Resultados do Oscar 2014

Por André Dick

12 anos de escravidão.Filme 2

As premiações que antecedem o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (como o Globo de Ouro, Independent Spirit Awards, SAG) acabam extraindo certa surpresa na entrega daquele que é considerado o prêmio mais importante da indústria. Se suas falhas de premiação criam debate, também cresce o interesse por ele, independente de seus favoritos. Neste ano, o Oscar teve como anfitriã a apresentadora Ellen DeGeneres, e ela saiu-se melhor do que Seth MacFarlane, no ano passado, convidando o elenco de Trapaça a ser quase um coadjuvante de sua apresentação – talvez como consolo para a obra de O. Russell –, com números musicais para cada canção (ao contrário do ano passado), homenagens aos heróis do cinema (não apenas os super-heróis), a O mágico de Oz e um In Memoriam com lembrança ao documentarista brasileiro Eduardo Coutinho e finalizado com a imagem de Philip Seymour Hoffman. E, se a plateia parecia interessada na premiação, Christian Bale dava a sincera impressão de não gostar do que via. A apresentação feita aos melhores filmes, de três em três, não destaca, no entanto, cada obra como deveria, embora se acontecesse o contrário a cerimônia iria demorar ainda mais. Foi uma boa apresentação, dentro do cansaço que normalmente impõe.

Melhor filme 

12 anos de escravidão.Oscar 5

Realmente, o número de 10 indicações a Trapaça foi um exagero, mas não em termos de elenco. Se há uma qualidade relevante na obra de O. Russell, é a interação entre Bale, Cooper, Adams e Lawrence. As indicações dos quatro foram merecidas. Em termos técnicos, parece que, sim, a obra pode ser questionada: a questão é que seu design de produção não convence. Por ser um filme de época (nos anos 70), também se pode avaliar que é despretensioso em recriar este período, apoiando-se apenas num belo figurino, mas nunca, ao longo do filme, contextualizado.
É lamentável que Martin Scorsese também tenha enfrentado um ano de tão fortes concorrentes, pois O lobo de Wall Street normalmente teria chances fortes de receber o prêmio. Assim como Nebraska, de Alexander Payne. Eles, aliás, repetiram 2012, quando concorriam respectivamente com A invenção de Hugo Cabret e Os descendentes, tão bons quanto esses mais recentes, e perderam para O artista. Filmes desse porte saírem sem um prêmio é incomum. Também Philomena, de Stephen Frears, num ano menos competitivo, poderia ter saído vencedor.
Uma nota também em relação a Ela, de Spike Jonze, não ter tido a força suficiente de marketing junto aos integrantes da Academia para se demonstrar como obra merecedora de mais prêmios e indicações (como o esquecimento de Joaquin Phoenix e da voz de Scarlett Johansson), embora se possa dizer que teve um prêmio mais do que justo por roteiro original.
O independente Clube de compras Dallas acabou sendo reconhecido de forma merecida, por seu elenco, tendo à frente Matthew McConaughey e Jared Leto, saindo-se melhor do que obras de grandes estúdios.
A questão é que, como em 2010, 2012 e 2013, chegaram ao Oscar vários filmes de qualidade – e cada vez mais o aumento de vagas se mostra acertado, embora alguns filmes de menos qualidade acabem ingressando em alguns anos. Como nesses anos, trouxe pelo menos seis obras memoráveis (Ela, 12 anos de escravidão, O lobo de Wall Street, Nebraska, Gravidade, Philomena), duas de interesse (Clube de compras Dallas e Trapaça) e outra um tanto deslocada, a meu ver (Capitão Phillips).
A força histórica de 12 anos de escravidão e a sensibilidade espacial de Gravidade mereceram todos os espaços recebidos. Podem, muitas vezes, ter sido superestimados, mas são grandes obras e resultados de investimentos por parte de seus diretores: McQueen e Cuarón se revelam artesãos do cinema, cada um a seu modo, e grandes montadores. Seus filmes são concebidos dentro de uma concepção ao mesmo tempo clássica e moderna. De modo que a vitória de 12 anos de escravidão como melhor filme foi merecida, e os Oscars de direção e técnicos (no total de 6) dados a Gravidade foram também justos.
O raciocínio de divisão parece ter sido o mesmo do ano passado, quando Ang Lee recebeu o prêmio de direção por As aventuras de Pi e Argo foi o melhor filme, ou seja, a Academia considera o diretor que lida com efeitos visuais e uma história mais baseada no fantástico talvez mais competente, mas não a ponto de estar à frente do melhor filme. E este ano marcou uma curiosidade: o filme com melhor montagem, fotografia, trilha sonora e diretor não foi escolhido como melhor filme (sobretudo o prêmio de montagem costuma combinar com o principal).
A premiação de qualquer um de seis indicados, em maior ou menor conta, seria justa – e eu escolheria Ela, mas sem deixar de admirar os outros concorrentes (minha ordem de preferência é esta abaixo).

