Elysium (2013)

Por André Dick

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Em 2009, Neill Blomkamp surpreendeu o público com sua ficção científica Distrito 9, indicada ao Oscar de melhor filme, e passou a ser visto como uma das promessas entre os novos diretores. Desta vez, com um orçamento maior e a presença de Matt Damon à frente do elenco, Blomkamp regressa com Elysium, um filme que aposta, como sua estreia, num cenário que mescla os elementos de ficção científica com favelas e exploração de seres humanos. Eles vivem numa Terra combalida, em 2154, que tem no espaço a presença de Elysium, uma estação espacial com mansões e uma vegetação tropical, almejada sobretudo porque conta com um suporte tecnológico que não permite seus moradores terem qualquer tipo de doença. A estação tem à sua frente de defesa Jessica Delacourt (Jodie Foster), desinteressada em conversar com um grupo de rebeldes que pretende conquistar o direito de ter um domínio sobre o planeta e cujo direcionamento bélico desagrada ao seu superior, Presidente Patel (Faran Tahir).
Damon interpreta Max Da Costa, um ex-presidiário que trabalha na Armadyne Corp, responsável pela construção de Elysium, dirigida por John Carlyle (William Fichtner), e que em determinado dia recebe uma carga de radiotividade capaz de levá-lo à morte. Com a ajuda de um amigo, Julio (Diego Luna), para que consiga se curar, ele precisa ter a chance de embarcar para Elysium. Mas só pode fazer isso se prestar um serviço quase como um semirrobô a Spider (Wagner Moura), o líder de um grupo rebelde que pretende conquistar a estação. Ainda ligado a uma enfermeira, Frey (Alice Braga), mãe de Matilda (Emma Tremblay), Max precisa fazer o máximo para que possa receber a recompensa. Há elementos de alguns filmes na narrativa de Elysium, mas isso não incomoda devido à apresentação inicial do filme, como se conseguisse, a partir dela, expandir seu universo, sem confundi-lo com as lembranças de Oblivion. Há elementos de Mad Max (sobretudo o segundo filme), Robocop e Eles vivem (de John Carpenter), mas devidamente filtrados, e Blomkamp tem uma certa inclinação para a imagem menos condescente, no que se assemelha a David Cronenberg (não por acaso, Distrito 9 é uma extensão, em alguns momentos, de A mosca), sendo aqui o principal diálogo eXistenZ, o subestimado filme com Jude Law, e A cidade da esperança, de Roland Joffé (sobre um jovem médico americano que se defronta com a miséria na Índia).

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Blomkamp tem um talento sólido em filmar cenas de ação e, embora lhe falte a coerência de Verhoeven de Robocop e O vingador do futuro, com quem tenta dialogar nas cenas de ação e explosões, nunca deixa de apresentar esta ação com uma intensidade que parece crível – e os melhores momentos de Elysium se baseiam nesta apresentação, assim como o foi em Distrito 9, menos em sua discussão política e sobre os problemas de acesso à saúde, ou quem deve recebê-la, que se apresenta até mesmo escassa e um pouco apressada. No entanto, Blomkamp tem uma certa proximidade sentimental de seus personagens, o que não consegue outros diretores de sua geração, a exemplo de Joseph Kosinski. Max e Frey são figuras com quem o espectador se importa, e Spider consegue transparecer uma determinada ambiguidade importante para o prosseguimento da narrativa. O sofrimento imposto ao personagem de Max, embora de curta duração, cria um certo impacto, mostrando uma agilidade semelhante ao que víamos em Distrito 9, e suas reações não lembram a princípio a de um herói, ou seja, seu desespero diante da situação em que se encontra é evidente.
Por outro lado, Elysium é o tipo de ficção científica que quanto mais parece crescer mais vai ficando desinteressante. Sua melhor trajetória se encontra quando privilegia os personagens, as relações que podem existir potencialmente com eles. Não se trata, em nenhum momento, de ser descartável; pelo contrário: sua concepção visual é realmente atrativa e os efeitos especiais, junto com o trabalho considerável de efeitos sonoros, transporta o espectador para um outro universo, mas ele declina muito cedo de trabalhar o personagem de Max, pois Damon o joga muito bem, trabalhando nuances inicialmente, com sua habitual capacidade para personagens diferentes (capaz de passar de O desinformante para Bravura indômita), mas perdendo parte do interesse a partir da metade. A presença de Wagner Moura como Spider também fornece ao filme um vigor que escapa às vezes dentro dessa concepção visual. Moura é um ator que já se mostrou extraordinário em alguns filmes, e aqui ele tenta compor um personagem diferente do habitual, inclusive com um tom de voz peculiar. Sai-se de maneira equilibrada e destacada, chamando mais atenção do que Damon e Alice Braga. Uma surpreendente vilã feita por Foster acaba não recebendo muitas linhas de diálogo e perde-se com sua ausência, mas uma atriz como ela acaba sempre chamando a atenção quando está em cena, mesmo que se possa dizer que ela está até mesmo caricata, como se adotou como lógica para sua participação no filme.

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A sua personagem é assessorada por Kruger (Sharlto Copley), uma espécie de braço direito para os serviços mais complicados contra a aliança rebelde de Elysium. Este personagem parece saído de alguma ficção científica de estilo B, com a qual Elysium certamente se assemelha em alguns momentos, sobretudo pela despretensão, e consegue ser um bom oponente aos homens que lutam pela liberdade de poder utilizarem a estação espacial. O roteiro consegue definir um terceiro ato pouco cansativo, devido à montagem acelerada de Julian Clarke e Lee Smith, embora seu clímax tenha o mesmo problema de blockbusters recentes: parece que se quer encerrar o filme para que não pareça longo demais, o que prejudica o próprio entendimento de toda a ação que antecipou o ato derradeiro. Os temas que haviam por trás do roteiro acabam ficando em segundo plano, e espera-se apenas uma solução para as subtramas. Ainda assim, Elysium é realizado com competência, com um senso de direção de arte importante para uma ficção científica e não deixa sua narrativa às vezes não tão trabalhada se transformar num impecilho, muito em razão de Blomkamp e do elenco.

Elysium, EUA, 2013 Diretor: Neill Blomkamp Elenco: Matt Damon, Alice Braga, Jodie Foster, Sharlto Copley, Wagner Moura, William Fichtner, Faran Tahir, Diego Luna Produção: Simon Kinberg Roteiro: Neill Blomkamp Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Ryan Amon Duração: 109 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Media Rights Capital / QED International / Sony Pictures Entertainment

Cotação 3 estrelas

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