Spring breakers – Garotas perigosas (2013)

Por André Dick 

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Harmony Korine, que está por trás do projeto Spring breakers – Garotas perigosas, escreveu o polêmico Kids com apenas 19 anos, e Ken Park, ambos de Larry Clark, com narrativas envolvendo adolescentes. Também diretor de alguns longas sem grande repercussão, mas respeitáveis, domina a esse universo como poucos, e Spring breakers guarda alguns trunfos: um deles é a estética, com a colaboração na fotografia de Benoît Debie (que fez um trabalho semelhante em The Runaways) e a trilha magnetizante de Cliff Martinez, habitual colaborador de Refn (Drive), com Skrillex. Há, inclusive, semelhanças entre este filme e o recente Only God forgives, no trato visual, embora com encaminhamentos diferentes.
Aqui, três meninas, colegas de faculdade, Candy (Hudgens), Brit (Benson), e Cotty (Rachel Korine, esposa do diretor), querem juntar dinheiro para que possam sair nas férias de primavera na Flórida – que guarda o imaginário de consumo delas. A elas se junta Faith (Gomez), que participa de reuniões religiosas, em frente a um vitral ultracolorido – a porção Terrence Malick desta festa juvenil. Nos Estados Unidos, parece haver uma profusão neste sentido durante a primavera: os jovens vão para as praias e se jogam não no mar, mas numa piscina de som, sexo e drogas, de todos os tipos. É o que Spring breakers retrata em detalhes: esta seria a média da juventude norte-americana, aponta Korine, como em Kids. Ele filma tudo com cuidado especial pelo ritmo (em certas partes, parece que estamos diante de um videoclipe) e com riscos de voice overs soltas, ao longo da metragem, parecendo se tratar de um filme experimental. O jogo de cores (sobretudo o vermelho e o verde) ajuda a acentuar esta primavera, embora o clima de pôr do sol esteja mais para pesadelo do que para sonho.

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Desde a visão de salas da aula da faculdade, em que as meninas trocam rabiscos em cadernos apontando para as férias de primavera, até o momento em que elas precisam criar uma saída para arranjarem dinheiro, o clima de Spring breakers guarda uma espécie de clima amargo: os corredores azulados e cinzas são a antecipação do que as espera, e a personagem de Faith caminhando numa rodovia indica uma solidão em meio às imagens de festa à beira da praia, repetidas como um comercial de TV. E não deixa de ser irônico que, mesmo nas situações mais delicadas, ela e suas amigas estejam de biquínis coloridos, assim como Faith diga, em suas conversas familiares, que todos que elas encontram são simpáticos e generosos (numa narração às avessas do que acontece), ao mesmo tempo em que cria certo impacto o modo como Korine transforma momentos que parecem lidar com o prazer de forma tão desagradável e afastada de qualquer ideia de verão alegre (spoilers daqui em diante).
Se as jovens precisam chegar ao limite para conseguir o dinheiro das férias, não menos elas fazem quanto estão na praia: elas encontram, em determinado momento, o rapper Alien (James Franco, finalmente à vontade depois de estar deslocado em inúmeros filmes e arriscando sua carreira com vontade), que se apaixona à primeira vista por Faith. É esta personagem que reúne a tentativa de respeitar a religião com a vontade de participar de festas, e a dúvida existencial, e, diante dos projetos cinematográficos anteriores, Selena Gomez realmente está bem no filme, que piora sensivelmente com sua saída.
O seu primeiro encontro com Alien, além de ser a cena mais tensa, bem dirigida por Korine, pois é um embate entre duas personalidades e não estereótipos, revela uma espécie de encontro com uma entidade maligna, que precisa afastar suas amigas caso queira sair ilesa. Suas amigas, no entanto, ficam fascinadas pelo estilo de vida de Alien, com seus carros, dinheiro, pistolas e metralhadoras na cama com neon, e ouvem dele uma análise sobre os tubarões da costa – que parecem falar mais de si próprio e dos amigos. Elas não querem que as férias terminem e para isso resolvem se afastar da vida que as espera na faculdade. E ainda: Alien é inimigo de Archie (Gucci Mane), com quem compete pelo território, fazendo as meninas imaginarem que pode haver mais crimes. O que antes eram festas com drogas e relações sexuais se torna numa espécie de vingança contra um universo que não aceita as mulheres.

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Korine, ao mesmo tempo em que parece mostrar que este é o “sonho americano”, como o de Alien, querendo parecer com Al Pacino em Scarface – e os cenários da praia lembram o filme de De Palma, mais estilizados –, também representa seu lado mais cruel, apontando sua história contra padrões do que é vendido como universo jovem. O momento mais exemplar é quando Alien canta uma música de Britney Spears, “Everytime”, em seu piano à beira de uma piscina. Enquanto ele toca, vão desenrolando imagens de assaltos cometidos por ele e as meninas, em slow motion, com um cuidado não apenas fotográfico, mas sonoro. Estamos não apenas diante de uma ironia – o romantismo pop de Britney Spears inspira jovens como aqueles mostrados pelos filmes, e representa parte deste “sonho americano” –, mas de uma cena que parece definir Spring breakers: há imagens e sensações inocentes, como aquelas que se produzem numa canção, cortadas pela violência da realidade. Ainda assim isso parece previsível, pois a crítica é tão direta e Korine considera que chegou ao ponto-chave sem concluir que seu filme tem os mesmos problemas.
Esta comparação direta parece ter algo que desequilibra Spring breakers: ela remete ao universo da repetição cultural. Assim, a partir da metade final, principalmente, o belo estilo empregado por Korine na hora inicial pende um pouco mais para a exaustão, com frases sendo reelaboradas continuamente por Alien e as meninas em cena sem desenvolverem uma personalidade própria (elas servem, no fim, apenas como símbolos para um clima justificado de prazer por drogas e justificativa para o clímax). Desse modo, aos poucos, e não sem certo desalento, o filme de Korine trata de uma embalagem prometida e se configura como uma ácida crítica ao estilo de vida de uma parcela dos jovens e o sonho utópico de, numa temporada, mudar o que não pode ser esquecido. Korine não consegue realizar a travessia de uma obra provocante para uma obra densa, como parecia anunciar pelas cenas iniciais, entrecortadas com as imagens das festas na praia, também em razão de logo afastar a personagem que poderia causar um atrito neste universo e não explorar aquelas figuras com quem lida da metade para o final. O que Korine revela com qualidade é o pôr de sol de uma juventude, mas sua obra promissora se configura como uma surpresa que não convence.

Spring breakers, EUA, 2013 Diretor: Harmony Korine Elenco: Vanessa Hudgens, Ashley Benson, James Franco, Rachel Korine, Selena Gomez, Gucci Mane Produção: Charles-Marie Anthonioz, Chris Hanley, David Zander, Jordan Gertner Roteiro: Harmony Korine Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Cliff Martinez, Skrillex Duração: 92 min. Estúdio: Division Films / Iconoclast / Muse Productions / O’Salvation / Radar Pictures

Cotação 2 estrelas e meia

 

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