Nebraska (2013)

Por André Dick

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Com uma filmografia sólida, o diretor Alexander Payne, ao contrário do intervalo de sete anos entre Sideways e Os descendentes, desta vez regressa depois de pequeno período, com Nebraska, indicado novamente aos Oscars principais (filme, direção, ator, atriz coadjuvante, roteiro original e fotografia). Lançado no ano passado no Festival de Cannes, dando a Bruce Dern o prêmio de melhor ator, o filme recebeu a desconfiança no restante do ano, com Payne sendo relativamente esquecido. Alguns diretores costumam não ser reconhecido como autores, mas Payne, desde Ruth em questão e sobretudo em Eleição, que ajudou a definir os anos 90, com sua estética referencial para diretores da nova geração, constrói um perfil definido por meio de suas narrativas, e, ao mesmo tempo em que não abandona características demarcadas, consegue somar novos elementos ao seu estilo.
Payne também é conhecido por extrair grandes atuações, como a de Jack Nicholson em As confissões de Schmidt, de Paul Giamatti em Sideways e de George Clooney em Os descendentes, todos indicados ao Oscar por elas. Não é diferente em Nebraska. O excelente Bruce Dern interpreta Woody Grant, com sintomas de Alzheimer, é encontrado caminhando numa rodovia, o que pode se ver como um diálogo direto com Sideways. Ele está confuso e imagina ter recebido um prêmio de 1 milhão de dólares, desejando ir para Lincoln, no Nebraska, a fim de recebê-lo. Embora tudo indique ser um equívoco, o seu filho, David (Will Forte, mais conhecido como humorista e uma ótima surpresa), decide que esta pode ser uma possibilidade de distração para se pai e resolve seguir a viagem, talvez também para esquecer sua rotina de vendedor de eletrodomésticos e sua dificuldade em estabelecer um vínculo. Entre paisagens e estradas tipicamente norte-americanas, com uma atmosfera melancólica, Nebraska emprega essa viagem como uma tentativa não apenas de manter a ideia de que ele está indo buscar 1 milhão de dólares em Lincoln, mas de que o tempo em que irão passar juntos pode ser uma possibilidade de estabelecer ligações de afeto. No entanto, a estrada de Payne não se configura confortável como aquela de Paris, Texas, por exemplo, com sua estética repleta de cores e contrastes: a sensação é de que existe um país semiabandonado, embora triunfe ainda a ideia de conquista e superação.

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No caminho, eles param na pequena cidade de Hawthorne para visitar familiares, e recebem a companhia materna, Kate (June Squibb), e de Ross (Bob Odenkirk), o outro filho. Recebidos pelo irmão de Woody, Ray (Rance Howard), e sua mulher, Martha (Mary Louise Wilson), cuja atividade é ficar em frente à TV, com dois filhos, Cole (Devin Ratray) e Bart (Tim Driscoll), eles se encontram também numa situação de entender melhor o passado de Woody, embora a notícia mais espetacular seja a de que o parente tenha conseguido um prêmio de 1 milhão de dólares. Não que o passado reserve grandes descobertas, mas, como uma odisseia pessoal, é possível estabelecer uma renovação familiar, sobretudo quando se encontra figuras como a de Peg Nagy (Angela McEwan, uma participação notável), e mesmo quando não existe propriamente um bem-estar, proporcionado por Ed Pegram (Stacy Keach, excelente) – o que pode ser necessário para um avanço.
Com uma fotografia elaborada em preto e branco de Phedon Papamichael (as nuvens do interior fazendo uma analogia com a cor dos cabelos de Woody e Kate e das casas de interior, o escuro em diálogo com os tratores, os carros, o figurino, a noite e as lâmpadas dos bares), Nebraska toca por sua sensibilidade e depois de se vê-lo não é possível imaginá-lo em cores. Em certos aspectos, inclusive na sua temática de vida em relação a Woody, ele lembra História real, de David Lynch, com elementos de As confissões de Schmidt, assim como Sideways, filmes de Payne, porém há uma tentativa de compreender a ligação entre as gerações, como também com o passado, especialmente bem mostrada por Payne aqui e em sua obra anterior, Os descendentes. Do mesmo modo que em As confissões de Schmidt, Payne lida com figuras do interior entre o respeito delimitado e uma espécie de ironia em relação a seu comportamento. A família do genro de Schmidt, naquele filme, é especialmente vista de forma corrosiva. Em Nebraska, não é diferente – e, se alguns momentos soam bem-humorados, é justamente por esse olhar de Payne. No entanto, parece que o humor vai até um determinado ponto; depois de uma discussão, a narrativa de Nebraska toma um rumo menos complacente.

