Bastardos (2013)

Por André Dick

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Depois de assistir a Bastardos, pode-se ter a sensação essencial de que o cinema de Claire Denis é um dos mais complexos da atualidade. É difícil delimitar para onde ela está conduzindo o espectador, quando consegue colocar um enfileiramento de imagens a princípio desconexas, com idas e vindas no tempo, em busca de uma montagem implícita às ações e personagens enigmáticos, sem muito a falar. Nos anos 70, havia o cinema feito por Costa-Gavras com essa profusão de montagem, em Z, e tivemos Oliver Stone em seus melhores momentos de JFK fazendo o mesmo, mas não havia neles essencialmente algo encoberto ou soturno, sem possibilidade de vir à luz do dia. Há filmes de Claire Denis dificilmente suportáveis, mesmo com sua influência notória no cenário contemporâneo, a exemplo de Bom trabalho (com um Denis Lavant perambulando quase sem nenhum diálogo) e 35 doses de rum, mas nunca houve antes um filme dela tão centrado no gênero noir, mas de maneira própria, com algo (e não há nenhuma aproximação forçada aqui, mesmo com a admiração particular) de Twin Peaks – Fire walk with me e A estrada perdida, de David Lynch. Mas, se Lynch ainda é um entusiasta da imagem surreal, Claire Denis busca no realismo também dos cenários uma forma de traduzir os seus personagens, embora, como o criador de Twin Peaks, possua uma imagem hipnótica, quase onírica, e não é diferente neste Bastardos, cuja fotografia de Agnès Godard consegue traduzir a força do elenco e de cada situação encenada.
Em Bastardos, temos Marco Silvestri (Vincent Lindon, excelente), um capitão de navio que acaba voltando para a cidade a fim de amparar a sua irmã, Sandra (Julie Bataille). Ela acabou de ficar viúva de Jacques (Laurent Grévill), que se suicidou, e sua filha, Justine (Lola Créton), está hospitalizada, em razão de ter sido molestada sexualmente. Tudo indica que Jacques se suicidou em razão de negócios com Edouard Laporte (Michel Subor). Silvestri acaba se mudando para o apartamento ao lado de onde vive Laporte, com Raphaëlle (Chiara Mastroianni), e acaba por se envolver também com ela, buscando uma certa ideia familiar, pois ela ainda tem um filho, Joseph (Yann Antoine Bizette).

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Não sabemos muito bem desenhar o perfil de Silvestri, pois pouco nos é oferecido de seu passado e, ainda menos, de seus objetivos futuros. Mas pode-se notar, ao longo de toda a narrativa, que ele é um andarilho, sempre em busca de uma fuga da família ou de compreender o próprio arrependimento em querer sempre abandoná-la. Mais do que uma tentativa de descobrir o motivo da morte de Jacques, ele, a partir de determinado momento, parece se entregar não apenas aos desejos para reparar a vida financeira da irmã como também à sua amante, pela qual pretendia descobrir apenas o segredo para chegar a uma definição dos acontecimentos. Parece, então, a forma perfeita esta adotada por Denis em apresentá-lo, inserido em diversos fragmentos de filme, num diálogo sobre sua própria incapacidade de ordenar uma vida fora da sua profissão, por meio da montagem singular de Annette Dutertre. Neste sentido, sua chegada de volta não se constitui exatamente em períodos de ligação com os personagens do filme, mas de afastamento, como ele sempre adotou, é o que se percebe nas entrelinhas, em sua vida. Algumas sugestões são passadas ao espectador por meio de imagens solitárias (a exemplo de uma consulta dele na internet), no entanto o apartamento vazio que ele pretende alugar e não conseguirá preencher com pessoas é o elemento mais claro de ligação com seu traço psicológico.
Este é, sem dúvida, um personagem trágico, capaz de alcançar uma proporção ainda mais estranha à frente da direção de Claire Denis. Se no início não conseguimos definir muito bem por que uma jovem caminha nua pela rua ou por que estamos às voltas com questões psiquiátricas, logo percebemos que Denis não é como Soderbergh, em busca da saída fácil, da surpresa aparente em Terapia de risco. Trata-se de uma cineasta capaz de delinear seus personagens por meio do cenário. E os cenários são noturnos, encobrindo as ações dos personagens. Raphaëlle se mostra não uma femme fatale, apesar de algumas sequências dizerem o contrário, mas uma mãe de família confusa em permanecer ao lado do milionário ou de se entregar a um estranho. Por sua vez, Silvestri busca a estrada deserta, fazendo um trajeto irrecuperável, longe da personagem da personalidade, para este mesmo trajeto iluminar uma sequência mais adiante, a fim de conseguir chegar ao passado de sua sobrinha – e pode se deparar com um portão que pode dar em uma casa de campo, inocente apenas a princípio, como em um filme de Haneke. É nesta correspondência entre os caminhos que faz o personagem de Marco e o traçado anteriormente pela sobrinha aquele meandro capaz de interessar a Denis: esses personagens só se encontram na ausência um do outro; os cenários por onde um passa e o outro passou não deixam nenhum rastro a não ser aquele da busca desses personagens pela explicação moral.

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Denis contrapõe os cenários calmos e inocentes a um passado familiar de difícil definição, no qual segredos são escondidos e finalmente mostrados, mas dentro do devido tempo, a fim de compor um mosaico difícil e de permanente reavaliação, e se no início o personagem central parece anunciar uma espécie de dominação masculina sobre a figura de Raphaëlle e impermeável à chantagem emocional de Sandra, com o passar do tempo, e a confusão da narrativa apoiando isto, ele se mostra cada vez mais volúvel e inseguro. Suas cenas de atração por Raphaëlle se moldam à narrativa como um mistério a ser desvendado pelo espectador, assim como suas idas à clínica se mostram cada vez mais estranhas diante do que realmente está acontecendo ao seu redor. Do mesmo modo, personagens coadjuvantes, a exemplo de Dr. Béthanie (Alex Descas), parecem se perder numa teia de intrigas contra a sua própria vontade, tornando o mote de Bastardos ainda mais interessante e forçando o espectador a enfrentar cenários e sensações não tão agradáveis quanto parecia antes. A força deste filme de Claire Denis se concentra justamente na concisão alcançada em cada sequência e a maneira como a montagem se desenha, oscilando entre um passado não resolvido e um presente ambientado num vazio incapaz de prometer o futuro almejado por esses personagens. Se a narrativa de Bastardos pode parecer um tanto desesperançosa, Claire Denis dá mais uma vez resultados eficazes, ajudando a inovar um gênero cujas revelações costumam já ser sabidas de antemão. Seu filme é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao cinema noir e uma fuga dele, com outro elemento, aquele mais próximo ao silêncio a ser vivido ou não pelo personagem, mas com força o suficiente para ressoar.

Les salauds, FRA, 2013 Direção: Claire Denis Elenco: Vincent Lindon, Alex Descas, Chiara Mastroianni, Julie Bataille, Lola Créton, Michel Subor, Yann Antoine Bizette, Laurent Grévill, Christophe Miossec, Claire Tran, Elise Lhomeau, Eric Dupond-Moretti, Florence Loiret Caille, Grégoire Colin, Hélène Fillières, Michel Subor, Nicole Dogue, Sharunas Bartas Roteiro: Claire Denis, Jean-Pol Fargeau Fotografia: Agnès Godard Trilha Sonora: Stuart Staples Produção: Brahim Chioua, Laurence Clerc, Olivier Théry-Lapiney Duração: 100 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Alcatraz Film / Wild Bunch

Cotação 5 estrelas

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