Até o fim (2013)

Por André Dick

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Depois de saírem as indicações ao Oscar, Robert Redford, visto até então como um dos possíveis nomeados na categoria de melhor ator por seu papel em Até o fim, disse que possivelmente não havia sido lembrado em razão de o cinema ser uma indústria e o estúdio não chegou a acreditar na divulgação do filme de J.C.Chandor (Margin Call). Indicado, no entanto, à categoria do Spirit Awards, Redford já ganhou o Oscar por sua direção em Gente como a gente, e já protagonizou filmes ganhadores do prêmio principal (como Golpe de mestre e o próprio Gente como a gente). Quando vemos o seu novo filme, temos a ideia de que ele realmente não tinha uma pretensão especial para ser indicado às categorias principais. Trata-se de um filme feito especialmente com a ideia de sobrevivência – e tenta fazer dela seu conceito.
Nos últimos anos, tivemos alguns grandes filmes com este tema, especialmente dois que acabaram justamente se destacando nos Oscars: As aventuras de Pi e Gravidade. De As aventuras de Pi, temos o fato de Até o fim também ser um filme sobre um homem enfrentando os perigos em alto-mar a partir do momento em que seu barco passa a ter problemas. Mas, se na fantasia de Ang Lee havia o tigre Richard Parker, em Até o fim temos apenas o personagem de Redford, a exemplo de Tom Hanks de Náufrago. Mas, ao contrário do filme de Zemeckis, não sabemos a quem o homem de Até o fim precisa pedir desculpas em carta. Finalmente, temos o exemplo de Gravidade, o filme que rendeu a melhor atuação de Sandra Bullock, em sua fuga da morte espaço afora, tentando se prender à Terra.

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Até o fim

O filme de Chandor cede a todos os apelos de um filme nesse sentido: não raro, o espectador se sente angustiado com a citação, pois vê o personagem isolado nele, sem ter a quem pedir ajuda. Em Até o fim, parece, ainda, que o homem retratado é velejador e experiente, tamanha a sua perícia em lidar com os problemas que vão surgindo pouco a pouco – e se os restos de um cargueiro são o principal vilão, o rádio de comunicação passa a ser o único intermédio com a civilização. Com o máximo de empenho, Chandor vai buscando cada uma das ações do personagem na tentativa de sobreviver em alto-mar, tentando basear sua localização num mapa que parece mais longínquo ainda do que a ajuda para seu estado. Até o fim vem calculadamente como um engenho de roteiro prático, em que cada movimento acaba valendo mais do que uma discussão entre personagens e um conflito. O espectador é convidado a reconhecer cada um dos passos do personagem nessa tentativa de sobrevivência durante alguns dias, certamente insuficientes diante da situação que estabelece.
No entanto, talvez isto não seja o bastante para configurar uma situação ainda mais dramática. Talvez porque seja difícil ter uma proximidade maior com o personagem de Robert Redford. Sua atuação é interessante e compenetrada, mas lhe falta uma camada mais emocional. Tudo soa muito controlado num acontecimento desesperador. Redford tem uma difícil atuação por desempenhar um filme em que precisa segurar de ponta a ponta uma narrativa em que o conflito com os humanos está ausente – sendo a natureza aquela que pode ajudá-lo ou definir seu destino – e consegue se notabilizar pela paciência justamente em ter pouco a dizer. Trata-se, nesse sentido, de uma proeza. Mas o filme se contenta justamente em estabelecer esta proeza do comedimento. Em certo momento, é difícil acreditar na paciência e tranquilidade do personagem – Redford parece, neste personagem sem nome, situar seu envolvimento com a palavra em apenas um momento, e este momento é suficiente para determinar que tudo o mais parece ter sido filmado para mostrá-lo, tornando-se o núcleo e, inevitavelmente, seu problema.

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Alguns espectadores do filme ficariam contrariados, considerando que isso tiraria do filme sua atmosfera mais enigmática e abstrata: a questão é que se sente falta de conhecer mais sobre este personagem além daquilo que a narrativa revela. Não se trata de uma linearidade, mas de um estabelecimento de que a humanidade não depende apenas de um estado, mas de um vínculo. E o fato de o filme deixar questionamentos a respeito do personagem não o torna necessariamente, como é o caso, complexo – pode ser uma escolha de estrutura da narrativa apenas condensada, mas sem ser efetiva. Em certos momentos, é como se Chandor tivesse tentado filmar no mar aquela passagem do astronauta em 2001, na transição do osso para a espaçonave. Precisávamos imaginar o que ele faz naquele nesse espaço, mais do que aquilo que nos é dado. Mas Kubrick é, sensivelmente, mais diretor do que Chandor no sentido de não se querer lidar apenas com a situação, mas com o vínculo que pode se estabelecer neste espaço. Da maneira como ele estabelece as pontas do filme, parece que  estava mais preocupado com o preciosismo da motivação central, esquecendo-se do restante – e da maneira como mostraria Redford chegar a um determinado ponto de limite. Há um aspecto de documentário até a metade do filme, que a fotografia e o trabalho de som (indicado ao Oscar) não conseguem encobrir, em que a emoção é relegada em favor de um pragmatismo, e, se ele melhora em sua parte final, sobretudo porque passa a mostrar um pouco mais a expectativa do personagem no que se refere a uma possível solução, tornando-o mais plausível, não parece que muda seu estado de vida. Ou seja, se J.C. Chandor filma com competência e a trilha sonora de Alex Ebert tem bons momentos, até emocionantes, trazendo uma certa caracterização delicada aos percalços do personagem, e tornam Até o fim um filme ao menos de respeito, o resultado final acaba sendo próximo do desapontador.

Al is lost, EUA, 2013 Diretor: J.C. Chandor Elenco: Robert Redford Roteiro: J.C. Chandor Fotografia: Frank G. DeMarco, Peter Zuccarini Trilha Sonora: Alex Ebert Produção: Anna Gerb, Justin Nappi, Neal Dodson, Teddy Schwarzman Duração: 106 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Before The Door Pictures / Black Bear Pictures / Washington Square Films

Cotação 2 estrelas e meia

 

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