Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum (2013)

Por André Dick

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Com o passar dos anos – e na virada dos anos 90 para os anos 2000 –, os irmãos Joel e Ethan Coen passaram a ser, como outros diretores clássicos, referências de filmes no mínimo criativos. E, depois do influente Fargo, uma espécie de filtro do cult noir Gosto de sangue, eles passaram também a ser apreciados pela Academia de Hollywood, mas apenas por seus filmes considerados mais formais, mesmo com estilo próprio. Um deles, Onde os fracos não têm vez, foi o vencedor de 2008. No entanto, talvez ainda melhor do que este são os outros indicados, Um homem sério e Bravura indômita. Ao mesmo tempo em que fazem estas obras mais interessantes, os Coen gostam de alternar com a farsa: algumas vezes eles acertam, como em Arizona nunca mais e O grande Lebowski, em outras eles perdem a mão, como Matadores de velhinha, O amor custa caro e Queime depois de ler. Agora chega aos cinemas o novo filme, Inside Llewyn Davis.
Pela sua parte técnica admirável – sobretudo fotografia e direção de arte –, este novo filme se alinha com peças como E aí, meu irmão, cadê você? e Ajuste final, em que os diretores tentam equilibrar essas qualidades com os personagens e temas abordados. Aqui especialmente a fotografia de Bruno Delbonnel, responsável pelas imagens de O fabuloso destino de Amélie Poulain, é um belo convite a assisti-lo. Como os filmes em que a farsa é predominante, Inside Llewyn Davis tem uma atmosfera um tanto irreal. Os personagens, nessa atmosfera, passam a ser mais símbolos do que verdadeiramente seres humanos. Diante dessa irregularidade e sendo dois criadores, pode-se pensar se há um dos irmãos Coen mais propenso a estes filmes com simbologia e cuidado cenográfico especial. Tais narrativas são radicalmente diferentes de outras, com cenários mais modestos. Mesmo Um homem sério, com sua narrativa centrada numa espécie de sonho do personagem central, o humor que vinha das experiências reais – a separação da mulher, o conflito com colegas da escola – era permeado por uma sensibilidade folclórica.

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O cantor folk Llewyn Davis (Oscar Isaac) se encontra numa fase decisiva de sua vida. Depois de perder o seu parceiro de música, ele faz alguns shows, mas não consegue ser remunerado a ponto de ter um lugar onde ficar, perambulando pelo Greenwich Village de 1961. Tendo como empresário um senhor que fica atrás de uma mesa, como outros personagens dos Coen que tentam satirizar os magnatas, ele fica hospedado na casa dos Gorfeins (Ethan Phillips e Robin Bartlett). Determinado dia, ao deixar o apartamento, um gato vem junto, e Llewyn Davis passa a carregá-lo de um lado para o outro, inclusive quando se hospeda com os amigos Jim (Justin Timberlake, com a disponibilidade de interpretação de quem visitava os bastidores) e Jean (Carey Mulligan), casados. Há uma certa estranheza no início de Inside Llewyn Davis provocada pelos cenários, a exemplo dos corredores apertados, e quando o personagem central vai cantar com Al Cody (Adam Drive) e Jim numa gravação que talvez seja o momento que poderia definir o filme dos Coen. À diferença de Larry Gopnik, o personagem de Um homem sério, apesar de ser parecido em seu desespero pessoal por um reencontro com a família, Llewyn Davis nunca soa, embora aqui os Coen sejam explícitos, mais do que alguém sem empatia. Não parece que Isaac conseguiria fazê-lo diferente, pois já era assim sua atuação em Drive (em que também contracena com Mulligan), ou seja, é uma escolha intencional. E, embora se comente que o filme é baseado na vida de Dave Van Ronk, parece que os irmãos Coen teriam ignorado boa parte de suas referências, inclusive sua simpatia, levando Inside Llewyn Davis a um extremo contrário.
Certamente haveria, aqui, um espaço para a discussão sobre o artista manter-se intacto diante do trabalho comercial ou se deve assumir a paternidade como a caixa de discos antiga. Essa temática, embora apareça em alguns momentos de modo claro, acaba um pouco esquecida, pois os Coen parecem mais interessados no ambiente, certamente bem construído, que cerca esses personagens e há algo conceitual brilhando em alguns pontos sem realmente se traduzirem em envolvimento com o espectador.

