Blue Jasmine (2013)

Por André Dick

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Depois de seus filmes demarcando um roteiro pela Europa, a exemplo de Vicky Cristina Barcelona e Para Roma com amor, Woody Allen regressa aos Estados Unidos com Blue Jasmine, que vem sendo recebido quase como Meia-noite em Paris, sobre a descoberta de Gil Pender do passado da Cidade Luz – pelo menos, estreou bem na temporada de premiações que antecedem o Globo de Ouro e o Oscar. Ainda comparado a suas produções dos anos 80 de Allen, Blue Jasmine começa por ser um equilíbrio entre duas vertentes do diretor: aquela mais dramática e uma mais cômica. Ele poucas vezes conseguiu mesclar essas vertentes com a perícia demonstrada em Hannah e suas irmãs e Maridos e esposas – não teve êxito em filmes como Memórias –, mas se esforça para obter o mesmo resultado em Blue Jasmine, por meio de um roteiro bastante superior ao que apresentou em Para Roma com amor, um filme divertido, mas de certo modo com um ar de acabado às pressas.
Tendo à frente do elenco, como a personagem principal, a atriz Cate Blanchett, Allen mostra mais uma vez ser um diretor de atores e atrizes. Poucos atores conseguem repetir sem a mão de Allen o mesmo vigor dramático. Cate Blanchett não é uma exceção. Apesar de ter realizado vários filmes desde Elisabeth, em que chamou a atenção pela primeira vez, Blanchett consegue, aqui, obter o desempenho de sua carreira até agora (embora não o melhor do ano). Ela consegue delinear, desde o início, uma personagem situada entre o ego e os problemas que surgiram depois que seu marido, Hal (Alec Baldwin), foi preso por problemas de desvios de dinheiro, relacionados a empresas. Desempregada e sem rumo, ela procura a irmã, Ginger (Sally Hawkins), com quem nunca teve um bom relacionamento. Ambas foram adotadas, e Jasmine vem a San Francisco para tentar se recuperar emocionalmente do baque que foi a perda de toda a riqueza em que vivia. Apontando os erros da irmã em matéria de relacionamento – Ginger namora Chili (Bobby Cannavale), que tenta empurrar um amigo seu a Jasmine –, ela não consegue se contentar com o novo ambiente, porque sempre considera que merece mais. A fim de ter uma formação, ela pensa novamente em estudar, desta vez como design de interiores. No entanto, precisa trabalhar, e o emprego que surge é com um dentista (Michael Sthulbarg). Esta é a primeira etapa da tentativa de Jasmine solucionar sua vida, e o espectador, ao mesmo tempo em que compartilha da atual situação da personagem, a conhece em sua vida anterior, rodeada de reuniões e a high society.

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Allen nunca desistiu de satirizar a alta sociedade, e em Blue Jasmine não é diferente. Para ele, mais do que uma pessoa perturbada emocionalmente, Jasmine se revela a síntese de uma mulher que busca no homem apenas uma realização material. No entanto, ele consegue desfocar essa situação de maneira inteligente. Em certos momentos, imaginamos que Jasmine quer apenas uma sustentação emocional por meio dessa riqueza buscada, quando, na verdade, ela pode ser menos do que um centro vazio ao redor do qual vagam os outros personagens. Sua irmã, Ginger, é uma espécie de complemento. Indefinida entre seguir com sua vida ou agradar à opinião de Jasmine, ela acaba se situando sempre deslocada. Por mais que essas personagens pareçam, à primeira vista, agradáveis – uma com manias estranhas, que acabam até divertindo, e a outra tentando remediá-las com alguma ajuda –, como no recente Frances Ha, Woody Allen prefere a amargura de suas caracterizações. Mesmo os homens que ele coloca no caminho dessas duas irmãs são completamente desprovidos de imaginação: eles apenas repetem convenções do que se espera. Há aquele que está convencido de ser genial, Hal (mais um personagem do tipo na carreira de Baldwin); aquele que deseja uma vida perfeita e com passos para uma ampla publicidade de imagem (Peter Sarsgaard); aquele que diz estar à espera da mulher perfeita (Louis C.K.); e, finalmente, o mais romântico e menosprezado pelo jeito de se vestir, Chili. Como as mulheres, aqui, Allen desenha os homens como estereótipos. Na maior parte do tempo, entretanto, ele consegue elaborar diálogos ligeiros o suficiente para que todos pareçam estar interagindo e, sem a presença do próprio Allen no elenco, nenhum chama atenção em demasia. Mas, quando finalmente percebemos que a agilidade narrativa, exemplar, não se reproduzirá numa elaboração de personagens, o filme acaba se desencontrando.

