Uma mãe (e cinéfila) memorável

Para Cenira Dias Dick (1940-2013), com amor, in memoriam

Um violinista no telhado.Filme.Apresentação

Minha mãe sempre foi, além de uma pessoa extraordinária e uma leitora dedicada, uma cinéfila memorável. Desde a infância, com os mais variados filmes, lembro que ela apresentou uma seleção de filmes que nunca esqueci. Desde musicais como Um violinista no telhado, o preferido dela, e Hair – cujo vinil havia em casa –, que quase não foi exibido no Brasil, passando por comédias como As loucas aventuras de Rabbi Jacob, com Louis de Funès – ao qual ela sempre voltava a assistir quando o cinema reprisava o filme, algo mais comum nos anos 1980, e levava sempre um familiar diferente –, até filmes dramáticos, de ficção científica e blockbusters de todos os gêneros, ela não perdia nenhum lançamento.
Era comum viajarmos a Porto Alegre, de ônibus, na sexta-feira, para assistir a lançamentos (também de carro, aos finais de semana, com meu pai). Lembro de ter visto assim, ou de forma parecida, O milagre veio do espaço, em 1987, Willow, em 1988, De volta para o futuro II e Indiana Jones e a última cruzada, em 1989, O vingador do futuro, em 1990, Robin Hood, em 1991, Batman – O retorno e Alien 3, em 1992 – para lembrar de alguns anos mais distantes (e tão presentes).

As loucas aventuras de Rabbi Jacob

Willow.Filme

Conduzindo miss Daisy

O tigre e o dragão

Na época do Oscar, a ida ao cinema intensificava. Em 1990, vimos Conduzindo miss Daisy, do qual gostamos muito, e no dia seguinte ele foi a zebra levando o Oscar de melhor filme. Era extraordinária a parceria de Jessica Tandy e Morgan Freeman (nesse mesmo ano, ela achou belíssimo O campo dos sonhos). Em 1993, ficamos entre Os imperdoáveis, Perfume de mulher e Questão de honra; em 1998, a preferência era Melhor é impossível; em 2000, tínhamos certeza de que O sexto sentido era um filme muito melhor do que Beleza americana; em 2001, gostou muito de O tigre e o dragão; em 2005, de Em busca da terra do nunca; em 2007, de Pequena miss sunshine; em 2009, de O curioso caso de Benjamin Button; em 2011, de Bravura indômita e Cisne negro.
Quantos filmes fantásticos, que desde o início era possível perceber que seriam clássicos, como A história sem fim e Edward, mãos de tesoura. Filmes dos anos 80 como O retorno de Jedi, Os Gonnies, Gremlins, as séries Karatê Kid e Loucademia de polícia e Conan, o destruidor a divertiram muito – vimos todos no cinema, sobretudo no antigo Cinema Saionara, de Novo Hamburgo. Numa determinada época, também assistimos, em fita VHS, toda a série 007, naquele momento até Sean Connery, Roger Moore – que ela considerava o mais divertido –, Timothy Dalton e o raro George Lazenby.

A história sem fim.Filme

Os Goonies.Filme 6

Melhor é impossível.Cena.Filme

O senhor dos anéis.Série

Não perdeu um filme da série O senhor dos anéis, que de 2001 a 2003 fez com que se esperasse um ano a cada aventura; por gostar da série antiga, não perdeu um episódio da trilogia mais recente de Star Wars. Lembro de sessões como a de Os excêntricos Tenenbaums, com o ótimo Gene Hackman, e de Terapia de choque, com Jack Nicholson (o ator preferido dela, sobretudo por causa, pelo que lembro, de Um estranho no ninho, Laços de ternura, As bruxas de Eastwick, Melhor é impossível e As confissões de Schmidt).
Com exceção de Insônia, outro ator favorito era Al Pacino. Lembro de ela pedir a trilha de Perfume de mulher por causa da música “Por una cabeza”, de Carlos Gardel, ao som da qual o personagem de Pacino dança com Gabrielle Anwar no restaurante – energia tão grande quanto aquela que lhe transmitia a música de Ennio Morricone em A missão.

Perfume de mulher.Imagem

Mamma mia.Meryl Streep

Tootsie

Aladdin

Também por gostar muito de Abba, tinha predileção pelo Mamma mia!, com a Meryl Streep, a atriz preferida, em inúmeros filmes – sobretudo Kramer vrs. Kramer, Ela é o diabo (apreciava Rosie O’Donnell), As pontes de Madison e O diabo veste prada.
Apreciava Robert De Niro, especialmente A missão, Os intocáveis, Máfia no divã e Entrando numa fria. Achava impagável a caracterização de Dustin Hoffman como Tootsie, uma comédia memorável, e sua atuação em Rain man.
Leslie Nielsen em Apertem os cintos, o piloto sumiu e na série Corra que a polícia vem aí.
Robin Williams, em Aladdin, Amor além da vida e A gaiola das loucas.
Eddie Murphy, em Trocando as bolas, Um tira da pesada e Um príncipe em Nova York.
Robert Downey Jr., em Chaplin e Morrendo e aprendendo.
Tom Hanks, em Splash, Meus vizinhos são um terror, Forrest Gump, Náufrago e Prenda-me se for capaz.
Johnny Depp, em Edward, mãos de tesoura, Don Juan DeMarco, A lenda do cavaleiro sem cabeça, Chocolate e Piratas do caribe.
Whoopi Goldberg, em A cor púrpura, Ghost e Mudança de hábito – sobretudo as cenas do coral.
Steve Martin, em O panaca (principalmente a sequência inicial, em que o personagem central, quando decide sair de casa, pega uma carona com o vizinho até a porta da casa do vizinho, para dar início à sua jornada!), Os safados, O pai da noiva e o melhor: O sargento trapalhão.
Dos diretores, os filmes de Spielberg e Tim Burton, aquele de Edward, mãos de tesoura e A lenda do cavaleiro sem cabeça.
Também lembro de ela gostar muito de alguns filmes dos Coen, Arizona nunca mais (ela apreciava o Nicolas Cage dos filmes de início de carreira, como este e Feitiço da lua), Fargo, O homem que não estava lá e Bravura indômita.