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Um exemplo dessa escolha é que, em Inside Llewyn Davis, além do tom soturno, temos uma espécie de entreato com John Goodman e Garrett Hedlund, dois ótimos atores aqui confundidos com o design de interiores. Eles interpretam, respectivamente, Roland Turner, um jazzman, e Johnny Five, que seria um poeta beat, seu motorista, respectivamente, e os Coen tentam interceder por um diálogo com Hopper e a cultura da época. Walter Salles fez isso em Na estrada (também com Hedlund) com mais êxito e não teve uma recepção próxima desta que recebe o filme dos Coen porque também extraía a aura mitológica dos beats; os Coen, pelo contrário, só os consideram figuras em busca desta mitologia, e ela não passaria, para eles, de uma farsa. Neste instante, o filme também passa a lembrar de outra obra, muito superior, Barton Fink – Delírios de Hollywood, em que o personagem central precisa provar seu talento para se manter com chances de ser roteirista de um grande estúdio. Mas Barton Fink, mesmo porque a atuação de John Turturro era superior à de Isaac, era um personagem fascinante porque sua prepotência diante daqueles que considerava inferiores se voltava contra ele mesmo, com um senso de humor trágico. Lewis passa a ser um coadjuvante de Turner, feito por um Goodman bastante interessado numa excentricidade que já mostrou em outros filmes dos Coen. Aqui, por não encontrar auxílio na narrativa proposta, ele se excede.
Entre outros coadjuvantes, Carey Mulligan pouco aparece – e poderia acrescentar, pois se mostra melhor do que em O grande Gatsby –, F. Murray Abraham é apenas uma participação, e o McGuffin é a presença de dois gatos (uma participação levemente forçada, pela ausência de narrativa coerente), com uma citação de Joyce e da mitologia grega, a mesma que havia em E aí, meu irmão, cadê você?. Não se surpreende, por isso, que os irmãos Coen digam que não havia um roteiro definido antes da inserção dos felinos. Isso passa a ser visível na história, pois, na realidade, Inside Llewyn Davis é uma sucessão de acontecimentos, que até dizem respeito às vezes uns aos outros, mas não chegam a formar uma verdadeira unidade. É difícil entender sua recepção, desde Cannes, pois em termos de envolvimento, uma qualidade da filmografia dos Coen, quando acertam, é falho em vários níveis. Quando saem da melancolia, eles tentam algumas piadas engraçadas, como sempre, aqui sem conseguir – e isto é desagradável para quem acompanha a trajetória dos irmãos e sabem do filme que se escondia por trás deste, se eles estivessem em forma. Aqui, coadjuvante ou não de Bob Dylan, metáfora ou não da persona de Joyce, Llewyn Davis nunca consegue ser destaque. Sua frieza (e não melancolia) só consegue criar um diálogo com a própria paisagem fotografada por Delbonell: este é um filme esteticamente lindo, mas uma grande decepção cinematográfica, pelos nomes envolvidos talvez a maior de 2013.

Inside Llewyn Davis, EUA, 2013 Diretores: Ethan Coen, Joel Coen Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen Elenco: Oscar Issac, Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake, Adam Driver, Ethan Phillips, Robin Bartlett, Garrett Hedlund Fotografia: Bruno Delbonnel Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin Duração: 105 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Mike Zoss Productions / Scott Rudin Productions / StudioCanal

Cotação 2 estrelas

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4 Comentários

  1. Sofia

     /  17 de março de 2014

    Pra alguém que deu 5 estrelas ao moroso Oscar-bait 12 anos de escravidão, um filme tão cheio de simbolismos e sutilezas só poderia decepcionar mesmo…

    Responder
    • André Dick

       /  17 de março de 2014

      Eu não pensei em “moroso” para definir o filme dos Coen, mas certamente seria uma palavra excelente. Não chego a ver simbolismos e sutilezas nele, mas uma tentativa de encobrir as falhas narrativas com a criação de uma atmosfera. No entanto, eles costumam ser muito bons quando acertam, o que não acontece neste filme, tão raso, apesar de fotografado com rara sensibilidade, quanto a referência deles forçada a Joyce e à Odisseia. De qualquer modo, o ponto aqui parece ser falar em 12 anos de escravidão como isca para o Oscar e equiparar o filme a outros que ganharam o prêmio nos últimos anos sem o devido merecimento. Não é o ponto. Seria o mesmo que ignorar a campanha ostensiva, quase desesperada, na mídia americana para ter Inside Llewyn Davis indicado às categorias principais. O Oscar acertou em premiar Onde os fracos não têm vez, indicar Bravura indômita e Um homem sério e em ignorar este filme mais fraco deles desde E aí, meu irmão, cadê você?. Os Coen foram ao Spirit Awards, foram a Cannes, mas queriam mesmo era estar no Oscar. E isto não tem nada de simbólico ou sutil; é direito deles.

      Responder
  2. Paula Rocha

     /  2 de julho de 2015

    Sabe quando você só sente decepção ao assistir um filme que espera tanto por ser dos Coen? Foi isso que senti com Inside Llewyn Davis. Não sei se foi a atuação do protagonista ou a narrativa, mas não consegui extrair muita coisa dele, nem mesmo a ambientação e a fotografia.

    Responder
    • André Dick

       /  3 de julho de 2015

      Prezada Paula,

      Sou admirador da obra dos Coen, mas me parece que Inside Llewyn Davis é um dos filmes menos interessantes que já fizeram. Não apreciei a narrativa nem a atuação de Isaac, que se recuperaria muito bem em O ano mais violento. É lamentável, pois a ambientação e a fotografia são boas; visualmente é um bom filme. O problema é que os Coen consideram que as citações à Odisseia sustentariam o roteiro; o resultado é o que se vê.
      Volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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