Antes da meia-noite (2013)

Por André Dick

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O casal Celine e Jesse se tornou conhecido do público em Antes do amanhecer, durante uma viagem de trem pela Europa, entrecortada por uma série inesquecível de diálogos pelas ruas de Viena, e quando se reencontrou nove anos mais tarde, em Antes do pôr do sol, na Cidade das Luzes. Antes da meia-noite, a terceira parte, novamente com Ethan Hawke e Julie Delpy, ambos também coautores do roteiro, com o diretor Richard Linkater, volta a mostrar esse casal, um dos mais memoráveis do cinema, entrando na progressão de um relacionamento. Possivelmente, nos anos 90, nenhum do trio (Linkater e o casal) imaginava o sucesso que teriam os personagens, figuras próximas do cotidiano. Ethan Hawke era um dos atores jovens que fizeram sucesso ainda quando criança (em Viagem ao mundo dos sonhos, e depois como aluno em Sociedade dos poetas mortos) tentando encontrar um espaço entre os atores adultos (espaço em que se destacou principalmente em Gattaca, Grandes esperanças, Dia de treinamento e o aflitivo Antes que o diabo saiba que você está morto), enquanto Delpy recém havia sido revelada na Trilogia das Cores de Kieslowski. A série em que vivem Celine e Jesse se transformou numa espécie de marcação também de suas carreiras, e nunca ambos estiveram tão bem quanto nesses filmes.
Já fica claro no início de Antes da meia-noite que o casal finalmente pôde ficar junto, quando, depois de deixar o filho, Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), no aeroporto, em direção à América, Jesse entra no carro onde o esperam não apenas Celine, como as filhas gêmeas. Agora as conversas desviam para o fato de que Celine necessita de uma segurança financeira e de uma profissão e não quer que as meninas saibam que não quiseram parar num ponto turístico da Grécia, enquanto Jesse mastiga os restos de uma maçã de uma das duas. Se o casal nos filmes anteriores misturavam uma espécie de afeto e um desejo de ficarem juntos, mesmo que a distância os separasse, aqui o filme causa uma estranheza pela proximidade que ambos têm. O espectador reconhece as lembranças de ambos de um período que afinal não acompanhou (nove anos separaram um filme do outro), e se no anterior se sentia uma espécie de descoberta das lembranças dos anos em que eles não se viram, aqui se acompanha um casamento não oficializado entrando na rotina de criação dos filhos e de histórias para amigos que encontram ao redor de um escritor, Patrick (Walter Lassaly), do qual partiu o convite para Jesse e Celine estarem na península do Peloponeso, na Grécia.

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A paisagem grega é utilizada por Linkater de maneira discreta e Christos Voudoris (que substitui Lee Daniels, dos dois primeiros) evoca uma tranquilidade como naquela cena em que as filhas do casal entram no mar. Nada é trabalhado no sentido de destacar a paisagem, como seria um elemento até natural num filme passado nesse país, mas de dar ênfase nas conversas entre o casal e, nesse sentido, Celine parece ser, sem dúvida, a mais afetada pelo romantismo que já não existe, embora Jesse faça o possível para mantê-lo com sua faceta literária e de turnês em busca da vendagem.
Celine sempre foi, desde o primeiro filme, insegura e Jesse sempre foi a figura que tenta transmitir um vigor nas palavras e nas ações, mas que acaba sendo mais inseguro do que ela. Nos anteriores, havia uma expectativa, para Jesse, de que Celine seria a mulher perfeita para sua rotina; aqui, como que descobre, também pela proximidade, que ela não conseguirá reproduzir a perfeição que coloca também em seu romance que conta sobre o primeiro encontro – e tinha um dia de lançamentos no segundo filme. Ela sente o mesmo quanto à figura idealizada de um homem, e as cobranças surgem a partir de uma possibilidade de mudança de país, com a justificativa de haver uma proximidade maior com o passado de Jesse. E o peso que ele dá à literatura desta vez afeta mais Celine, pois nos dois primeiros filmes tratava-se de uma presença abstrata, pois não conviviam juntos (alguns diálogos são um pouco menos espontâneos neste contexto, pois excessivamente centrados na metalinguagem). O receio é justamente o de dedicar um tempo que não voltará mais a uma relação, que era almejada com tanta certeza e sem volta nos dois anteriores, com os personagens sendo pressionados por um sentimento de perda tanto de seu espaço quanto de sua rotina.
Há alguns elementos biográficos de Hawke no desenvolvimento da história, e chega a ser surpreendente que um ator normalmente discreto, embora talentoso, consiga apresentar, aqui, uma interpretação tão adequada, em todas as suas nuances, apoiado pela sensibilidade de Delpy em deixar a cena seguir seu ritmo, sem atropelos de ambas as partes. Hawke sempre atinge sua melhor atuação quando não precisa chamar a atenção para sua presença, mas aqui ele consegue dividir como poucos fariam o espaço de cena com Delpy, mais ainda do que no segundo filme. Ele consegue, como Delpy, mostrar a passagem dos anos (algo que um ator como Johnny Depp não consegue, por exemplo).