Melhores filmes.Oscar 2014

Se os esquecimentos também se concentram em produções mais independentes, como Short Term 12, Fruitvale Station e The spectacular now, assim como Azul é a cor mais quente, vencedor em Cannes, de O grande mestre e Amor pleno, não se pode dizer que os Coen foram injustiçados. De fato, Inside Llewyn Davis parece seu filme mais fraco desde E aí, meu irmão, cadê você? Uma lembrança, abaixo, de 10 filmes que poderiam ter disputado as categorias principais do Oscar.

Filmes.2014

Talvez o grande perdedor deste ano tenha sido Harvey Weinstein. Apesar de ter conseguido incluir o sensível Philomena e Álbum de família entre os indicados, ele não conseguiu as indicações pretendidas para Fruitvale Station e O mordomo da Casa Branca. Também não conseguiu indicação de O grande mestre para filme estrangeiro. O prêmio dado a O discurso do rei ainda ecoa entre aqueles filmes mais fracos a serem premiados pela Academia.

Abaixo, reproduzo cada uma das categorias (com nomes que poderiam ter sido lembrados, como uma homenagem também a outros trabalhos, a partir de observações já feitas no texto sobre os Indicados ao Oscar 2014).

Melhor diretor

Gravidade.Oscar 7

Depois dos ótimos A princesinha e Grandes esperanças, Alfonso Cuarón fez aquele que é considerado o melhor episódio da série Harry Potter (Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban) e vence seu prêmio por Gravidade, com um grande trabalho, também de artesão. E com ótimos concorrentes, sobretudo Scorsese, em seu melhor momento em anos, Steve McQueen e Alexander Payne. Payne há muitos anos merece o prêmio, mas McQueen ainda tem um caminho a trilhar e novas indicações. Sua direção em 12 anos de escravidão é ótima, entretanto é seu terceiro filme.

Melhor ator

Clube de compras Dallas.Oscar 4

Uma das categorias mais difíceis deste Oscar, pois todos os atores estão excelentes em seus papéis. É lamentável que Bruce Dern dificilmente tenha outra chance depois de Nebraska. DiCaprio também se mostrou excepcional em O lobo de Wall Street e o que talvez tenha o papel mais difícil, transitando pelo humor e pela comédia ao limite, assim como Christian Bale, em Trapaça, este com menos força dramática. Chiwetel Ejiofor fez um grande trabalho em 12 anos de escravidão, mas como considerar injusto o prêmio a Matthew McConaughey por Clube de compras Dallas?
Mads Mikkelsen poderia ter sido indicado por A caça, assim como Joaquin Phoenix (Ela), e Ethan Hawke (lembrado em roteiro adaptado) por Antes da meia-noite. No entanto, este ano ele fez outros dois filmes, e bastante contestados (Uma noite de crime e Resgate em alta velocidade), o que diminuiu seu potencial de indicação. Miles Teller também está excelente em The spectacular now.

Melhor atriz

Blue Jasmine.Oscar

Minha alegria teria sido uma vitória de Sandra Bullock por Gravidade, e, embora Cate Blanchett esteja muito bem no filme de Allen, surpreende que seja quase um consenso, pois sua atuação não é memorável. E Blue Jasmine não é um grande filme, o que dá a essa vitória um meio-termo suficiente. Judi Dench está perfeita em Philomena. Em vez de Meryl Streep, e não se lança aqui uma dúvida sobre sua competência como atriz, a Academia perdeu a chance de trazer novidades: Greta Gerwig por Frances Ha, Brie Larson por Short Term 12 e Amy Seimetz por Upstream color. E certamente a Academia teve a oportunidade de indicar a grande atriz do ano: Adèle Exarchopoulos, por Azul é a cor mais quente.

Melhor ator coadjuvante

Clube de compras Dallas.Filme 5

Aqui os comentários para Jared Leto acabaram por selar uma vitória predeterminada, sem que ele tenha espaço para definitivamente uma interpretação muito superior aos demais. Jonah Hill está ótimo em O lobo de Wall Street, assim como Fassbender em 12 anos de escravidão, Cooper em Trapaça e Abdi em Capitão Phillips. Se a Academia desse mais destaque ao gênero de ficção científica, um indicado dessa categoria deveria ser Benedict Cumberbatch, por Além da escuridão – Star Trek. Tye Scheridan também está excelente em Amor bandido. E Jake Gyllenhaal tem interpretação diferenciada em Os suspeitos. Outras grandes atuações foram as de Daniel Brühl por Rush, Steve Coogan por Philomena e Will Forte por Nebraska.

Melhor atriz coadjuvante

12 anos de escravidão.Oscar 2

A atriz Lupita Nyong’o mereceu o prêmio por sua extraordinária atuação, numa categoria de excelentes concorrentes, como June Squibb (Nebraska), Jennifer Lawrence (Trapaça) e Julia Roberts (Álbum de família). Mas é a categoria em que talvez mais atrizes pudessem ser lembradas: Léa Seydox por Azul é a cor mais quente, Annika Wedderkopp por A caça, Scarlett Johansson por Ela (sua atuação por meio da voz é antológica), Octavia Spencer, que recebeu o Oscar por Histórias cruzadas, por Fruitvale Station – A última parada, assim como Kristin Scott Thomas por Apenas Deus perdoa e Shailene Woodley por The spectacular now.

