elenco até os atores que dublam os desenhos.
Começa em plena ação animada, em que o coelho Roger tenta salvar Baby Herman (voz impagável de Lou Hirsch) de um tombo. Em seguida, Baby sai resmungando do estúdio, empurrando os  humanos. Isso porque os desenhos animados vivem em Toontown, em Hollywood, convivendo com seus criadores. R.K. Maroon (Alan Tilvern) contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins, excelente) para investigar se Jessica, a mulher de um desenho animado, Roger Rabbit (com voz trepidante de Charles Fleischer), que trabalha para a Maroon Desenhos, está cometendo traição.
Depois de ser informado da possível traição de Jessica com Marvin Acme (Stubby Kaye), dono da Corporação Acme e proprietário da Toontown, este é morto e Roger Rabbit vira o principal suspeito. O coelho procura Valiant para tentar se salvar. O detetive, com a ajuda da namorada Dolores (Joanna Cassidy) e psicologicamente abalado depois da morte do irmão, precisa repensar na ideia de tentar ajudar um desenho – cuja imagem ainda lhe traz calafrios. Quando chega ao local do crime, o detetive conhece o juiz da Corte Superior Distrital de Toontown, Doom (Cristopher Lloyd, o Doc Brown de De volta para o futuro), que procura por Roger.

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Mistura-se a essa ideia inicial o fato de que Acme havia feito um testamento deixando Toontown para os desenhos, que não interessa a Doom, que pretende construir uma autoestrada no lugar. No entanto, ele quer mais: destruir os desenhos animados com um caldo químico verde capaz de dissolvê-los, e anda cercado de doninhas que dirigem um furgão policial.
A intensidade de cores se completa com cenas brilhantes – a perseguição no carro Benny, os personagens dos estúdios Disney desfilando pelos cenários (personagens de Fantasia, Dumbo, Peter Pan, Mickey Mouse) – e humor na medida certa (o momento em que Valiant encontra Betty Boop no show de Jessica). Os elementos anteriores da trajetória de Zemeckis estão aqui: como em Febre da juventude e De volta para o futuro, Zemeckis emprega uma sucessão de situações divertidas, mas sem o peso descartável de grande parte dos blockbusters. Do mesmo modo, consegue humanizar personagens que poderiam ser vistos apenas como rótulos. Embora Valiant represente um detetive situado nos anos 40 e numa situação, apesar de diferente, típica do cinema noir, ele consegue se desvencilhar sempre de uma pretensão extra, embora pareça, ao mesmo tempo, atingido por seu passado – e que conduz sua desconfiança ao mundo das animações. Zemeckis também consegue colocar num limite a figura de Roger Rabbit sem que ele soe insuportável, quando no início ele assiste a uma apresentação de Donald e Patolino (cada qual em seu piano, prestes a uma mútua destruição) e depois acaba tendo seu lado emotivo e transtornado à mostra – isso sem falar na cena em que ele está no cinema se divertindo com Pateta, para ele o maior astro. Com a voz de Kathleen Turner certamente reprisando Corpos ardentes e influenciada pelas divas dos anos 40, Jessica também consegue marcar presença entre Valiant e os vilões.
No entanto, há um subtexto bem mais grave nos gracejos de Uma cilada para Roger Rabbit, que é a própria condução de um personagem que deseja exterminar uma cidade de desenhos animados com um caldo químico capaz de fazê-los desaparecer (a partir daqui, spoilers). Os requintes de maldade do juiz Doom e a necessidade de passar por cima dos bondes para dar visibilidade ao seu desejo é também a necessidade de, em meio à II Guerra Mundial, lucrar não mais por meio da arte, mas em cima da destruição. O juiz Doom, de certo modo, consegue simbolizar que o maior inimigo esconde, por trás, a própria composição daqueles que combate – composição desvirtuada – e o seu figurino é similar ao do nazista de Os caçadores da arca perdida. Ou seja, ele, mais do que destruir sua origem, quer, por meio dela, atingir outra fonte de faturamento. Por isso, a cena de Roger e Jessica pendurados no final tentando fugir de uma mangueira com o produto químico que pode destruí-los, contra um muro que se abre para a cidade de Toontown, representam a linha que, assim como separa a realidade da fantasia, aproxima as duas, assim como Se minha cama voasse. Para Zemeckis, durante a II Guerra Mundial, a ideia de infância da humanidade era apagada pela tragédia. E por isso Uma cilada para Roger Rabbit conseguiu se tornar uma obra única no gênero, um dos responsáveis por reerguer o campo das animações e que, mais do que acrescentar agradáveis surpresas e reviravoltas bem delineadas, é um acabado produto histórico.

Who framed Roger Rabbit, EUA, 1988 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Charles Fleischer, Joanna Cassidy, Stubby Kaye, Alan Tilvern, Lou Hirsch, Richard Le Parmentier, Betsy Brantley, Joel Silver Roteiro: Jeffrey Price, Peter S. Seaman Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Frank Marshall, Robert Watts Duração: 104 min. Estúdio: Amblin Entertainment / Touchstone Pictures / Silver Screen Partners III

Cotação 4 estrelas e meia

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