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Antes da meia-noite

Embora Linkater em momento algum pretenda desenhar um movimento especial de câmera e, como nos demais, prefira lugares em que a conversa soe o mais natural possível, sem haver nenhuma intromissão visual, em Antes da meia-noite os diálogos se dão em lugares mais apertados, como se mostrassem a falta de liberdade do casal. Eles surgem com ainda mais vigor do que nos anteriores, embora se ressintam do mesmo estilo de condução e já sem a melancolia do afastamento e a imaginação de um amor capaz de salvar a todos do desgaste de um divórcio ou de trocar a vida e as viagens pelo cuidado com as filhas. Alguns deles acabam pesando, no sentido de que, independente da idade, o casal não deve ter uma pausa de tranquilidade.
De qualquer modo, a narrativa se costura com uma série de sequências sugestivas. Depois (spoilers) de uma conversa sobre anos de casamento, eles vão a uma capela histórica da ilha, e, mesmo que aparentem estar próximos, num lugar apertado, Linkater filma como se eles estivessem tentando se distanciar, ou pelo menos fugir da conversa central; em outro momento, o quarto do hotel se mostra o local mais indicado para esclarecer cobranças de ambas as partes, na sequência mais difícil de Delpy em toda a série e um tour de force de Hawke, capturado numa série de contradições, mas tudo isso pode ser sintetizado pelo fato de o casal fazer uma viagem inicial num carro, tentando mediar os conflitos interiores, ao mesmo tempo em que parece querer ignorar a paisagem externa.
Hawke e Delpy, ao contrário daquilo a que a narrativa os conduz, nunca se afastam. É justamente a proximidade que tem dos personagens que os torna tão essenciais para o público. Antes da meia-noite não possui o senso de descoberta de Antes do amanhecer nem a voltagem entre o cômico e o trágico de Antes do pôr do sol, mas é um filme sem dúvida indispensável, que consegue arrematar a relação duradoura e não tem sequer receio de evidenciar as camadas de pele e intimidade que um casal acaba servindo ao espaço e tempo de sua relação.

Before midnight, EUA, 2013 Diretor: Richard Linklater Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Yannis Papadoulos, Panos Koronis, Walter Lassaly, Xenia Kalogeropoulou Produção: Christos V. Konstantakopoulos, Richard Linklater, Sara Woodhatch Roteiro: Ethan Hawke, Julie Delpy, Richard Linklater Fotografia: Christos Voudoris Trilha Sonora: Graham Reynolds Duração: 109 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Castle Rock Entertainment

Cotação 4 estrelas

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2 Comentários

  1. tava esperando você fala dele há semanas. 🙂

    Responder
    • Oi, Daniela

      Tudo bem?

      Agradeço novamente por sua visita e pela gentileza do seu comentário! Também queria ter escrito sobre ele antes, e acho que ele cumpre as expectativas. Atuações excelentes de Hawke e Delpy.

      Volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder

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