Frances Ha (2012)

Por André Dick

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Há filmes que se destacam sobretudo por causa de um ator ou de uma atriz e este certamente é o caso de Frances Ha. A atriz em questão é Greta Gerwig, coautora do roteiro e que interpreta a personagem principal. Na direção, temos Noah Baumbach, que fez um dos melhores filmes da década passada, A lula e a baleia, e colaborou no roteiro de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico sr. Raposo, de Wes Anderson. Com ingredientes que podem classificar Frances Ha como um filme de estética indie, parece que ele consegue atingir elementos que o colocam como uma síntese do cinema independente das últimas três décadas.
Se a fotografia em preto e branco de Sam Levy e o chapéu de Lev Shapiro, um dos rapazes com quem Frances divide o apartamento em determinado momento do filme, lembram, de forma insistente, mais do que a nouvelle vague, seus influenciados nos anos 80, Estranhos no paraíso e Daunbailó, de Jarmush, e a trilha sonora, com “Modern love”, de David Bowie, evoca tanto Sangue ruim (mais diretamente) quanto Boy meets girl, não se pode dizer que Frances Ha seja meramente um derivativo desses filmes. Como a obra de Baumbach mostra, trata-se principalmente de um personagem deslocado. Basicamente, Frances Halliday tenta ingressar no mundo da dança, em Nova York, e divide o apartamento do Brooklyn com uma amiga, Sophie Levee (Mickey Sumner), o que a faz ter dificuldades para aceitar ter uma vida própria com Dan (Michael Esper). A partir deste núcleo de relação e rompimento, a personagem se estrutura e o espectador é introduzido em seu universo.
Embora reconhecido como um filme leve, como poderia de fato ser, Frances Ha é, olhando mais de perto, uma obra autenticamente amarga, longe de qualquer solução aparentemente fácil, muito menos alegre, e é exatamente aí que reside seu interesse como retrato de um certo universo contemporâneo. Baumbach é um diretor bastante sutil – conseguiu tornar Ben Stiller num ator mais realista em Greenberg – e consegue traduzir o sentimento em que todos querem escapar para um universo em que podem criar sua realidade ou simplesmente não conseguem ingressar, de fato, no que se corresponde a uma vida adulta.

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Frances Ha

Em muitos momentos, Frances Ha poderia se transformar em O diário de Bridget Jones – uma autêntica comédia de estereótipos, embora com méritos –, mas escolhe ser uma espécie de encontro entre este universo dos anos 80, com uma estética realista e um tom certamente intelectual, tanto de Jarmursh quanto de Carax, com o descompromisso dos melhores momentos de Woody Allen e sua Nova York intelectualizada. No entanto, onde Allen é mais conciliador, e Carax e Jarmursh mais bem-humorados, Baumbach é mais seco e amargo, como já mostrava em A lula e a baleia. E, embora seja bastante programado dentro de sua estética, ele nunca cai no que Jarmursh faria em Trem mistério: autoelogiar-se numa metalinguagem cansativa.
Quando mostra Frances Ha transitando de um apartamento para outro, e tendo de lidar com dois jovens que não precisam bancar sua vida, Benji (Michael Zegen) e Lev Shapiro (Adam Driver), o primeiro com certa inclinação ao relacionamento, ou quando precisa lidar com a responsável pela companhia de dança, Colleen (Charlotte d’Amboise), Baumbach não permite liberdades à personagem. Poucas vezes, no cinema, foi visto um retrato tão discreto sobre a tentativa de uma personagem não envelhecer e não querer que os outros a vejam mais envelhecida do que é ou do que como se imagina – com um tom, muitas vezes, de descompromisso e mesmo de risadas francas (deve-se emoldurar a cena em que Frances conversa com Sophie e ambas imaginam como seria seu futuro, como se estivesse situada ainda numa infância longínqua ou num desejo contínuo de visualizar o futuro, e não o presente).
Do mesmo modo, é um personagem cujo universo está condicionado pelas expectativas ou por nenhuma expectativa, dependendo do ponto de vista, e o que o torna mais humano é justamente o conjunto de falhas que tenta esconder. Greta Gerwig faz movimentos que são mais difíceis do que aparentam e, embora o restante do elenco seja meramente um acesso às suas angústias, sem o peso existencial para diferenciá-la dos demais, temos certamente uma impressão de que o universo expansivo da modernidade pode também se restringir às mesmas tentativas de amizade consideradas antigas – e o “Modern love” de Bowie surge como, ao mesmo tempo, um retrato e uma crítica aos próprios personagens. Não se trata exatamente de uma homenagem de Baumbach aos anos 80, mas de mostrar como os personagens podem reproduzir um mesmo comportamento por várias décadas e uma mesma tradição musical. Para ele, é justamente esta tradição que congela a personagem de Frances em seus 27 anos, mas, de forma otimista, sempre tentando entendê-la e afastá-la de um tom de desesperança.