Melhor roteiro original

Ela.Filme

Um dos prêmios mais merecidos da noite, Ela tem realmente um roteiro originalíssimo de Spike Jonze. Talvez ele só tivesse dois concorrentes este ano: o roteiro de Bob Nelson para Nebraska e o de Shane Carruth para Upstream Color. Derek Cianfrance, por exemplo, merecia uma indicação por O lugar onde tudo termina. Também indicaria o roteiro de Claire Denis e Jean-Paul Fargeau para Bastardos e o de Wong Kar-wai, Zou Jingzhi e Xu Haofeng para O grande mestre.

Melhor roteiro adaptado

12 anos de escravidão 18

Prêmio esperado e merecido para John Riley, por 12 anos de escravidão, numa categoria de fortes concorrentes, como O lobo de Wall Street, Antes da meia-noite e Philomena. Esses quatro filmes possuem diálogos interessantes capazes de sustentar a narrativa e oferecer aos atores a oportunidade de grandes interpretações.

Melhor filme estrangeiro

A grande beleza.Oscar

E, realmente de forma inexplicável, a obra de Paolo Sorrentino A grande beleza recebeu o prêmio nesta categoria, passando pelo ótimo A caça e pelo elogiado A imagem que falta. Dois filmes excelentes não estavam indicados nesta categoria, Azul é a cor mais quente e O grande mestre. Fiquei surpreso com a narrativa mal elaborada de O passado, que era um dos pré-indicados.

Melhor filme de animação

Frozen.Oscar

A Walt Disney em festas por Frozen – Aventura congelante, num ano em que Vidas ao vento era o preferido da crítica e Meu malvado favorito 2 e Os Croods os participantes indispensáveis, pois é um prêmio que destaca também as bilheterias de cada filme.

Melhor fotografia

Gravidade.Oscar 8

Emmanuel Lubezki talvez seja o maior fotógrafo do mundo neste momento depois de seus trabalhos com Terrence Malick e este Gravidade. Um prêmio merecidíssimo, embora O grande mestre também merecesse e Nebraska tenha uma visão memorável do interior dos Estados Unidos. Interessante a inclusão de Roger Deakins por Os suspeitos e de Bruno Delbonnel, responsável por trabalhos como O fabuloso destino de Amélie Poulain e Sombras da noite, por Inside Llewyn Davis, dois filmes esquecidos em categorias consideradas mais importantes. No entanto, ressente-se a ausência de Sean Bobbitt por 12 anos de escravidão e de Larry Smith, que foi habitual colaborador de Stanley Kubrick, por Apenas Deus perdoa – o grande destaque do filme de Refn. Inexplicável, ainda, a ausência de O lobo de Wall Street nesta categoria, com Rodrigo Prieto.

Melhor trilha sonora

Gravidade.Oscar 4

A trilha de Steven Price para Gravidade recebeu o prêmio, mas acho que a mais bela dentre todas era a de Ela, feita pelo grupo canadense Arcade Fire, embora ainda minha preferência seja pela de Hans Zimmer para 12 anos de escravidão, não indicada.

Melhor montagem

Gravidade.Oscar

Um dos méritos maiores de Gravidade é a montagem de Alfonso Cuarón e Mark Sanger e sem a concorrência de Rush – No limite da emoção ficou mais acessível. Mas 12 anos de escravidão também possui uma montagem irretocável.

Melhor design de produção

O grande Gatsby.Oscar 2

O design de produção de Catherine Martin e Beverley Dunn para  O grande Gatsby mereceu o Oscar. Ela e 12 anos de escravidão, no entanto, possuíam cenários irretocáveis.

Melhor figurino

O grande Gatsby.Oscar

O figurino de Catherine Martin em O grande Gatsby também foi merecedor. No entanto, o figurino de 12 anos de escravidão e O grande mestre é bastante fiel aos períodos retratados e excelente no uso de cores.

Melhor maquiagem e penteado

Clube de compras Dallas

Um prêmio talvez deslocado para Clube de compras Dallas e talvez a única categoria em que O hobbit – A desolação de Smaug, se indicado, seria imbatível.

Melhor canção

Frozen.Oscar 2

Let it Go”, de Frozen – Uma aventura congelante, foi a vencedora, fazendo com que o Oscar lembre uma escolha de Grammy. A canção do U2, “Ordinary Love”, para o filme Mandela – Long walk to freedom, parece uma clara sobra de estúdio e a melhor seria “The Moon Song”, de Ela. Pharell Williams fez uma boa apresentação para “Happy”, canção indicada de Meu malvado favorito 2.

Gravidade.Melhores do ano 6

Melhor edição de som

Glen Freemantle (Gravidade)

Melhor mixagem de som

Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead, Chris Munro (Gravidade)

Melhores efeitos visuais

Tim Webber, Chris Lawrence, Dave Shirk, Neil Corbould (Gravidade)

A um passo do estrelato

Melhor documentário em longa-metragem

A um passo do estrelato

Melhor curta-metragem

Helium

Melhor documentário em curta-metragem

The Lady in Number 6: Music Saved My Life

Melhor animação em curta-metragem

 Mr. Hublot

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