O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001)

Por André Dick

Amélie Poulain 11

Com um visual que lembra o de um filme publicitário, em razão de suas imagens, com cores distribuídas como um espelho visual para vendas, O fabuloso destino de Amélie Poulain é uma das homenagens mais interessantes ao mundo do cinema e da descoberta, injustiçada na época do Oscar (foi indicado em cinco categorias, sem receber nenhum, mesmo com a campanha da Miramax dos Weinstein, ou talvez por causa dela). A personagem central, Amélie (a ótima Audrey Tautou) é uma jovem solitária, e o filme conta, por meio da narração de André Dussollier, desde a infância o motivo de ela ser assim: primeiro, os possíveis problemas cardíacos, nunca exatamente comprovados, nem pelo pai médico, mais ligados à emoção dela (e Jeunet faz com que vejamos o seu coração latejando), numa espécie de Meu tio da América do início do século (daqui em diante, possíveis spoilers).
Numa das tentativas de apanhar um rato em sua casa, acaba descobrindo uma caixa com várias relíquias do passado, motivando-se a encontrar seu dono, o melancólico Dominique Bretodeau (Maurice Bénichou). Para isso, Amélie utiliza sua imaginação e conta com a ajuda de um vizinho pintor, Raymond Dufayel (Serge Merlin), inventando cartas para a possível volta de um determinado vizinho que não aparece há mais de quarenta anos. Ao mesmo tempo, provoca um vizinho que causa mal-estar. Enquanto isso, seu pai, Raphaël (Rufus) espera um motivo para viajar, Amélie pega o anão de seu jardim e o fotografa com a imagem de várias localidades famosas pelo mundo, enviando-as para o pai, tudo em meio à morte da Princesa Diana, em 1997 e caminhadas pelo Canal Saint-Martin, em que Amélie visualiza casais. O mundo dela é atraído para um mundo da fantasia: ela deseja não se considerar uma princesa do mundo real, mas sua meta é tentar estabelecer contato com quem está à sua volta e se tornar conhecida.

Amélie Poulain 8

Amélie Poulain 10

Amélie Poulain 9

Se trabalha num café, como garçonete do Café des 2 Moulins, em Montmartre, sempre com a presença de figuras estranhas e bizarras, típicas do universo do filme e do diretor Jeunet, inclusive o interesse que existe entre Georgette (Isabelle Nanty), sua colega, hipocondríaca, e Joseph (Dominique Pinon), com ciúmes constantes  – e o café tem as cores elaboradas como o restante do filme, lembrando a paisagem de Paris, apesar de seus personagens não corresponderem, algumas vezes, ao cuidado do ambiente –, Amélie também quer fazer com que se aproximem.
O roteiro de Jeunet com Guillaume Laurant é simples na medida exata, contribuindo para que se trabalhe mais visualmente as imagens, com seus neons sugestivos e, em meio a eles, não por acaso a personagem vem a se apaixonar por um homem, que imagina trabalhar numa loja de revelação fotográfica, Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz), mas na verdade tem outro trabalho possivelmente menos idealizado por Amélie. Num universo voltado exclusivamente para a imagem e para a imaginação que circula em torno dela, Amélie está plenamente caracterizada, ao montar imagens a partir de pedaços de fotos 3×4 ou se deixar fotografar com o uniforme de Zorro para oferecer pistas de quem pode ser. Querer viver o que culturalmente é entendido como amor (a exemplo dos personagens de Meu tio da América) é o motivo para a personagem mudar sua rotina e o diretor acaba por mudar também a do espectador – como o abajur em forma de suíno que conversa com Amélie e o universo que ela constrói ao redor, que parece viver num mundo de brinquedos e bonecos, aproximando o cenário de uma fábula infantojuvenil (e não há dúvida de que Wes Anderson também bebeu daqui em filmes como Moonrise Kingdom).
Cada enquadramento de Bruno Delbonnel (que recentemente fez a fotografia excepcional de Sombras da noite) é memorável pois lembra uma pintura – o roteiro tem suas referências a Renoir –, e sua influência é visível em filmes recentes, como A invenção de Hugo Cabret. Há, inclusive, uma cena de cinema que também remete à do filme de Scorsese, em que Hugo e a neta de Mèliés entram na sala sem passar pela bilheteria.

Amélie Poulain 12

Amélie Poulain 15

Amélie Poulain 14

Com esses enquadramentos notáveis, todos os elementos de um interesse amoroso entre Amélie e Nino – em certa medida previsíveis – acabam fugindo do lugar-comum, constituindo-se por meio de objetos e lugares: a cabeceira do quarto, as fotografias do céu, com as nuvens formando animais, a personagem no cinema, as cores na floricultura.
Não parece que o diretor desta obra é o mesmo Jean-Pierre Jeunet que dirigiu Alien – A ressurreição, um filme com visual extraordinário, mas precário em sua maneira de retratar a saga de Ellen Ripley. Amélie Poulain é o contrário em tudo: de sua sensibilidade até sua leveza, trata-se de um filme que possui uma espécie de ritmo de épico do cotidiano, com a montagem que remete tanto à velocidade de um certo universo de vendas (sobretudo quando se pronuncia a narração, não estranharíamos se Amélie apontasse produtos para a tela), mas também à calma dos filmes europeus mais contemplativos. Tudo acontece em torno de Amélie, sem que ela deseje ou preveja, e é justamente esta despretensão que acaba articulando a história e amarrando as pontas eventualmente soltas. Toda a discussão que existiu em torno do filme na época de seu lançamento, tornando-o numa espécie de cult instantâneo, parece tê-lo prejudicado num primeiro momento, mas, mais de uma década depois, é difícil perceber envelhecimento na sua proposta.
A realização de Jeunet é muito eficaz e oportuna. A personagem de Amélie, mesmo com toda a sua ingenuidade, conservando pontos esquecidos da infância, sonha por meio dos sonhos alheios, exatamente a quando vai ao cinema ou assiste à televisão – não por acaso, ela assiste a um filme em que um personagem diz que ela tem o direito de se fugir da realidade. Nesta inter-relação entre ela e o cinema, ela e os sonhos alheios, estrutura-se a narrativa incomum, que aplica nas cenas de velocidade – em uma moto – o que não havia aplicado na estagnação, por exemplo, dos personagens na cafeteria; afinal, é preciso, como Amélie, sair do lugar, nem que seja por meio da fotografia ou de animais nas nuvens. O que se percebe é que, para Jeunet, Amélie desencadeia uma vida de joias lapidares justamente quando acha ter perdido um ponto de referência da realidade e quando descobre algo escondido que pode levar de volta ao universo que finge desconhecer. É por meio desse deslocamento proporcionado pelo imaginário, como a descoberta de uma caixa no início do filme, que ela vive e Jeunet faz uma obra contemporânea com aspecto já clássico.

Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, FRA, 2001 Diretor: Jean-Pierre Jeunet Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Yolande Moreau, Artus de Penguern, Urbain Cancelier, Dominique Pinon, Maurice Bénichou Produção: Jean-Marc Deschamps, Claudie Ossard Roteiro: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Yann Tiersen Duração: 120 min.  Distribuidora: Não definida

Cotação 4 estrelas e meia

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

2 Comentários

  1. Melkides

     /  13 de outubro de 2013

    Fantástica a crítica, parabéns! Você conseguiu por em palavras tudo que sentimos ao assistir o filme.

    Responder
    • Prezado Melkides,

      agradeço por seu comentário! Fico feliz que tenha apreciado a crítica sobre este ótimo filme, que a cada ano parece ficar melhor.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: