Rush – No limite da emoção (2013)

Por André Dick

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O diretor Ron Howard sempre foi visto como um diretor sem marca autoral, ao qual estúdios recorrem quando querem alguma competência e o mínimo de riscos. Dos anos 80, quando dirigiu filmes que até hoje servem como referência do gênero fantasia (Splash, Cocoon e Willow) e uma bela comédia familiar (O tiro que não saiu pela culatra), ele passou os anos 90 com um interessante filme sobre a rotina dos bombeiros (Cortina de fogo) e a tentativa de fazer uma espécie de Rede de intrigas mais acessível (O jornal), até ter conseguido respeito com Apollo 13 e, já nos anos 2000, ganhar o Oscar por Uma mente brilhante. Embora não se saiba como ele fez projetos como O Código Da Vinci e O grinch, também realizou os subestimados A luta pela esperança e Frost/Nixon e, mais uma vez com roteiro de Peter Morgan, se recupera com seu novo filme, mostrando competência como diretor de atores. Dificilmente veremos más interpretações nos filmes de Howard, e não é diferente em Rush – No limite da emoção. Também dificilmente veremos uma montagem precária e um trabalho técnico sem cuidado. Embora pareça que o cinema tem mostrado um aperfeiçoamento nesse campo, não significa que se consiga mesclar a ele uma genuína emoção. Quando acerta, Howard consegue, e com aguçado senso de humor.
Rush inicia (daqui em diante, pequenos spoilers) mostrando o duelo entre Niki Lauda (Daniel Brühl) e James Hunt (Chris Hemsworth) já nos bastidores da F3, em 1970, quando Hunt o prejudica para poder vencê-lo. Depois de se desentender com o pai, Lauda busca um patrocinador para que possa disputar a Fórmula 1 e mostra seu talento também como técnico, apontando mudanças no carro para que ele tenha mais velocidade na pista. Hunt, por sua vez, recebe o apoio do milionário Lord Hesketh (Christian McKay). Desajeitado com as mulheres, ao contrário de Hunt, Lauda conhece Marlene Knaus (Alexandra Maria Lara), enquanto seu rival se casa com Suzy Miller (Olivia Wilde), que chegará mais tarde a Hollywood. Howard vai mostrando essa passagem do tempo e esses relacionamentos de maneira interessante, sem sobrecarregar a montagem ou as etapas.

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Pelo contrário, Howard consegue criar um paralelo entre esses corredores, sem prejudicar um ou outro, nem tornar este vínculo criado pela rivalidade em algo exagerado. Com os diálogos de Peter Morgan, que ao mesmo tempo soam despretensiosos e ágeis, Rush se estrutura em sua montagem praticamente perfeita, sem sobras, sobretudo quando passa a mostrar as corridas do campeonato de 1976, quando Lauda e Hunt entraram em disputa direta pelo título, pois ambos possuíam carros sofisticados. São essas corridas, criando uma ligação direta com acontecimentos pessoais, que tornam Rush num filme cujo tema – o desafio à morte, a tentativa de superar as limitações como esportista – ressoa uma emoção baseada nas imagens e no embate entre figuras, não na tentativa de o diretor soar mais complexo à medida que a trama avança. Neste caso, a narrativa tem êxito quando trabalha os conflitos e o sentimento despertado pelo receio de não conseguir chegar ao objetivo final.
Com uma fotografia notável de Anthony Dod Mantle, captando bem a atmosfera dos anos 1970, das corridas, inclusive das arquibancadas dos autódromos, assim como o espaço apertado dos carros, a velocidade deles e a dimensão das pistas, Rush consegue atrair o olhar também para momentos mais sensíveis – sempre em vista de mostrar o olhar de cada figura para as situações, que demandam ou não perigo. Talvez em razão de uma narrativa com figuras tão fortes Howard e o roteirista Morgan tenham deixado um pouco de lado as figuras coadjuvantes, mas isso não chega a atrapalhar o andamento da história e a propriedade com que é contada. Nem mesmo as inevitáveis provocações, até certo ponto previsíveis, entre os dois, reduzindo muitas vezes Lauda e Hunt a polos opostos que se atraem para o embate: o inglês playboy que adora festas e o austríaco que precisa provar a si mesmo que pode dominar a F1 de forma definitiva.

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A fim de que Howard chegue aos seus objetivos, dependeria de seus dois atores, e a resposta é a mais positiva possível. Depois de fazer parte de uma histórias mais marcantes de Bastardos inglórios, Brühl se mostra um ator cada vez mais eficiente, em sua mescla entre humor e arrogância, e Hesworth se mostra aqui muito mais à vontade do que em Thor e outros blockbusters, com inegável talento para contrabalançar a pretensão com uma certa ingenuidade. Ambos conseguem transformar Rush numa das experiências mais interessantes do cinema em 2013, ajudados pela compactação entre a montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill e a trilha sonora de Hans Zimmer, não tão presente quanto na série Batman de Cristopher Nolan, mas ainda assim eficiente para colaborar nos momentos de suspense. Na categoria de filmes envolvendo o duelo entre dois esportistas, não lembro de tal envolvimento desde o fundamental e hoje quase esquecido vencedor do Oscar de 1981, Carruagens de fogo, antológico não apenas pela trilha de Vangelis, como também por ampliar toda a tradição que cerca o esporte. Em filmes dessa natureza, o esporte acaba sendo apenas um motivo para expressar outros temas, que acabam sobrecarregados exatamente pela emoção dele. Rush é certamente um dos mais exemplares.

Rush, EUA/ALE/Reino Unido, 2013 Direção: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Christian McKay, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara Roteiro: Peter Morgan Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Andrew Eaton, Brian Grazer, Brian Oliver, Eric Fellner, Ron Howard Duração: 123 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Revolution Films

Cotação 4 estrelas e meia

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