O cavaleiro solitário (2013)

Por André Dick

O cavaleiro solitário.Filme 4

Nunca foi uma qualidade de Gore Verbinski a duração de seus filmes. Depois da série Piratas do caribe, O chamado e A mexicana, parece que apenas a animação Rango e o drama O sol de cada manhã conseguiam uma síntese. Em O cavaleiro solitário, novamente situado no universo do Velho Oeste, Verbinski volta com uma produção em alto desempenho dos estúdios Walt Disney, e cenas de ação variadas. Mas, em primeiro plano, é difícil lembrar de outro momento em que Depp esteve tão deslocado. Fala-se que em Sombras da noite, de Burton, ele já havia se desgastado consideravelmente com suas atuações baseadas também em trejeitos e na maquiagem, e ainda assim era divertido como Barnabas. Aqui, a partir de determinado momento, quando acentua o overacting, ele deixa transparecer o incômodo. Se antes Verbinski lhe deu o antológico Jack Sparrow – divertido até pelo menos o fim do primeiro da série –, aqui Depp não consegue ser, do mesmo modo, eficaz. Embora a presença do ator seja no mínimo questionável, o principal problema é o estilo de humor utilizado, a partir de fatos reais (o massacre de indígenas). Em segundo plano, Armie Hammer, como o Cavaleiro, não consegue repetir a proeza dos gêmeos de A rede social e mesmo do amante de J.Edgar do filme de Eastwood. Ele não tem uma habilidade para o que O cavaleiro solitário exigiria: a comédia física.
Mas a questão seria como lidar com este roteiro, escrito a oito mãos, por Eric Aronson, Justin Haythe, Ted Elliott e Terry Rossio, que parte da ideia de um menino vestido de “Lone Ranger” (Mason Cook), em 1933, em San Francisco, visitando um museu, em que encontra uma figura que apenas aparenta ser de cera, o comanche Tonto (e toda vez que a história se desloca para esse diálogo parece que Verbinski parece fazer uma concessão a uma visão idílica dos índios na América), com a placa: “O nobre selvagem em seu habitat natural”. É ele que lembra quando conheceu John Reid (Armie Hammer), um advogado, numa viagem de trem – e já esta sequência inicial apresenta o elemento mais chamativo do filme: a grandiosidade em todos os sentidos, mesclando humor a situações fantasiosas. Ambos são aprisonados por Butch Cavendish (William Fichtner), um bandido que foge do trem com uma trupe de companheiros. Reid chega à mulher, Rebecca (Ruth Wilson), e ao filho do irmão, Dan (James Badge Dale), um Texas Ranger, mas vai encontrá-los num perigo mortal.

O cavaleiro solitário.Filme 2

O cavaleiro solitário.Filme 6

Entre idas e vindas, Reid e Tonto ficam amigos, mas Verbinski não consegue localizar essa amizade por meio de diálogos ou de humor substancioso, sempre sucedendo cada sequência com alguma gag visual ou verbal, encerrando cada atitude com uma espécie de detrimento de uma possível humanidade. Nesse sentido, quando apresenta alguns coadjuvantes, como Red (Helena Bonham Carter, que, assim como Depp, entrega-se a um estereótipo, já cultivado este ano em Os miseráveis), Verbinski não consegue desenhá-los a ponto de torná-los parte de uma engrenagem. A sensação, por isso, ao se assistir O cavaleiro solitário, é de que se vai saltando de um filme para outro dentro da mesma obra – e não se coloca, aqui, as influências de outros faroestes, bastante comentadas e evidentes, por todas as panorâmicas realizadas a cada minuto. Falta, além de um diálogo entre as partes, uma espécie de comedimento, que, em não existir, compromete o restante.
Não há dúvida de que há sequências realmente divertidas (spoiler: aquela em que Tonto e o cavaleiro solitário estão enterrados, apenas com o pescoço para fora) e fantásticas (a sequência final), e há um trabalho de fotografia respeitável, embora excessivamente monocromático, de Bojan Bazelli. No entanto, Verbinski coloca os montadores numa situação delicada: existem ao menos 30 minutos a mais de filme, e a história, que já seria insuficiente para pouco mais de duas horas, torna-se ainda mais inconsistente. O fato é que o que sustentaria a trama – a amizade entre Tonto e o Cavaleiro – praticamente inexiste, acontecendo apenas entre provocações de parte a parte. Restaria haver um vilão provocante, mas Butch não corresponde.

O cavaleiro solitário.Filme 5

O cavaleiro solitário.Filme 7Percebe-se que Verbinski tinha bem claro que gostaria de dar ao filme um crescente a partir de sua parte técnica. No entanto, isso acaba sendo fatal para a proposta de um filme que é desencadeado a partir da conversa de um menino com um índio, a princípio, de cera de museu, e o fato de transformar a chacina a índios numa espécie de culpa pessoal por oferecer o ouro a alguém que não o merecia, reduzindo de forma simbólica o contexto (mesmo que seja para uma fantasia, e se pode falar nesses termos pela quantidade de absurdos na parte final principalmente, dos estúdios Disney).
Há uma necessidade, ao mesmo tempo, de Verbinski ressoar, na verdade, o que seria os Estados Unidos: a disposição de bandeiras do país em momentos-chave depois do clímax parecem dizer que o filme, mais do que uma experiência infantil por esse monumento de referências passadas, é bastante político e, ao contrário do herói, nem um pouco desastrado. É talvez isto que torne O cavaleiro solitário, além de um filme que não consegue trabalhar o que pretendia em suas entrelinhas, uma espécie de referência vazia do mesmo período que tenta satirizar e tornar bem-humorado. Sabemos que em Hollywood os vilões podem experimentar o gosto da vingança dos comanches, mas, ao satirizar esta mesma vingança, O cavaleiro solitário apenas prefere buscar o saldo financeiro capaz de colocar mais um herói em disparada na linha do horizonte, com o cavalo branco que o escolheu. Diante de tudo, talvez seja realmente a última fala do filme que conceda a Verbinski um instante, mesmo que rápido, de sinceridade. Também não deixa de ser um pedido aos comanches colocados no museu de cera. No fim, tudo isso colabora para que O cavaleiro solitário se torne o que é: uma fascinante falha de ignição em todos os níveis.

The lone ranger, EUA, 2013 Diretor: Gore Verbinski Roteiro: Eric Aronson, Justin Haythe, Ted Elliott, Terry Rossio Elenco: Johnny Depp, Armie Hammer, Helena Bonham Carter, William Fichtner, Ruth Wilson, James Badge Dale, Mason Cook Produção: Gore Verbinski, Jerry Bruckheimer Fotografia: Bojan Bazelli  Trilha Sonora: Jack White Duração: 149 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Jerry Bruckheimer Films / Silver Bullet Productions

 1 estrela e  meia

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: