A caça (2012)

Por André Dick

A caça.Filme 5

Há uma espécie de indefinição no filme de Thomas Vinterberg, de A caça, que traz a oportunidade de apontar as falhas estruturais de narrativa e de lacunas de diálogos, transparentes para o espectador. Mas este não é um filme qualquer e, ainda que Vinterberg faça parte da geração do Dogma 95, destacando-se sobretudo ao lado de Lars von Trier, ele não depende de uma determinada visão cinematográfica, assim como, ao mesmo tempo, sobrevive a partir dela. Ou seja, A caça, de modo geral, é um drama humano, com alguns problemas narrativos, mas relativamente encobertos pela grande atuação de Mads Mikkelsen, ator que sempre teve problemas pela frieza que apresenta, não exatamente como o antológico vilão de 007 – Cassino Royale, mas por sua presença em O amante da rainha, sempre trazendo o filme para um plano não totalmente realizado, e que com Vinterberg consegue chegar a uma realização de destaque. Mads Mikkelsen é realmente quem oferece a este filme uma grandiosidade que ele talvez não tivesse com outro ator. O filme é dedicado à sua presença e dela se alimenta de maneira eficaz.
Como o professor Lucas, que trabalha num colégio de crianças, ele se mostra primeiramente uma figura bastante solitária, indo a pé da casa para o trabalho, numa pequena cidade dinamarquesa, observando o bosque onde ele e seus amigos têm a tradição de efetuar a caçada a cervos. Costuma se divertir brincando com os alunos nos intervalos e tem interesse em arranjar uma nova companheira, Nadja (Alexandra Rapaport), também para seu filho, Marcus (Lasse Fogelstrøm, ótimo), embora prefira sair e beber ou jogar com os amigos. No entanto, em determinado dia, ele sabe, por meio da diretora, que foi acusado por uma das alunas, Klara (Annika Wedderkopp, em excelente atuação), de ter abusado dela sexualmente. É o estopim para que não apenas a escola, como também a sociedade, passe a persegui-lo, como se fosse a caça, inclusive o pai de Klara, Theo (Thomas Bo Larsen), melhor amigo de Lucas. O espectador sabe o que realmente aconteceu, e passa, a partir daí, a ser testemunha de todo o caos que o gesto passa a causar em sua vida.

A caça.Filme 4

A caça.Filme 2

A caça.Filme 10

Vinterberg estabelece esta analogia já no primeiro plano, quando mostra as brincadeiras de Lucas e seus amigos pulando num lago gelado. Esta é uma sociedade reservada apenas aos que dela fazem parte, tradicionalmente e no sentido de se inserir em círculos familiares, de pais e mestres. Muito se comenta sobre a ausência de reação de Lucas com as acusações e as constantes agressões pelas quais precisa passar, mas parece que Vinterberg está analisando a presença de um homem na cidade à qual deseja pertencer, e que qualquer resposta pode ser entendida também como um motivo para que ele não possa ficar nela, ser expulso, o que seria seu desaparecimento definitivo. Por um lado, o personagem representa uma espécie de submsissão à tradição, e é a partir deste ponto que o filme não se torna apenas o retrato factual de uma situação terrível, mas ainda mais agonizante, com um afastamento do personagem de tudo e todos como se estivesse perseguindo uma chance de ao menos se manter vivo, como se tivesse sempre, a cada gesto, de pedir perdão por algo que, o espectador sabe, ele não cometeu.
Não existe, em A caça, uma situação evidente para os personagens, um ponto a partir do qual eles são bons ou maus. A própria sociedade que não reconhece uma palavra a Lucas, por considerar, se baseia no pressuposto de que, aqui, a inocência tem a palavra definitiva – mas Vinterberg filma essa inocência de maneira provocativa, pois Klara, a menina, tem uma espécie de simbolismo que remete a algumas crianças do filme de Haneke, A fita branca, mas com a diferença do peso do sentimento para ela ignorado, em razão do afastamento que tem da família e às voltas com seu irmão e vídeos eróticos. Ela não consegue solucionar ao certo o que fala e, quando vê o universo de Lucas implodindo à sua volta, tampouco. (Ainda assim, num lance de ousadia narrativa, Vinterberg deixa em aberto se ela havia inventado a história ou projetado algo que aconteceu com ela na figura do professor.) Klara também parece simbolizar a figura feminina deixada de lado num universo quase de aldeia, repleta de homens que se escondem de um possível encontro com possíveis namoradas em noites de bebedeiras ou caçadas a cervos, e a necessidade de atenção, resultando na deturpação.

A caça.Filme 6

A caça.Filme 7

A caça.Filme 9

Lucas, sem dúvida, é um personagem que precisa se manter como “a caça” a fim de que possa chegar ao motivo de entender a posição de uma, ou seja, ser perseguido sem uma razão definida – assim como os cervos que ele e seus amigos caçam. Em alguns momentos, isso não é tão efetivo, pois o espectador desconfia de sua imobilidade, mas, de certo modo, a paisagem gelada e o significado do Natal, com as famílias reunidas em torno de uma mesa e com as velas sendo vistas à distância, também corresponde ao comportamento dele. Vinterberg não foge ao fato de que a lição de moral ao final, que, é verdade, reduz um pouco o filme, lembra também a do universo imaginado pelo personagem de Laura Dern no final de Veludo azul, de David Lynch: há uma promessa de ingenuidade e de mundo idílico, nesta obra, que não se concretizam. Mas Vinterberg deseja fundamentar que a tradição é aquela pela qual o homem vive e morre: o momento derradeiro é profundamento humano e denso, não apenas pelo belíssimo desempenho de Mikkelsen, mas por sintetizar  a ideia de que nos colocando no lugar da violência a ser cometida ela pode simplesmente desaparecer.

Jagten, DIN, 2012 Diretor: Thomas Vinterberg Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Alexandra Rapaport, Annika Wedderkopp, Susse Wold, Lars Ranthe, Anne Louise Hassing Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm Fotografia: Charlotte Bruus Christensen  Trilha Sonora: Nikolaj Egelund Produção: Morten Kaufmann, Sisse Graum Jørgensen, Thomas Vinterberg  Duração: 115 min.  Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Film i Väst / Zentropa Entertainments

Cotação 4 estrelas e meia

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: