Sangue ruim (1986)

Por André Dick

Sangue ruim

Quase três décadas antes de realizar Holy Motors, um dos filmes mais cultuados dos últimos anos, com uma recepção indo na contramão de sua frieza, Leos Carax fez Sangue ruim, o segundo filme com Denis Lavant, seu ator preferido, logo depois de uma estreia de grande talento em Boy meets girls, contando também com sua parceira Juliette Binoche. Trata-se do mesmo casal que faria o filme seguinte, Os amantes da Pont-Neuf. O que existia de pretensão (brilhante) em Pont-Neuf, no entanto, é ainda plasticamente puro em Sangue ruim, como era antes em Boy meets girl, uma espécie de Estranhos no paraíso francês, com sua estética em preto e branco dialogando com o universo punk, com elementos de Jean-Luc Godard. Saber que Holy Motors tornou-se o filme mais conhecido de Carax, com sua derivação do David Lynch de Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, talvez seja uma injustiça para quem iniciou sua trajetória com essa trilogia de filmes praticamente irretocável, certamente a mais bela de um cineasta francês da década de 80 para cá.

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Em Sangue ruim, Alex (Denis Lavant) é um sujeito que namora Lise (Julie Delpy), indo com ela de motocicleta a um bosque estranhamente real, conservando uma luz fictícia. Certo dia, ele decide abandoná-la, entregando sua biblioteca para o amigo Thomas (Jerome Zucca), com o objetivo de trabalhar para Marc (Michel Piccoli) e Hans (Hans Meyer). Esses pretendem, depois de serem chantageados por uma mulher americana (Carroll Brooks), a roubar a vacina que traga a cura para uma doença, STBO, que está dizimando jovens que fazem amor sem ter um envolvimento emocional. Perito em mágicas, Alex substitui o pai, Jean, na empreitada, depois de ele ter se suicidado (ou ser morto), e acaba conhecendo Anna (Juliette Binoche) num metrô, como pista para o esconderijo onde deve encontrar Marc e Hans. Ela é casada com Marc e ele fica hospedado no mesmo lugar – uma mistura entre casa, loja (é possível alguém parar na vitrine da frente e observar quem está dentro) e apartamento, pois todos os lugares do filme são uma mescla entre passado e ficção científica, como na sequência em que eles andam de carro, remetendo a Holy Motors.
A trama escassa do filme é revertida por Carax numa espécie de descoberta do amor, em meio a uma fotografia e atmosfera noir, que deixa a estreia dos Coen, em Gosto de sangue, consideravelmente para trás, mesclada com toques de ficção científica e registros que seriam intensificados não apenas em Pont-Neuf, mas em Pola X. Existe uma sensibilidade rara aqui, uma espécie de tristeza melancólica, com Denis Lavant tendo uma atuação não menos que primorosa, assim como Binoche, mostrando já no início de carreira um talento singular. São verdadeiramente belos os momentos em que Alex quer declarar seu amor à Anna, o que inicia com um salto de paraquedas, em que o vermelho do figurino se mescla com o céu azul, com um verde luminoso – as cores principais do filme, que se reproduzem em objetos –, ou aquela sequência antológica (reprisada pela personagem central do recente Frances Ha) em que Alex sai correndo pela rua, seguido pela câmera, ao som de “Modern love”, de David Bowie, com a expectativa de estar vivendo um novo amor, enquanto Lise, a antiga namorada, o persegue, querendo saber de seu paradeiro. A analogia entre um bebê correndo, na rua, para os braços da mãe, em frente ao hotel onde Anna se hospeda, e Alex redescobrindo o amor escapa da tentativa de Carax ser hermético em suas analogias, ao registrar mais uma mescla com o cinema mudo, circense, de Chaplin, como já havia em Boy meets girls, também nos instantes em que Alex faz mágicas para Anna, enquanto não quer que ela vá ao encontro de Marc.

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Desde sua estreia, Carax faz registros sobre o amor impossível, e não por acaso Denis Lavant seja o ator escolhido para a empreitada: seu comportamento ao longo dos filmes de Carax fica entre o enigmático e o indefinido entre ser alegre ou triste. Normalmente, seus personagens estão querendo convencer a amada a acompanhá-lo, mas ele sempre se mostra impossibilitado para chegar ao limite, como se a amada, enfim, tivesse relutância em aceitá-lo, de qualquer modo. Como em Boy meets girl, há o momento em que os personagens decidem conversar e se envolvem, mesmo tendo de manter a distância. E os toques de ficção científica não se reproduzem apenas na maneira como Carax filma a americana e os demais personagens – com uma claridade disforme, cercada pela escuridão –, como também pelo modo como se registra a noite de Paris, uma noite isolada do mundo. Os personagens, à noite, não podem pisar o chão da rua, em razão de ser excessivamente quente, por causa, segundo eles, da passagem do cometa Halley (que aconteceu justamente em 1986, ano do filme).
Com esse cruzamento de gêneros, há um sentimento palpável nesta obra de Carax, como em sua estreia e em Pont-Neuf, não meramente metalinguística, como passaria a desenhar em Holy Motors, voltada a uma homenagem ao mundo do cinema e da atuação. Em Sangue ruim, a homenagem ao cinema é mais subjetiva e se desenha por meio dos personagens e de suas ações – como as mágicas de Alex remetendo ao cinema mudo –, preservando um romantismo ingênuo, mesclado ao passado e ao mesmo tempo contemporâneo, com uma vertente moderna (o título do filme é o mesmo de um poema de Uma temporada no inferno, de Arthur Rimbaud). Carax se mostra um cineasta capaz de revitalizar a linguagem que ele mesmo reaproveita, por meio de uma sucessão de imagens e ritmos antológicos.

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É um filme que deslumbra não apenas pelo cuidado estético e das atuações de Lavant e Binoche, mas pela concepção que traz de esquecimento e recordação num curto espaço de tempo da vida desses personagens. Se há uma diferença entre Sangue ruim e Holy Motors é a maneira como ele captava os personagens, com uma admiração original. A surpresa e a dor que ele consegue captar conseguem sempre tornar os personagens não exatamente em exemplos de clareza ou acessibilidade, mas Anna não é apenas a personagem do filme, mas sua musa, e Juliette Binoche só seria captada da mesma maneira que aqui em Cópia fiel, por Kiarostami, assim como Delpy, embora apareça menos, parece compor um registro nostálgico. É a sensibilidade do talento de Binoche e Delpy, em início de carreira, mesclada com a de Lavant, à frente de um Carax inovador, que torna Sangue ruim um grande filme.

Mauvais sang, FRA, 1986 Diretor: Leos Carax Elenco: Denis Lavant, Juliette Binoche,  Julie Delpy, Michel Piccoli, Carroll Brooks, Hans Meyer Roteiro: Leos Carax Fotografia: Jean-Yves Escoffier Trilha Sonora: Sergei Prokofiev Produção: Alain Dahan, Philippe Diaz, Denis Chateau Duração: 116 min. Distribuição: AAA Classics

Cotação 5 estrelas

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