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Do retrato que Payne faz desses personagens do interior, pode-se desconfiar, e foi acusado de não ser fiel. Mas também se deve falar que o cineasta nasceu em Omaha, Nebraska, ou seja, ele tem conhecimento sobre esse universo. O que se percebe é que ele, mais do que retratar as pessoas dessa comunidade visita por Woody e sua família, revela o desejo delas quando se deparam com uma maneira de modificar suas vidas. Não é um retrato elogioso – e daí possivelmente as críticas feitas por meio do humor. Um exemplo pode ser o de Kate, a mulher de Woody, que no início pode não ser uma figura exatamente delineada além do esperado, mas que passa, ao longo da narrativa, a desempenhar um meio-termo entre sentimentos que Woody não consegue demonstrar do melhor modo, assim como uma figura capaz de surpreender os próprios filhos. Este retrato apresentado por Payne produz a sequência mais bela, possivelmente, de um filme seu, em que os personagens reencontram um cenário de passado, com árvores que lembram o filme O sacrifício – que também trata da relação entre pais e filhos – e, em seguida, uma síntese da época atual, nos Estados Unidos, de secura e afastamento de uma determinada mitologia de segurança. Por outro lado, parece ser essa mesma mudança de mitologia dos Estados Unidos que confere a este personagem uma lembrança de certo encontro com aquela mitologia de livros e histórias contadas. Na verdade, Payne trata de um país que está terminando e outro que está começando, mas um não existe sem o outro. Esta sensação se reproduz durante a narrativa de Nebraska, em maior ou menor frequência, em suas referências a guerras longínquas e ainda presentes: para Payne, os conflitos se desenham no embate mais forte, aquele do presente contra o passado. E, em paralelo a isso, temos o comportamento dos pais, igualmente inserido em suas memórias e esquecimentos, como se fossem crianças, e a atitude correspondente dos filhos, com um sentimento ainda mais infantil, principalmente quando tentam recuperar um bem importante para o pai. Hawthorne se torna mais do que um lugar para se passar alguns momentos: sua composição e arquitetura traz um sentimento permanente de infância, no entanto, como toda infância, capaz de dar novos passos.
Por isso, Nebraska mostra que a herança é uma espécie de sonho particular estendido às novas gerações, e Bruce Dern revela esta ideia da melhor forma, numa atuação contida e comovente. O diretor Alexander Payne mais uma vez não desaponta quem espera uma narrativa com elementos de humor, mas, ao mesmo tempo, densa e trabalhada num crescente. Seu filme mais introspectivo até o momento, Nebraska nos faz lembrar de como o ser humano pode se reconhecer sempre não apenas pelo passado, como também pelo futuro, por mais limitado que pareça, afinal, segundo Payne, tudo pode reservar um alento.

Nebraska, EUA, 2013 Diretor: Alexander Payne Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Rance Howard, Mary Louise Wilson, Angela McEwan, Devin Ratray, Tim Driscoll Roteiro: Bob Nelson Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Mark Orton Produção: Albert Berger, Ron Yerxa Duração: 115 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blue Lake Media Fund / Bona Fide Productions / Echo Lake Productions

Cotação 5 estrelas

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