A visitante francesa (2012)

Por André Dick

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A atriz Isabelle Huppert teve sua maior projeção na juventude com o antológico O portal do paraíso. Do início dos anos 80 até hoje ela se tornou uma das atrizes mais constantes no cinema, fazendo até quatro filmes por ano. Talvez por isso possa parecer estranho que um filme como A visitante francesa, que marca seus 60 anos, fique tão esquecido e alheio às discussões. Certamente por se tratar de um experimento novo do diretor sul-coreano Sang-soo Hong (de Hahaha e do ainda mais recente Filha de ninguém), esta é uma comédia sensível e agridoce, uma espécie de mescla dos melhores elementos de Abbas Kiarostami – o diálogo natural, de obras como o excelente Um alguém apaixonado, com o qual concorreu em Cannes, e Close-up – e Eric Rohmer – a delicadeza em relação ao clima de romance e o que se espera (ou não) dele. O filme investe na história de uma jovem estudante de cinema, Won-joo (Jung Yoo-mi), que deseja escrever um roteiro, para tentar fugir de problemas financeiros, e está na praia de Mohang, acompanhada de sua mãe Park Sook (Yoon Yeo-jeong). Ela imagina uma mulher francesa em situações diferentes, mas desta vez não há um excesso de metalinguagem, que poderia encobrir as relações e os personagens para simplesmente conduzi-las a uma participação abafada pela sugestão de teorias de linguagem e experimentos que acabam não oferecendo o devido efeito.

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Diante de filmes em que a literatura e a cultura foram um peso este ano – e não uma liberação –, a exemplo de Dentro da casa, Depois de maio, Vocês ainda não viram nada! e A grande beleza (cada um com sua cota de qualidades, mas praticamente ineficazes em proporcionar uma sensação realmente humana, de colocar personagens não como meros efeitos de linguagem e de diálogos com a arte, e sim também como seres humanos), A visitante francesa consegue trazer uma sensação de bem-estar. Nele, a vida e seus personagens podem se repetir e se renovar pela imaginação não intrusa da narradora, mas como figuras que têm sua própria mobilidade e não soam pretensiosas, mas componentes de um cenário em que a descoberta acontece por meio de diálogos sem uma colocação enfática, mas simplesmente integrados a cada situação.
O filme traz três histórias com a figura da francesa Anne, em situações diferentes. Inicia com aquela em que a personagem, como diretora de cinema, visita um amigo diretor, Jong-soo (Kwon Hae-Hyo), na Coreia do Sul, casado com Geum-hee (Moon So-ri), havendo um flerte, num hotel à beira de praia, assim como aquele da estudante de cinema. A segunda mostra a personagem, casada com um empresário, encontrando um amante, Moon-soo (Moon Sung-Keun), desta vez ele um diretor de cinema, nessa casa, às voltas com a perda de um celular, e a terceiro mostra Anne na praia, hospedada na casa de uma senhora, Park Sook (Yeo-jeong Yoon), sendo assediada por um homem, que está no local com a esposa – a história que mais estabelece uma relação com a primeira, pois trata-se do mesmo casal. Nos três cenários, também, há um jovem salva-vidas (Yoo Jun-sang, excelente), que pode ou não saber a localização de um farol. As ideias variam como se fossem não apenas não três histórias, ou esboços, mas complementares na mesma história e na mesma tentativa de Anne se autodescobrir como mulher. Em meio a conversas sobre traição, situações indiscretas, arrependimento e uma leve sensação de melancolia em cada parte do filme, sobretudo quando Anne se posiciona diante do mar, Sang-soo Hong mostra que o ser humano está dividido não apenas em sua língua e na sensação de ser estrangeiro, mas em seus relacionamentos, traições, adultérios, e na busca por um sentido de explicação – a tentativa de Anne conversar com um monge (Kim Youngoak) está entre elas.

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Mas esta não é uma história definitivamente sobre os costumes nos relacionamentos ou impacto de um mundo estrangeiro na vida de um indivíduo, assim como não o era Encontros e desencontros, de Sofia Coppola. Ele lida mais com a subjetividade das escolhas, em situações diferentes, mas que se assemelham não apenas em razão dos personagens e das paisagens e sim pela rotina da qual se tenta escapar por meio da imaginação e da memória. Se as três histórias possuem facetas particulares, sabemos, ao final, que elas poderiam fazer parte unicamente de uma mesma história, e não por acaso a personagem principal delas é a mesma francesa, Anne. No diálogo com o roteiro da estudante de cinema, é ela que pode costurar a relação entre ficção e realidade. E, como personagem independente, ela pode inclusive tomar sua vida própria, sem dar mais explicações a quem quer que seja.
Sang-soo Hong contribui ainda para esta experiência com a bela fotografia de Hong-yeol Park e Yune-jeong Jee, mostrando, ao mesmo tempo, a alegria de um cenário modesto e a permanência dessas imagens na memória como um panorama oriental. A visitante francesa tem paisagens tão palpáveis quanto a de uma obra de Akira Kurosawa e, se não há o mesmo estilo e grandiosidade do mestre de Ran, sabemos que aqui as relações voltam a um plano de discussão próximo e um uso de cores atraente. Não parece, a princípio, boa parte do cinema atual: quase não há cortes, oferecendo agilidade ao filme, mesmo com suas repetições, quando muito alguns zooms, num clima de anos 70 (talvez Altman), e um certo ar precário em tudo, o que torna a experiência cinematográfica situada num lugar sem tempo e sem lugar definidos, auxiliando na recepção e na certeza de que A visitante francesa é uma pequena joia esquecida.

Da-reun na-ra-e-seo/In another country, Coreia do Sul, 2012 Diretor: Sang-soo Hong Elenco: Isabelle Huppert, Moon So-ri, Moon Sung-Keun, Yeo-jeong Yoon,Yoo Jun-sang, Kim Youngoak Roteiro: Sang-soo Hong Fotografia: Hong-yeol Park, Yune-jeong Jee Trilha Sonora: Yong-jin Jeong Produção: Kim Kyoung Hee Duração: 89 min. Distribuidora: Pandora Estúdio: Jeonwonsa Film

Cotação 4 estrelas e meia

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