Amor bandido (2012)

Por André Dick

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Há muito tempo o cinema de Hollywood tem se afastado de histórias simples ou visto com certa desconfiança aquelas que têm um certo tom de descoberta juvenil num cenário real, preferindo se concentrar em produções com o objetivo de alcançar um público que prefere esses mesmos elementos com mais ação. Nos anos 80, tínhamos filmes como Conta comigo, em que uma turma, caminhando por um trilho de trem, ia em busca de um corpo desaparecido. Baseada em Stephen King, a história apresentava elementos, como este recente Amor bandido, de Mark Twain e Charles Dickens. O novo filme de Jeff Nichols, recém-saído do sucesso de crítica O abrigo, com Michael Shannon, que regressa aqui num pequeno papel, e Jessica Chastain inseridos numa parábola sobre o fim do mundo, procura encontrar este síntese, apresentando a história de um menino, Ellis (Tye Sheridan), que vê o casamento de seu pai, Senior (Ray McKinnon, num diálogo visual direto com o personagem de Harry Dean Stanton em Paris, Texas), e de sua mãe, Mary Lee (Sarah Paulson), se desintegrar lentamente. Eles vivem no Rio Mississippi, na altura do Arkansas, em uma casa flutuante, deixada pela família de Mary Lee. Quando se separarem, o governo destruirá a propriedade. Desde o início, Nichols consegue inserir o espectador neste ambiente, criando uma atmosfera sólida, com a fotografia particularmente acertada de Adam Stone, sustentada por um extraordinário design de som, capaz de captar a natureza. E avisa: este é um filme naturalmente acessível, composto por pedaços de narrativa reconhecíveis e ainda assim naturalmente emotivos e cuja ressonância é sincera.

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Ellis está em conflito existencial e, numa das peregrinações pelo rio, com o amigo Neckbone (Jacob Lofland), descobre um barco pendurado numa árvore em uma pequena ilha abandonada da região, deparando-se, logo em seguida, com Mud (traduzindo literalmente, Lama), que pede por comida, uma situação que contrasta com sua camisa impecavelmente branca, da qual não se livraria, como ele diz, nem antes de sua arma. Diz que morou no Rio quando era criança e está ali à espera de uma moça. Este fragmento de história é suficiente para que Ellis se interesse em ajudá-lo. Adentrando na adolescência e sem a idealização do amor em sua rotina, interessado por colegas mais velhas que se reúnem em frente a postos de gasolina, principalmente May Pearl (Bonnie Sturdivant), ele se sente deslocado e sem ter alguém para dividir seus conflitos. Embora Neckbone não se interesse muito pela história, ambos passam a ter um vínculo com Mud, que pede a eles para procurar um homem da região, Tom Blankenship (um contido e excelente Sam Shepard), com a franca possibilidade ajudá-lo, enquanto o tio de Neckbone, Galen (Michael Shannon), se mostra preocupado com o que possa estar ocorrendo.
Nichols começa aí sua espécie de conto moral sobre como um menino pode, ao mesmo tempo, buscar o perigo para recuperar aquilo que perdeu com o passar da idade. Quando entra em cena Juniper (Reese Whiterspoon, tentando fugir da imagem deixada por comédias), surgem novos conflitos e é preciso, mais do que desafiar a si mesmo, tentar substituir as próprias escolhas para investir numa história que pode ser diferente da sua. Mud, para Ellis, não pode ter uma história como a sua: por meio dele, é possível recuperar a ideia de uma certa unidade familiar, capaz de trazer ainda conforto e certeza. E a figura da mulher é associada a uma entrada na maturidade, tanto para compreender as escolhas familiares quanto aquelas que irão definir as reuniões no colégio. Em correspondência direta com esta definição, existe a reconstrução do barco para que se possa abandonar o cenário longínquo de uma infância não mais possível de ser alcançada.

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É interessante como Amor bandido se constrói em cima de uma base muito simples e direta, sem colocar histórias paralelas a fim de impedir a naturalidade da narrativa. Isso, no cinema atual, pode ser visto até mesmo como uma espécie de conservadorismo e retomada de uma certa ideia clássica. Mas quanta diferença pode fazer não apenas um diretor competente, como Nichols é, como também um elenco à altura. Depois de Killer Joe, McConaughey entrega a sua grande atuação do ano, um personagem com variações de tom. Com poucos diálogos, mas uma composição de personagem sólida, ele é apoiado pela figura de Tye Sheridan, um ator excepcional, conhecido do público desde A árvore da vida, e por Jacob Lofland, que sempre entra em cena para conseguir sustentá-la e aparar as arestas, assim como Joe Don Baker tem uma presença assustadora. Há algumas sequências que só possuem vitalidade pela interação do elenco, quando a história parece escapar para saídas mais rotineiras, sobretudo em seu terceiro ato, embora ainda com impacto e narrativa fluente. No entanto, Nichols filma tudo com uma habilidade própria e a colaboração fundamental de Julie Monroe na montagem de suas peças que Amor bandido parece transparecer uma espécie de clássico perdido, de uma história tantas vezes contada que parecemos às vezes esquecer de como ela é vital.

Mud, EUA, 2012 Direção: Jeff Nichols Elenco: Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Jacob Lofland, Reese Witherspoon, Sarah Paulson, Ray McKinnon, Sam Shepard, Michael Shannon, Bonnie Sturdivant, Paul Sparks, Joe Don Baker Roteiro: Jeff Nichols Fotografia: Adam Stone Trilha Sonora: David Wingo Produção: Aaron Ryder, Lisa Maria Falcone, Sarah Green Duração: 135 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Everest Entertainment / FilmNation Entertainment

Cotação 4 estrelas

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