Fruitvale Station – A última parada (2013)

Por André Dick

Fruitvale Station 3

Um filme baseado em fatos reais às vezes fica comprometido de modo excessivo com a história da qual surge, resultando numa narrativa mecânica quando não encontra seu realizador mais adequado. Quando assistimos os minutos iniciais de Fruitvale Station – A última parada, é esta a sensação que temos. O diretor estreante Ryan Coogler mostra uma sequência gravada do acontecimento em que o seu filme se baseia e parece sintetizar tudo a partir dele. Para o espectador menos informado sobre o acontecimento, o filme pode ter um crescimento diferente, pois não se sabe o desfecho; para quem conhece a história, talvez não haja o mesmo impacto, no entanto é interessante, pelo tratamento dado à narração e ao elenco, acompanhá-lo.
A partir desse momento captado numa câmera de vídeo, Coogler passa a mostrar um dia na vida de Oscar Grant (Michael B. Jordan), 22 anos, que foi dispensado do trabalho e está à procura de uma ocupação. O que ele teria a fazer, a princípio, seria andar de carro e vender drogas, como fez antes de ir para a prisão, mas este dia enfocado não é apenas de véspera do ano novo, como também do aniversário de sua mãe, Wanda Johnson (Octavia Spencer), e o dia em que ele precisa fazer escolhas, diante da namorada, Sophina (Melonie Diaz), e da filha, Tatiana (Ariana Neal). Ele não consegue contar a ela que não trabalha mais no supermercado de onde foi dispensado, e essa preocupação o persegue ao longo de todo o filme, destacado pelo diretor por meio de cenários quase isolados, como o do posto de gasolina e uma sequência em seguida filmada com extrema perícia, e nada tem de calculadamente emotiva, mas essencialmente diz respeito à situação do personagem, a como ele se sente.

Fruitvale Station

Fruitvale Station 2

Esses momentos diante da família, ou de uma conversa com a avó ao telefone, são verdadeiramente humanos e a peça central para fazê-lo funcionar é justamente seu ator principal, Jordan. Ele consegue aliviar os momentos em que o roteiro carrega nas tintas dramáticas, assim como Octavia Spencer, mesmo com poucas linhas de diálogo, desenha uma mãe essencialmente de vigor. Em Fruitvale Station, é a figura da mãe o que acaba servindo de guia para a compreensão do personagem central, aquela que acaba alimentando a narrativa a partir de sua ausência, mesmo estando próxima. Em uma narrativa de pouco mais de 80 minutos, Coogler mostra os sonhos do personagem e a necessidade de concretizar a família na qual nunca se imagina inserido – e o momento em que ele conversa com um desconhecido, mais ao final do filme, basta para definir este entendimento. Tampouco parece que ele esconde algo para tornar o personagem numa referência intocada; pelo contrário, ele desenha apenas um momento determinado na vida de um jovem de pouco mais de 20 anos, diante da tentativa de abandonar o passado e seguir em frente ou se entregar ao impulso daquilo que o imobiliza de todo modo. A pergunta que pode ser feita é: se o jovem fosse mostrado como alguém sem solução o seu desfecho teria um motivo racional?
Os movimentos podem lembrar um filme de Gus Van Sant (a exemplo de Elefante e Paranoid Park), com uma espécie de sentimento bruto, em que o personagem tenta se desvencilhar do seu passado e acaba tendo de enfrentar a incompreensão. No entanto, Coogler filma com mais dispersão, deixando o personagem independente na maior parte do tempo, à frente da câmera acertadamente emocional instável de Rachel Morrison, sem cair no tom de um documentário, e captando a atmosfera solitária de Oakland, Califórnia, e de figuras dispersas. Apenas se lamenta que, com isso, algumas conversas não sejam tomadas de modo mais denso, e Coogler escolha por um certo distanciamento dos cenários em que elas acontecem. Por outro lado, ele esvazia o tom que poderia existir, mais teatral, dando espaço a coadjuvantes como Melonie Diaz se destacarem. Isso ocorre, ao mesmo tempo, pela presença, ao longo do filme, de celulares e câmeras digitais, localizando a tecnologia como um ponto de proximidade e separação entre os personagens – a julgar pelo início, peça central para esclarecer um acontecimento –, principalmente quando as palavras digitadas ficam em relevo, ocupando o espaço das falas.

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Fruitvale Station 5

A princípio um filme independente (depois foi distribuído por Harvey Weinstein), Fruitvale Station tem Forest Whitaker como um de seus produtores, e ele esteve justamente em O mordomo da Casa Branca, bastante prestigiado nos Estados Unidos e com bela reconstituição de época. O realismo que falta a O mordomo, no entanto, marca presença neste filme, em que Jordan tem a presença mais identificada com o público. Certamente por isso a sua acolhida no Festival de Sundance, em que foi escolhido como melhor filme pelo júri e pelo público, e seu prêmio na mostra “Um certo olhar”, do Festival de Cannes. As escolhas feitas pelo diretor neste sentido o tornam mais interessante. Acusado de contemporizar o que realmente aconteceu, Coogler não se ressente de uma direção hábil de atores. Com ele, todos têm um desempenho perto do imaginado para uma situação como a do filme, e é isso que realmente importa ao vê-lo. Não há um excesso narrativo, mas a composição de quadros que vão se unindo e compondo a figura do personagem central. E é interessante como ele consegue, por meio da montagem de Claudia Castello e Michael P. Shawver, se concentrar em circunstâncias essenciais para a motivação do personagem. Isso se deve à presença da atriz mirim Ariana Neal, que faz sua filha e protagoniza uma cena fantástica em que eles se encontram num colégio. Mas não apenas este momento: Coogler em vários momentos equilibra a sensação de liberdade de Oscar com a da prisão, como a de um momento em que ele observa o sol se pôr numa baía e tem um flashback definidor daquilo que o trouxe àquele momento e vai estabelecer uma ligação com seu desfecho, notável, por mais dolorosa e mesmo sentimental que seja. É Jordan quem acaba trazendo a ideia de que algo diferente poderá acontecer, desviando-se dos fatos, e é este fio de esperança que sustenta a narrativa. Pode-se assistir este filme com o pensamento de que se trata de uma história banal – sobretudo porque pode se confundir um ser humano com estatísticas –, mas Fruitvale Station nos faz lembrar de momentos que definem toda uma existência e a necessidade do afeto. Num momento em que o cinema perde dois referenciais, como Philip Seymour Hoffman e Eduardo Coutinho, é um filme, sob os moldes de uma pretensa inovação, até comedido, mas extremamente humano.

Fruitvale Station, EUA, 2013 Direção: Ryan Coogler  Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Ariana Neal, Ahna O’Reilly, Kevin Durand Roteiro: Ryan Coogler Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Ludwig Goransson Produção: Forest Whitaker, Nina Yang Bongiovi Duração: 85 min. Distribuidora: The Weinstein Company Estúdio: Forest Whitaker’s Significant Productions / OG Project

Cotação 4 estrelas

 

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