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É estranho como, ao longo de Blue Jasmine, as impressões sobre os personagens vão mudando: em certos momentos, a personagem parece requisitar uma compreensão, mas em outros parece que, para o espectador, ela poderia e deveria enfrentar o que Allen prepara em seu caminho. Talvez daí venha o principal desequilíbrio, ou qualidade, do filme de Allen: sua personagem central pode ser ouvida, mas não se deve dar, afinal, muito espaço para que isso aconteça, pois o que se terá é uma repetição de suas escolhas anteriores. Para isso, Blanchett tem um papel realmente decisivo, pois ela consegue transitar da insegurança, passando pela depressão e insegurança, até a raiva contida contra o que lhe fizeram passar. Estranhamente, no entanto, Allen não parece ter empatia por ela – ela não é, com certeza, o alter ego de Allen, como o foi Gil Pender, ou o dramaturgo de Tiros na Broadway – e talvez por isso o filme, principalmente em seu ato final, seja o que menos lembre um filme do diretor. Para Allen, esta figura feminina é uma espécie de exemplo da autopunição, e nem sempre esta visão segue o seu olhar ao longo da narrativa (daqui em diante, spoilers). Allen parece desapontar seu lado menos amargo quando escolhe o desfecho do filme. É como se a personagem não pudesse mais dar as respostas que ele obtinha, de certo modo, com outros personagens, ou realmente devesse ficar num presente irrecuperável, a fim de escolher outro caminho.
O que se sente, no entanto, é que o terceiro ato realmente não representa o filme como um todo, e nesse sentido Blue Jasmine acaba parecendo uma obra inacabada, embora Cate Blanchett ainda esteja lá. Não se trata exatamente da escolha do diretor, mas porque, ao longo do filme, Allen usa uma série de elementos para que o espectador consiga identificar as mudanças de comportamento e tom de Jasmine em relação às pessoas, dependendo de sua situação. Quando finalmente o espectador parece entendê-la, assim como sua manipulação, ele pede para que entendamos que tudo aquilo que foi visto na verdade só teve uma responsável, reduzindo-a novamente a uma pessoa desequilibrada, sem que se elabore o que veio antes de sua vida com Hal e depois para que se chegasse naquele ponto, sendo o comportamento dela apenas falho ou não suficientemente tratado. Nesse sentido, sua situação destoa do tom ameno, embora amargo, de todo o filme, tornando-se um estudo de caso frustrante. Allen parece não querer dar espaço a um tema pesado, tentando apegar-se ao desespero da personagem e à sua autodestruição para, enfim, reduzir todos os personagens a um ponto de interrogação e conscientes de uma vida que o diretor considera medíocre. Para ele, Jasmine é uma fonte de destruição e não se deve ouvi-la nem ampará-la. A atuação de Cate Blanchett nos diz o contrário do que entrega o diretor: embora ela queira falar, ele não permite. E o Allen com tom moralista, que torna os personagens apenas em símbolos do que gostaria de transmitir – aquele de Crimes e pecados, Memórias e Match Point – é, sem dúvida, o menos atrativo, extraindo toda a energia que poderia haver na estrutura do belo roteiro de Blue Jasmine.

Blue Jasmine, EUA, 2013 Diretor: Woody Allen Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins,Bobby Cannavale, Louis C.K., Richard Conti, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Tammy Blanchard, Vanessa Ross Roteiro: Woody Allen Fotografia: Javier Aguirresarobe  Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Duração: 98 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Perdido Productions

Cotação 3 estrelas

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