Barbara (2012)

Por André Dick

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Há muito ainda a ser tratado no cinema sobre a divisão entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental. Barbara é um desses projetos em que a história parece ter um papel exemplar para mostrar o que pode ter acontecido, ao mesmo tempo em que recupera, por meio de imagens, um certo estado de conflitos da humanidade. Situado em 1980, ele mostra a trajetória de Barbara (Nina Hoss), uma médica que tentou escapar da Alemanha Oriental e trabalhava num hospital renomado de Berlim, mas é descoberta pela Stasi e enviada para uma pequena cidade, onde precisará prestar serviço médico, ao lado de uma equipe chefiada por André Reiser (Ronald Zehrfeld), que sabe de sua história, e opta sempre pelo silêncio. Este é um lugar onde há um estado de urgência e as pessoas se sentem anestesiadas, seja quando dão voltas pelo bairro, seja quando se fuma embaixo de uma árvore. Reiser também cometeu um erro médico quando trabalhava em Berlim, sendo transferido pela Stasi e servindo de informante das pessoas que devem ser vigiadas. Barbara está entre as pessoas sobre as quais deve ter um controle, porém desde o início o diretor Christian Petzold consegue transformar uma relação quase silenciosa no estopim de um filme em que a espionagem poderia tornar as vidas das pessoas envolvidas quase inutilizadas e acontece o contrário, pois em primeiro lugar parece haver o interesse pelo outro. Para esses personagens, existe, irremediavelmente, ação, sempre situados entre a vida e a morte, a apatia do cotidiano e a necessidade de se tomar decisões diante de uma cirurgia.

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É isto que Barbara consegue compor para o espectador: uma sensação de conflitos que só podem ser remediados pela ajuda ao próximo, mas sem o caráter de exagero emocional e sim como um acesso inevitável aos relacionamentos que parecem abalados por um sistema exterior e ainda assim conseguem se manter. Barbara, a princípio, simboliza uma imagem fria, sem emoções, que tenta ocupar seu tempo livre com passeios de bicicleta que podem levar a um ponto de encontro, no entanto apenas para adiar o que não pode ser mais adiado. Aos poucos, o médico-chefe começa a ficar interessado por Barbara, mas ela só pensa em conseguir passar para a Alemanha Ocidental, a fim de ficar com seu amado Jörg (Mark Waschke).
Com seus passeios de bicicleta anônimos, tentando fugir ao olhar da Stasi, a médica vai aos poucos tentando se libertar das amarras, mas Petzold não chega a visualizar a situação de modo desgastante, como em A vida dos outros, e sim com um silêncio crescente. O hospital é o ponto de encontro para amenizar o cotidiano, e a chegada de uma menina, Stella (Jasna Fritzi Bauer), fugitiva de um terrível campo de trabalhos forçados acelera a aproximação entre Barbara e André. Este desconfia que a menina está fingindo ao chegar ao hospital, mas se descobre que ela tem meningite. A partir daí, há uma aproximação dela da figura de Barbara, que, silenciosa, pretende seguir sua vida longe do olhar da Stasi, na Alemanha Ocidental. Mas há um ponto de separação no Mar Báltico.

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O diretor Christian Petzold costura esta trama a princípio simples com sequências de grande beleza, todas discretas, sem nenhuma tentativa de manipular o espectador. A mais interessante delas, contrastando a experiência médica (e a experiência de ambos) se dá em frente à tela “A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp”, de Rembrandt. Aqui está um exemplo de como uma referência artística pode ser incorporada a um filme de modo sensível e atuante sobre a narrativa, pois simboliza a aproximação dos dois médicos e vai ressoar em outros pontos, mesmo existindo o afastamento. Em Barbara, há a plena sensação de que a responsabilidade com o outro irá substituir a espionagem e a ajuda pode ajudar substituir qualquer tipo de discurso. Esses personagens são profundamente humanos, e a narrativa cria contrastes e ligações interessantes entre um e outro.
Na verdade, diante disso, o que importa sempre é a humanidade, nunca o sistema em que ela está inserida, o que Petzold ressalta bem com seu filme feito mais de intervalos de silêncio, entremeado pelo barulho do cenário (do vento, da estrada onde Barbara passa de bicicleta, das portas do hospital), criando um ambiente situado entre a natureza, oferecendo uma impressão de liberdade, e a frieza dos corredores, tanto dos corredores quanto das casas, quando receber a visita de alguém para arrumar um piano se torna ameaçador. Nina Hoss faz um trabalho metódico como Barbara, assim como as ações dela como médica, e Ronald Zehrfeld consegue elaborar alguém interessado pela figura misteriosa e perseguida com qualidade rara em atores. Quando Hoss e Zehrfeld contracenam juntos, Barbara atinge um patamar diferente, revelando como atores podem compor um cenário diferente não apenas dentro do filme, mas no olhar do espectador.

Barbara, ALE, 2012 Direção: Christian Petzold Elenco: Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Jasna Fritzi Bauer, Mark Waschke, Rainer Bock Roteiro: Christian Petzold, Harun Farocki Fotografia: Hans Fromm Trilha Sonora: Stefan Will Produção: Florian Koerner von Gustorf Duração: 105 min. Distribuidora: Pandora Filmes Estúdio: Arte / Schramm Film Koerner & Weber / Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF)

Cotação 4 estrelas

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