O enigma de outro mundo (1982)

Por André Dick

O enigma do outro mundo

Apesar de ser associado ao terror e ao suspense, em razão de ter criado a série Halloween, John Carpenter sempre conseguiu transitar pelo universo da cultura pop, em que entregou obras muito divertidas, como Fuga de Nova York, Starman – O homem das estrelas e Os aventureiros do bairro proibido, ao lado de outras plenamente enfadonhas, como Eles vivem e Memórias de um homem invisível (com Chevy Chase). Mesmo filmes como Vampiros e Fantasmas de Marte, além das adaptações de Stephen King (A bruma assassina e Christine), têm elementos mais da cultura pop do que exatamente do gênero pelo qual ficou conhecido. Mas um filme em que consegue contrabalançar esses dois elementos – as vísceras e os sustos e referências a filmes antológicos de monstros – é O enigma de outro mundo, que, quando lançado, foi visto, de forma apressada, como uma diluição de Alien.
Enquanto o filme de Ridley Scott tinha um visual mais elaborado, Carpenter registra um filme visualmente mais cru e precário. No entanto, onde Scott coloca luzes de videoclipe para desnortear os passos de Ripley pela Nostromo, Carpenter coloca tochas de iluminação e o aviso de “Salvem-se quem puder”. Sua claustrofobia num determinado ambiente foi, sem dúvida, uma referência para o restante da série Alien (nos episódios de James Cameron e David Fincher).
O enigma de outro mundo é uma sucessão de elementos que hoje vemos como previsíveis, mas que, de algum modo, ajudaram a fundamentar o gênero de seres humanos isolados por um mistério e, principalmente, por uma criatura. Baseado em romance “Who Goes There?”, de John W. Campbell, Jr, e refilmagem de uma obra de Hawks, O monstro do Ártico (1951), Carpenter coloca como personagem principal R.J. MacReady (Kurt Russell, em determinado período o seu ator predileto) e uma trilha sonora com sintetizadores pré-Os intocáveis de Ennio Morricone. Mesmo o cenário parece gelado de pavor pelo que está porvir (daqui em diante, possíveis spoilers).

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Estamos numa estação da Antártica, quando aparece um cão esquimó perseguido por um helicóptero, com vários estrangeiros, que tentam matá-lo. No entanto, um deles é que acaba sendo morto por Garry (Donald Moffat), responsável pela estação. Em razão de um acidente, isso não dá certo, e Copper (Richard Dysart) e o piloto de helicóptero MacReady vão investigar a estação de onde veio o helicóptero. Trata-se de uma base norueguesa, que acabou descobrindo a existência de uma nave alienígena (o filme inicia mostrando-a em direção à Terra) e de uma criatura nela, disforme,  que levam para examinar, por meio do biólogo, Blair (Wilford Brimley). Enquanto isso, o cão se abriga na estação, escondendo-se por trás de portas e avançando contra corredores. Já sabemos que a partir daí nada dará muito certo. Trancado num canil, um monstro que hibernava dentro do cão acaba por sair, colocando todos em estado de terror. MacReady passa a desconfiar de quem está a seu lado, pois parece que a criatura, ao mesmo tempo, age como um vírus, dominando o corpo humano.
Enquanto cada personagem vai diminuindo frente às câmeras, atormentado pela situação, Carpenter joga os mais variados efeitos especiais e maquiagem de Rob Bottin, com uma crueza que deixa os personagens em alerta para o que ainda pode acontecer. Quanta diferença entre O enigma de outro mundo, até então uma refilmagem tentando aproveitar o momento Alien, e suas diluições, inclusive sua prequela, de 2011, em que não vemos absolutamente nenhum traço do suspense trazido pelo diretor – pelo contrário, é uma decepção como remake e como filme independente. É nisso, talvez, que Carpenter mais se destaca: o quanto sua obra consegue, com  poucos elementos e cenários simples, apesar de convincentes, demarcando a separação daqueles personagens de um possível escapa, criar uma certa tensão entre integrantes de um projeto. Isso acontece de modo terrível quando Fuchs (Joel Polis), assistente de Blair, avisa que o vírus do alienígena pode destruir a população da Terra. No entanto, mesmo com este aviso, nenhum deles pensa em se organizar para que possam confrontar a ameaça, e, neste sentido, se expõem aos riscos, não andam em conjunto, nem tentam se chegar a uma definição do que devem fazer.

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Talvez, mais do que um filme de horror, ele deseja mostrar o pânico da convivência quando todos são colocados numa situação-limite, e isso tanto os atores conseguem demonstrar da melhor forma como a trilha minimalista de Morricone (acompanhando os caminhos das próprias trilhas de Carpenter para Halloween, mas com seu estilo bastante particular). A própria dignidade e respeito pelo alheio passa a ser atenuado, a fim de que se estabeleça o limite da sobrevivência, e o corpo humano, antes investigado em minúcias, passa a ser apenas o símbolo do medo, sendo encoberto por nevascas, tratores e helicópteros em chamas. A própria criatura vai reunindo as metamorfoses pelos quais vai passando (o que pode ter inspirado a segunda parte de O exterminador do futuro), e Carpenter deseja mostrar que os indivíduos do lugar não estão muito longe desta metamorfose – indefinidos entre ser humanos ou meramente desumanos. O enigma de outro mundo também oferece um diálogo para o que acontecia nos anos 80 nos Estados Unidos, com a Guerra Fria, a ameaça sempre externa, além da desconfiança de alguém (o que já acontecia na primeira versão dos anos 1950). Logo no início, temos a consciência de que a estação se encontra improdutiva e nada nela adquire uma relevância experimental; a civilização foi abandonada há tempos ali.
O personagem de MacReady não é exatamente um herói, mesmo porque ele não consegue enfrentar o que é desconhecido, e sua tentativa, entre tochas acesas e colheita de sangue, é apenas resguardar o que o biólogo disse como possibilidade.
Carpenter não deseja apenas mostrar esta tensão, mas também a loucura do ambiente depois da chegada do monstro. Se todos passam a desconfiar de todos, a criatura permanece um enigma à parte. Não se trata exatamente de um filme disposto a delinear os personagens, e sim a configurar uma situação que pode levar cada um ao limite. Mas, de qualquer modo, é interessante como a figura de MacReady começa, aos poucos, a lembrar a de um homem das cavernas, que precisa reorganizar tudo à sua volta para tentar impedir o alastramento do alien pela Terra, a partir da Antártica e do que lembra um ponto de origem da civilização. Certamente, é uma sutileza que não escapa a John Carpenter, cujo manifesto cinematográfico de terror é muito próximo de um entendimento sobre o mistério da humanidade.

The thing, EUA, 1982 Diretor: John Carpenter Elenco: Kurt Russell, Wilford Brimley, Richard Dysart, Keith David, Donald Moffat, Charles Hallahan Roteiro: Bill Lancaster Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: Ennio Morricone  Produção: David Foster Lawrence Turman, Wilbur Stark, Stuart Cohen Duração: 108 min. Distribuidora: Universal

Cotação 4 estrelas

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