Círculo de fogo (2013)

Por André Dick

Círculo de fogo.Cena 1

Desde o início da sua trajetória, o cineasta mexicano Guillermo del Toro sempre teve um culto em torno de sua obra. Se este era grande com O labirinto do fauno, uma das fantasias mais perturbadoras e incômodas já feitas, não necessariamente equivalente a uma qualidade percebida a cada crítica, cresceu ainda mais com os dois Hellboy, em ritmo de HQs. Depois de ser substituído por Peter Jackson na direção de O hobbit, Del Toro resolveu se dedicar a este projeto grandioso, Círculo de fogo (daqui em diante, possíveis spoilers).
Aguardado como um dos grandes blockbusters deste ano, o filme já inicia em plena ação, mostrando que, das profundezas do Oceano Pacífico, através de uma brecha assustadora, surgem os Kaijus, monstros imensos que destroem tudo à sua volta. Para combatê-los, os militares criam os Jaegers, robôs gigantes (de países diferentes), cada um deles conduzidos por dois seres humanos, conectados pela mente, a fim de impulsionar seus movimentos. A parte inicial mostra exatamente esses pilotos, os irmãos Raleigh (Charlie Hunnam) e Yanci Beckett (Diego Klattenhoff), supervisionados por Stacker Pentecost (Idris Elba). Um dos irmãos irá conhecer Mako Mori (Rinko Kikuchi), protegida de Stacker.

Círculo de fogo 7

Círculo de fogo 10

Depois de algumas aulas de luta com influência oriental, a questão é se estariam ambos preparados para enfrentar o fato de que há poucos Jaegers para enfrentar a profusão de Kaijus. Esses são investigados pelo Dr. Newton Geiszler (Charlie Day), com a parceria científica de Gottlieb (Burn Gorman), arranjando alternativas em meio ao mercado de Hong Kong, em busca de Hannibal Chau (Ron Perlman, o Hellboy) – e nesta ligação há alguns bons momentos de humor, por causa principalmente de Charlie Day, que foge completamente à atmosfera do filme. Também há Chuck Hansen (Robert Kazinsky), filho de Herc (Max Martini), que implica com o personagem central.
Todos os elementos básicos estão concentrados nesta narrativa, e Círculo de fogo não escapa muito à premissa do duelo entre a humanidade e monstros que lembram tubarões ou baleias prontos a criar um transtorno inevitável para o oceano. Em meio à apresentação dos personagens, vemos uma atmosfera chuvosa, como em Godzilla (embora o filme se mostre muito mais espetacular e denso do que aquele de Emmerich, que tinha os efeitos especiais como qualidade central), além de lembrar Cloverfield (produzido por Abrams e também de pouco impacto em relação a este) e, um pouco menos, Tropas estelares (a ficção cult de Paul Verhoeven), mas, acima de tudo, com referências a quadrinhos, séries e filmes japoneses.
Del Toro é, sobretudo, um artesão que consegue focar os sentimentos dos personagens – o personagem de Raleigh (também em razão da boa atuação, embora subestimada, de Hunnam) consegue se mostrar humano na tentativa de se conectar com outra pessoa à frente de um Jaeger. Sua relação com Mori se dá inicialmente na desconfiança, mas é na descoberta de um trauma em comum é que faz com que as mentes possam se complementar para o embate final contra os monstros que podem colocar a Terra diante do apocalipse final. A maneira como esses pares adentram nos robôs para tentar guiá-los mostra toda a concepção que cerca Del Toro: cada passo e movimento representa uma grandiosidade da máquina (pode-se dizer que este filme vale para o universo dos robôs o que Jurassic Park representou para os dinossauros nos anos 90). A preparação para o cargo de piloto dessas máquinas se dá com lutas orientais, em meio a quartos, corredores e elevadores frios, como os robôs, mas com os vínculos familiares expostos.