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Por isso, Baumbach filma Nova York também como um espaço de repetição, com seus roteiristas querendo escrever para o Saturday Night Live ou jovens milionários indo a clubes noturnos para a próxima conquista, assim como Paris pode não ser o lugar mais perfeito para solitários, mesmo com a luminosidade da Torre Eiffel e o passeio à beira do Rio Sena. O telefone e os computadores parecem encurtar a distância, mas aqui só acentuam o isolamento da personagem.
Em Frances Ha, todos esses possíveis estereótipos acabam sendo explorados do mesmo modo que tornam a figura central mais humana, com sua insegurança exposta. Baumbach consegue tornar uma narrativa rápida em fragmentos, como a visita que a personagem faz aos pais, com lances ágeis também em cada uma das passagens de sua vida. Com uma melancolia implícita, não existe condescendência, e a depressão de Frances é apresentada por meio de sequências descompromissadas, sem peso dramático. Não se analisa a situação em que ela se coloca como um problema, mas parte afetiva das descobertas necessárias e, desse modo, não se percebe nenhum esquema definido: os personagens estão, de certo modo, soltos, e Baumbach vai reunindo-os pouco a pouco, por meio de demonstrações diversas e de rara sensibilidade, fazendo de Frances Ha uma obra única e referencial.

Frances Ha, EUA, 2012 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Adam Driver, Charlotte d’Amboise, Christine Gerwig, Michael Zegen Roteiro: Greta Gerwig, Noah Baumbach Fotografia: Sam Levy Produção: Lila Yacoub, Noah Baumbach, Rodrigo Teixeira, Scott Rudin Duração: 86 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: RT Features.

Cotação 4 estrelas

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2 Comentários

  1. Yasmin

     /  28 de julho de 2014

    Tenho buscado entender os filmes contemporâneos como esse… muitos me trazem esse sentimento quase sufocante de personagens desconexos, porém tão verdadeiros… como Amelie Poulain…
    Sua crítica me mostrou que talvez eu esteja no caminho certo da interpretação dessas obras… acredito que é a tal “melancolia implícita” que me perturba…
    Tem uma coisa que não consigo entender: porque parece que esses personagens não tem momentos de reflexão sobre suas próprias vidas, sinto que as decisões são tomadas sem pensar, por impulso, estou certa?
    Porque esse tipo de filme é interessante para tantas pessoas? Com o que nos identificamos nesse tipo de abordagem? Será isso a emergência dos sintomas de uma sociedade que se sente perdida, sem perspectiva de futuro, princialmente os jovens adultos?
    Bom, posso responder isso, mas adoraria saber sua opinião 🙂
    Obrigada pelo seu tempo.

    Responder
    • André Dick

       /  29 de julho de 2014

      Prezada Yasmin,

      Agradeço por sua ótima mensagem, com apontamentos muito interessantes. Também considero que há uma melancolia implícita, tanto em “Frances Ha” quanto em “Amélie Poulain”: são duas personagens com certa dificuldade de alcançar a vida adulta e se prendem a questões da juventude ou da infância, embora isso se torne cada vez menos raro (vendo, por exemplo, os filmes de Wes Anderson). E, embora sejam diferentes – Frances parece uma personagem mais melancólica do que Amélie –, elas se encontram nesta questão que você aponta sobre o impulso. No entanto, acredito que elas têm momentos de reflexão, apenas não são mostrados da maneira como costumamos ver. Há uma urgência maior por causa da própria velocidade da vida moderna (como nas partes em que Frances vai à casa dos pais ou a Paris; ela viaja, mas ao mesmo tempo parece não sair do lugar; Amélie quer ajudar os vizinhos porque se sente importante). São personagens, de qualquer modo, em movimento, ou seja, com perspectiva. Frances quer ter sucesso com a dança e retomar a sua amizade, o que significa ter uma estabilidade que não encontra nos apartamentos onde vai morar; Amélie pretende encontrar uma pessoa para também ter sua própria felicidade, que ela primeiro quer oferecer aos outros.
      O interessante é que, se as personagens parecem agir mais por impulso, elas permitem uma certa reflexão mais otimista do espectador: Frances Ha e Amélie Poulain, mesmo com sua insegurança, querem segurança e sonhos concretizados. Por isso, é uma hipótese, a identificação que o espectador tem com as duas.
      Obrigado novamente por sua mensagem e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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