Era uma vez na Anatólia (2011)

Por André Dick

Era uma vez na Anatólia

O diretor turco Nuri Bilge Ceylan, depois de Três macacos, chegou a Cannes em 2011 e apresentou este filme, que foi uma das surpresas de um ano concorrido, com A árvore da vida e Melancolia, dividindo o Grand Prix com O garoto da bicicleta, dos irmãos Dardenne. Com uma estética calcada nos filmes de Abbas Kiarostami, mas com traços também de outros cineastas mais clássicos, como o próprio Akira Kurosawa (principalmente aquele de Ran), além da clara referência no título a Sergio Leone, Era uma vez na Anatólia consegue apresentar uma investigação minuciosa em três veículos ao longo de estradas cercadas por colinas de uma cidade da Turquia, atrás do corpo de um homem chamado Yasar, com a colaboração pouco efetiva dos dois responsáveis pelo crime, Kenan (Firat Tanis) e Ramazan (Burhan Yildiz). Essa investigação é acompanhada por um legista, Cemal (Muhammet Uzuner), um promotor, Nusret (Taner Birsel), e dois investigadores, um mais compenetrado, Nassi (Yilmaz Erdogan),  e outro, Arap Ali (Ahmet Mümtaz Taylan), que desempenha o papel de motorista, menos disposto à seriedade, o que não significa que, no fundo, não sejam semelhantes, entre as mais variadas conversas, desde assuntos familiares, passando por temas médicos e mesmo filosóficos – embaixo de uma lua quase escondida.
Ceylan, com uma câmera que amplia a paisagem, mostrando sempre carros surgindo no alto da estrada ou descendo ela, com os faróis ligados, revela uma espécie de noir moderno. Se há um grande talento a ser desvendado em Era uma vez na Anatólia é sua visão referente à profundidade das imagens e da atuação do elenco, memorável, sem exceção. No início, tudo se desenrola na escuridão, com os policiais obrigando o assassino a levá-los até onde teria deixado o corpo. O filme, mais do que exatamente uma investigação nos moldes policiais a que estamos habituamos, é uma reflexão sobre a existência não apenas desse corpo de investigação, mas dos assassinos, submetidos a uma procura incessante durante a madrugada, mesmo depois de um jantar com o prefeito de uma pequena aldeia, Mukhtar (Ercan Kesal, também um dos roteiristas), interessado em reservar espaço para o cemitério de habitantes da região, não importando se ela reserva espaço também para o esconderijo de corpos.

Era uma vez na Anatólia.Filme 3

Era uma vez na Anatólia.Filme 2

Em Era uma vez na Anatólia, aos poucos, o que importa não seria exatamente o crime a ser desvendado, mas o corpo a ser encontrado. Essas serão as pouco mais de 12 horas que acompanharemos de um punhado de personagens, mas que, apesar da rotina, podem definir suas trajetórias, ou colocá-los simplesmente no mesmo lugar onde estiveram antes. E Ceylan registra tomadas noturnas como se elas reservassem um suspense, uma espécie de expectativa para o que irá ocorrer – decisivamente as conversas dentro do carro, dialogando não apenas com o melhor Hitchcock, mas, contemporaneamente, com o Kiarostami de Cópia fiel, resguardam essa tensão de que alguma situação pode aflorar a qualquer momento. Uma maçã deslizando até um riacho por um declive de terra, um trovão iluminando uma figura gravada numa pedra, locais indicados sem certeza, despertando a tensão de um dos investigadores, que considera o criminoso um animal e se irrita quando alguém tenta lhe fazer uma gentileza (como lhe alcançar um cigarro), os faróis do carro e uma pessoa tendo de descer às pressas, e o vento à noite batendo nas toalhas de uma casa no descampado reservam mais tensão do que certamente o que os criminosos tendem a esconder da polícia. Era uma vez na Anatólia parece durar uma eternidade se a perspectiva é uma investigação nos moldes conhecidos, mas é impressionante como consegue desenhar nuances a partir de detalhes imprevistos, imersos numa paisagem que parece repetitiva – como os próprios crimes e a fadiga a que são levados o legista, o promotor e os demais. Para Ceylan, não haveria nada de novo nessa sequência de carros descendo a colina: a morte ronda a vida desses personagens. No entanto, aqui está em jogo não apenas a descoberta, como também a solução de um drama familiar que ficou escondido na cidade, à espera de solução.

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Quando os policiais param com os responsáveis pelo crime na aldeia, veem a figura de uma jovem (Cansu Demirci), filha do prefeito local, que os faz ter uma lembrança de como seriam suas vidas nessa paragem tranquila. “Que desperdício”, diz um deles sobre a beleza dela, como se lamentasse não apenas a situação dela, perdida naquela planície, mas sua própria condição, como a de todos, ao mesmo tempo útil para trazer um corpo à sua família e melancólica, pois parece que a resposta a tudo termina aí. No entanto, este desperdício é mais: a imagem que surge da jovem, atrás de velas, pois faltou luz na casa e nos arredores, configurando uma espécie de hora noturna completa para esses personagens, é quase a imagem de uma figura a quem esses homens devem prestar reverência para tentar obter uma nova luminosidade.
Ceylan filma com beleza uma espécie de desperdício de tempo – a procura pelo corpo –, mas que reserva, no caso, o comportamento desses indivíduos. O promotor Nusret, em determinado momento, refere-se ao nome de Clark Garble, e sem dúvida parece habitar essas estepes afastadas da Anatólia de Ceylan a própria memória de um cinema que aos poucos se perdeu, principalmente pelo suspense criado na expectativa a que o espectador está acostumado a ser atendido.
A fotografia de Gökhan Tiryaki é tão bem elaborada, com cada enquadramento remetendo a uma pintura, e a sequência de poucos diálogos tão bem feita, com intervalos longos de silêncio, mas orgânicos, nunca ostensivamente calculados, como se seguissem um cronômetro, que imaginamos não estar vendo apenas um filme realista, mas a prova de que um filme em que o passar das horas cria uma tensão especial pode ser feito. É notável a passagem da noite para o dia em Era uma vez na Anatólia porque o espectador, inserido na noite de Ceylan, parece esquecer por um instante a luz do dia e quando ela é retomada parece surgir com uma reprodução do cansaço, também dos homens, em continuar procurando o corpo. Ceylan torna o cadáver um símbolo de algo a ser encontrado (no caso, a memória do legista diante da fotografia que remete a um amor antigo) e do vigor dessa humanidade que vaga pela noite. Aqui, a autópsia é figurativa: os homens querem descobrir apenas o que trazem longe da superfície.

Bir Zamanlar Anadolu’da/Once upon a time in Anatolia, Turquia, 2011 Diretor: Nuri Bilge Ceylan Elenco: Muhammet Uzuner, Taner Birsel, Yilmaz Erdogan, Ahmet Mümtaz Taylan, Firat Tanis, Burhan Yildiz, Ercan Kesal, Cansu Demirci Zeynep Produção: Özbatur Atakan Roteiro: Ebru Ceylan, Ercan Kesal, Nuri Bilge Ceylan Fotografia: Gökhan Tiryaki Duração: 150 min. Distribuidora: Filmes da Mostra Estúdio: Fida Film / Imaj / NBC Film / Production 2006 / Zeynofilm

Cotação 5 estrelas

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