Círculo de fogo 6

Círculo de fogo.Cena 20

Mako Mori não deixa de ser uma espécie de Sonmi-451 de Cloud Atlas (inclusive, Kikuchi, de Babel, se assemelha muito à Doona Bae), sendo preparada para o combate. Por trás dos embates de Círculo de fogo, há uma quantidade de referências bíblicas: o que se teme é o Apocalipse e no futuro os irmãos dividem uma máquina, e a morte de um também é parte da morte de outro, ao contrário de um Caim e Abel; o mar é sempre tempestuosamente bíblico; anda-se dentro de um monstro como Jonas dentro da baleia; mistura-se água às lavas como uma espécie de encontro entre elementos; e, afinal, quem lidera o combate aos Kaijus é um homem de sobrenome Pentecost (ligando-o a Pentecostes).
Del Toro busca, em suas histórias, não raramente a metáfora, como em O labirinto do fauno era a imaginação da personagem central, para escapar a uma realidade áspera. No entanto, em meio a um universo robótico, ele não hesita em mostrar também as mais variadas formas de organismo que podem ameaçar a natureza, mesmo aquela feita com o material de última tecnologia.
Ainda que Del Toro não consiga fazer com que os diálogos sejam desafiadores, em se tratando da simbologia, de efeitos especiais e design, Círculo de fogo é não menos do que espetacular. Neste ano, o segundo Star Trek foi fabuloso, mas parece que Círculo de fogo é uma espécie de configuração tanto da melhor fantasia provocada por robôs e monstros gigantes quanto do pior pesadelo, pois as cenas de batalha se dão quase sempre na escuridão ou embaixo de chuva, além de remeter, mais de uma vez, à série O senhor dos anéis e, segundo dados referentes das filmagens, às pinturas de Goya e Hokusai: os robôs e os monstros possuem uma dimensão assustadora, assim como os cenários em que travam os combates não lembram maquetes ou mero CGI.

Círculo de fogo 11

Círculo de fogo 9

A fotografia de Guilherme Navarro consegue atingir uma categoria essencial para os movimentos das criaturas do filme: especificamente, os interiores onde os robôs ficam em plataformas são iluminados com apuro. Del Toro demonstra sensibilidade para verter este universo de robôs e monstros para uma superprodução e consegue criar algumas cenas notáveis ao longo de sua metragem, mas com destaque especial para a primeira hora, de incessante continuidade em todos os seus elementos – a montagem de John Gilroy e Peter Amundson nunca se encontra vacilante –, talvez prejudicado pelo ato final, mais previsível.
É por isso que, ao conduzir Círculo de fogo para o espaço da fantasia mais extraordinária, Del Toro passa a se inserir entre os nomes contemporâneos que melhor lidam com este material sem reduzi-lo a um trabalho com computadores. Como Peter Jackson e Abrams, o cineasta mexicano mostra, aqui, que os anos para solucionar Círculo de fogo valeram a pena. Seu filme consegue equivaler a pretensão visual com tudo aquilo que cerca a mitologia de robôs e monstros, expandindo, como raras obras, um universo que, mais do que fantástico, proporciona uma sensibilidade imaginária ampla. Não é pouco.

Pacific rim, EUA, 2013 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Charlie Hunnam, Diego Klattenhoff, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Robert Kazinsky, Max Martini, Charlie Day, Burn Gorman, Ron Perlman Produção: Jon Jashni, Mary Parent, Thomas Tull Roteiro: Travis Beacham Fotografia: Guillermo Navarro Trilha Sonora: Ramin Djawadi Duração: 131 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Legendary Pictures

Cotação 4 estrelas

 

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

10 Comentários

  1. Achei este filme fabuloso e espetacular.Mesmo a minha altíssima expectativa em relação a estréia do filme não conseguiram diminuir o impacto do filme.O filme é um verdadeiro delírio visual.Gostei muito da personagem Mako com os seus olhares e dos dois cientistas,estes verdadeiros alívios cômicos…Vale muito conferir a película no formato 3d. Enfim é um filme que te leva a um escapismo da realidade como nunca eu não via.5 estrelas

    Responder
    • Prezado Renato,

      obrigado pela visita. Também gostei da participação dos dois cientistas, sobretudo aquele feito por Charlie Day. Este humor é o que faltou em outros blockbusters desta temporada. A Rinko Kikuchi também tem boa participação, depois de Babel. Não vi o filme em 3D, mas, de qualquer modo, o cuidado com as cores e os efeitos especiais de Del Toro é notável.

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. El Macedo

     /  12 de agosto de 2013

    O Filme foi tudo o que esperei, realmente uma grande homenagem ao gênero e uma releitura bem legal dos robôs e monstros que nos encantaram quando crianças! Del Toro mais uma vez prova sua qualidade como diretor, parabéns!