De volta às aulas

O casamento de Muriel 2

Edward, mãos de tesoura.Imagem

Nosso querido Bob

Entre as comédias mais divertidas, havia várias, mas lembro de ela gostar especialmente, além de As loucas aventuras de Rabbi Jacob, Nosso querido Bob, em que Bill Murray persegue Richard Dreyfuss com sua família em férias, De volta às aulas (ela gargalhava com o Rodney Dangerfield voltando à faculdade), A última cruzada do fusca (mais notavelmente a sequência da tourada, com o capitão Blythe (Harvey Korman) se exibindo para a plateia), A vida de Brian, do grupo Monty Phyton (logo em seguida, vinha Em busca do cálice sagrado), A marvada carne (com Fernanda Torres), O casamento de Muriel (com a Toni Collette) e Um hóspede do barulho (com o Pé-Grande na casa de John Lithgow). Ela também achava engraçado o personagem Zed, da série Loucademia de polícia, feito por Bob Goldthwait, e o filme Será que ele é?, com Kevin Kline, Tom Selleck e Matt Dillon, além de Casamento grego.
Achou Kill Bill Vol. 2 impressionante – e ela não gostava de filmes com excesso de violência. Também Cidade de Deus, que vimos numa das plateias mais lotadas que já presenciei.
Recordo-me, também, que ela gostava de alguns filmes que sempre reprisavam na TV, como Ensina-me a viverO céu pode esperarAs sete faces do Dr. Lao, com efeitos especiais nostálgicos, Os pássaros, além das comédias com Dean Martin e Jerry Lewis, épicos (Spartacus…E o vento levouOs dez mandamentosO maior espetáculo da terraBen-HurDr. Jivago…) e animações com humanos (Mary Poppins, A canção do sul e Se minha cama voasse).
Por mais que eu fizesse esforço na tentativa de interpretar um filme, invariavelmente a análise dela depois de cada um era melhor. Havia elementos que eu nunca perceberia se não fosse o que ela dizia.
Para ela, A cor púrpura era o filme mais belo e triste que já tinha visto, e o assistiu repetidas vezes. Um sonho de liberdade era outro que apreciava muito. A viagem pelo interior de Central do Brasil. E Babe – O porquinho atrapalhado, principalmente a sequência final.

A cor púrpura

Blade Runner.Cena.Filme

Amadeus.Filme

Considerava antológico o que Rutger Hauer dizia ao final de Blade Runner, uma de suas ficções favoritas: “Todos esses momentos perdidos no tempo, como lágrimas na chuva”.
Tinha fascinação pelo Amadeus, de Forman. Adorava a gargalhada do Tom Hulce no filme.
Na época em que Twin Peaks foi exibida pela primeira vez no Brasil, não perdíamos um episódio. Apesar da fama que tinha a série, não lembro de ninguém conversar sobre ela, na escola ou no círculo mais próximo. Mas ela adorava tanto a série e a atuação de Kyle MacLachlan como o agente Cooper quanto o tema de Angelo Badalamenti, melancólico. Num determinado episódio em que o agente Cooper e o xerife Truman vão a uma clínica veterinária, investigar um pássaro que poderia dar pistas sobre o crime que abalou Twin Peaks, há uma cena-chave.
Cooper e o xerife conversam no meio da sala da clínica e uma lhama passa entre os dois, parando, de repente, com o olhar compenetrado no agente Cooper, que também a olha fixamente. Uma cena comicamente surreal – que só poderia existir numa série de David Lynch.
Nunca – jamais – esquecerei da gargalhada que minha mãe deu com esta cena.

Twin Peaks.Cena.Série

Anúncios
Deixe um comentário

2 Comentários

  1. Paula Rocha

     /  12 de janeiro de 2015

    Belíssima homenagem, como também a relação de vocês, como mãe e filho.
    Suas recordações me remeteram à época de infância, quando eu ainda morava com minha tia, que também era fã de cinema. Não havia cinema na cidade, então ela comprava filmes que assistíamos ainda em vídeo cassete. Filmes memoráveis, como Coração Valente, Ben-Hur, Cleópatra, Diário de um adolescente, e tempos mais tarde, Gladiador ficarão na memória.

    Responder
    • André Dick

       /  12 de janeiro de 2015

      Prezada Paula,

      Agradeço por sua mensagem sensível a respeito desta homenagem que fiz à minha mãe por meio do cinema, dos filmes que víamos e por compartilhar também a experiência que teve em sua família, com sua tia. Todos os filmes que cita também me trazem recordações. E são ligadas, como as suas, a alguém que também foi fundamental para definir, entre outras coisas, essa proximidade com a arte, à medida que vida e arte se misturam. E que, para nossa alegria, continuam vivas.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: