Caminho para o nada (2010)

Por André Dick

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Um filme se abre dentro de um laptop, com a longa sequência de uma jovem com o secador elétrico ligado no quarto de uma casa. Do lado de fora, chega alguém de carro. Ouve-se um tiro e ela sai pela estrada até entrar num túnel, ficando nele por alguns minutos, até se dirigir, novamente de carro, para a frente de um lago. A situação pode ser exatamente o contrário daquilo que aparenta. Em seguida, jovens em frente aos computadores tentam selecionar uma estrela para o seu filme. Eles conseguirão realizar, desta vez, sua obra-prima? Tudo isso pode ser um policial, um drama, um suspense, um exercício cansativo de metalinguagem e pode ser um filme de Monte Hellman.
Com referências a Robert Altman, sobretudo a O jogador, e ao tratamento que concedia aos roteiristas, e a David Lynch, que criou o gênero do carro numa estrada deserta, Caminho para o nada também pode ser o contrário do que antecipa seu título. Esta estrada para lugar algum, quase perdida, como em Lynch, é também a dos sonhos relacionados ao cinema e às atuações. Entre DiCaprio e Scarlett Johansson, nada atrai mais o diretor Mitchell Haven (Tygh Runyan) do que Laurel Graham (Shannyn Sossamon). Ele deseja a atriz amadora, que fez apenas um filme de terror juvenil, para seu próximo projeto, que tratará de Velma Duran, uma mulher que teria forjado seu desaparecimento junto com o ricaço Rafe Tachen e ido embora do país, e com quem Laurel se parece.

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Após uma entrevista para a Rolling Stone, num desses cenários montanhosos de Hollywood, e ainda surpreendido com o encanto de sua estrela, com quem atravessou Roma, Mitchell é ainda uma caricatura do diretor Hellman (veja sua entrevista à Slant): “90% do papel do diretor é escolher o elenco”. Hellman parece, no início, lançar esta metalinguagem contra a tela. Os atores não convencem; pelo contrário, citam frases pretensamente artísticas e desgastadas, a fim de tentar convencer sobre a própria genialidade, mas esta não existe. A equipe de filmagem se dirige para a cidade em que a história aconteceu e onde será filmada a trama. Lá, eles se deparam com Bruno Brotherton (Waylon Payne), escolhido como ajudante das filmagens, e Nathalie Post (Dominique Swain), que escreve um blog sobre o caso real de Velma e Rafe Tachen (interpretado no filme dentro do filme por Cliff De Young na pele de Cary Stewart) e se comporta como outra personagem de Swain, a Lolita de Adrian Lyne. Ambos estão desconfiados do interesse claro do diretor por sua estrela principal, e a partir de conversas em bares e em quartos, diante de obras-primas passando na madrugada pela televisão, o clima noir se sustenta sobre o próprio filme, assim como lances de canastrice de alguns personagens e atores que lembram um filme B.
À medida, no entanto, que Hellman funde as filmagens com a história real, mas dentro também de um filme (o que assistimos), já estamos em seu próprio sonho, aquele que Mitch diz buscar em outros diretores. Será lançada uma obra-prima ou mais um “pedaço de merda” de Hollywood? Bruno, na verdade, é um controlador de seguros que pretende descobrir a fraude que houve com o casal desaparecido que o diretor do filme procura retratar. Ao mesmo tempo, acontecem reuniões e discussões de dinheiro para o filme e sua produção, não se esperando que o orçamento passe do limite – pelo menos não para Bruno e sua perturbação, capaz de ver Velma onde existe Laura.
A obsessão do diretor por sua estrela começa a ficar plausível à medida que Hellman os insere em situações não apenas referentes a outros filmes (como o ensaio que sintetiza Cidade dos sonhos, com Naomi Watts tendo de se envolver emocionalmente com seu parceiro de cena), mas a cenários encobertos pela noite, como o do hotel em que está a equipe de filmagem, com seu horizonte ao fundo contrastando com as luzes acesas de cada quarto, compondo não apenas outra referência lynchiana, a Twin Peaks, como também a pinturas de Hopper. A noite e o dia se fundem em Caminho para o nada, assim como as equipes de filmagem se alternam dentro da realidade dentro de um sonho fora do sonho dentro da realidade. Temos, em meio a isso, diálogos de Haven com seu roteirista Steve Gales (Robert Kolar), brigando pela presença ou não de alguns atores no filme, em razão da preferência dada a Velma em todas as tomadas, com suas referências a Altman (e sua insistência, por exemplo, em Shelley Duvall para viver Olívia Palito, em Popeye, posicionando-se contra o estúdio) e ao personagem de Tim Robbins em O jogador.

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Caminho para o nada é forte como as canções de Tom Russell, que abrem e fecham o filme. No entanto, é Shannyn Sossamon, na pele da atriz que não se considera atriz e se envolve com o cineasta como se quisesse se envolver também com o cinema e seus sonhos, não sendo tão especial para tanto, que concede a esta obra de Hellman um olhar perdido e contundente sobre as ações demonstradas. Os personagens, na verdade, indefinidos entre o real dentro do sonho e o sonho dentro do real não querem ser desvendados, continuando como símbolos e protótipos de um panorama muito mais ameaçador. Obcecada pelo personagem de Velma, que representa, Laurel interfere no roteiro, pede para que sejam feitas novas tomadas, pois deseja fazer parte da obra-prima do diretor. Este, dominado pela imagem cinematográfica de Velma, mas também pela história real e misteriosa de Laurel, não consegue mais discernir nenhuma das duas. Para ele, os elementos da história começam a fazer parte do mesmo set de filmagem. Ele filma quem está sendo filmado. Antes de uma cena decisiva, assiste-se, na TV, O sétimo selo, de Bergman. Ele anuncia, como antes, alguém à espreita na porta?
Mesmo as locações do filme são um jogo com o próprio roteiro. O túnel onde se passam alguns momentos da narrativa de fato existe na Carolina da Norte e sua construção, tendo iniciado nos anos 40, nunca foi terminada. Monte Hellman brinca tanto com os personagens quanto com a localização, mas reside nele uma seriedade, não austeridade, em ondulações de energia e mistério. A atmosfera inebria o espectador, com sua lentidão de imagens e azuis misturados ao verde das árvores e dos bosques. Quando vemos o filme, estamos sendo traídos, pouco a pouco, com as pistas oferecidas, mas o que se oferece, embora não seja uma obra-prima, como aquelas que o diretor vislumbra, é no mínimo um jogo notável com a própria paixão pelo cinema que suscita em cada movimento.

Road to nowhere, EUA, 2010 Diretor: Monte Hellman Elenco: Shannyn Sossamon, Tygh Runyan, Cliff De Young, Rafe Tachen, Waylon Payne, Dominique Swain, Rob Kolar Produção: Jared Hellman, Melissa Hellman, Monte Hellman, Steven Gaydos Roteiro: Steven Gaydos Fotografia: Josep M. Civit Duração: 121 min. Distribuidora: Lume Filmes

Cotação 4 estrelas

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