    Responder
    • Prezado El Macedo,

      obrigado pela visita e pelo comentário. Espero que consigam fazer mais filmes como Círculo de fogo, com o cuidado que Del Toro possui com este universo.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  3. Otimo filme, otimo blog não conhecia seu trabalho!

    Responder
    • Prezado Fernando,

      Del Toro fez realmente um filme que permanece na memória. E agradeço por ter apreciado o trabalho apresentado no blog; fico feliz! Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  4. Michel

     /  3 de setembro de 2013

    Sem dúvida para mim o melhor filme do ano por mais que gostei bastante de World War Z e Superman, Pacific Rim é mto superior a eles e digo não pelo quesito de qualidade de enredo (ainda mais por não ser nenhum especialista da area e tbm um “Xato de Plantão”),mas sim de sensações,porque já nem me lembrava mais como era a sensação de euforia pós assistir algo que me desse aquela impressão de ter vivenciado “A melhor experiencia cinematográfica(e derivados) de toda minha vida(kkkk)” saí do cinema me sentindo ter voltado aos meus 10 aninhos de idade com um sorriso de orelha a orelha e como foi bom sentir isso novamente, que saudades daquela época de Saint Seya na falecida TV Manchete( e suas novelas eróticas rsrsrsrs).
    Parabéns pela crítica do filme vc foi extremamente coerente e melhor não foi nenhum “Xato de Plantão” mais conhecido como Politicamente Correto, Realista, “Marvelsísta” e por aí vai.

    Responder
    • Prezado Michel,

      Agradeço por seu comentário generoso e concordo com seu comentário a respeito do diferencial de Círculo de fogo em relação a outros filmes de grande orçamento. Embora aprecie pontos de O homem de aço, o filme de Del Toro possui elementos que remetem mais à infância do que o filme de Snyder, também no sentido da fantasia e do fantástico, como você bem destaca. Há poucos filmes com este trabalho elaborado de efeitos especiais, direção de arte e cores, sintetizando um universo difícil de ser levado às telas (em termos de grandiosidade de monstros, e nesse caso também robôs, a última vez que eu havia ficado realmente impressionado foi com Jurassic Park, em 93). Nesse sentido, por mais que o filme não inove em termos de roteiro, o que é difícil, de qualquer maneira, ele tem uma agilidade destacada (a primeira hora é particularmente impressionante). Espero que o orçamento do filme seja correspondido nas bilheterias mundiais.
      E obrigado por sua visita. Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  5. Interessante foi uma das criticas mais plausíveis que eu li sobre o filme Circulo de Fogo, dos outros que eu li, apontavam falhas, explicava argumentações, mas dava fora nas informações pesquisadas. No caso aqui, você deu mais ênfase, apontou simbolismo e suas argumentações foram bem convincentes.

    O que me chamou atenção também no filme, ela deixa pontas soltas para uma continuação, o que para muitos consideram como um filme fechado. A premissa foi aberta de uma forma espetacular para um primeiro filme, assim com Helboy (que ainda não teve terceiro filme, Por favor Del Toro, faz o terceiro! rs) terá uma boa sequencia.

    Esse filme foi um presente para os mais fanáticos, assim como eu, aguarda ansiosamente chegada do ano de 2014 para comemoração dos 50 anos dessa cultura dos monstros japoneses. E para o nosso deleite: na esperança de ver novo filme do Godzilla que enfrentara outros monstros.

    Responder
    • Prezado Rogerio,

      Agradeço por seu comentário generoso e fico feliz que tenha visto essas qualidades na crítica feita ao Círculo de fogo. Acredito que o filme tenha mais simbolismos do que subentenda o seu roteiro mais objetivo, a princípio não tão desafiador, e esses simbolismos se devem à presença de Del Toro como diretor. Também acho que há pontas, como comenta, para uma continuação; resta saber se haverá Del Toro novamente como diretor, o que seria fundamental para explorar melhor novamente este universo, como ele fez nos dois, até agora, Hellboy, em razão de sua criatividade. Espero que, inclusive, ele possa desenvolver o design já notável deste filme, com novos recursos e avanços. E aguardemos um novo filme de Godzilla, de preferência superior ao de Emmerich.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: