Shame (2011)

Por André Dick

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Um dos pontos polêmicos de Shame é o das cenas de nudez, tanto do personagem central interpretado por Michael Fassbender, Brandon, quanto do elenco feminino com o qual contracena e tem relações sexuais, algo raro no cinema atual. Trata-se de uma interpretação magnífica de Fassbender (uma dentre tantas, como a de Prometheus), há alguns anos um dos melhores atores da atualidade. É na exposição de um personagem obcecado por sexo – sobretudo em pensar nele –  que Shame se mantém o tempo todo (daqui em diante, spoilers). Ele acorda de manhã, ouve chamadas de uma mulher pedindo por sua atenção, apanha um trem e flerta com outra (Lucy Walters), a quem tenta seguir, sem êxito. Depois de sair do seu escritório, ele vai com o chefe a um pub, onde flerta com outra mulher (Elizabeth Masucci). Os dois acabam transando na rua, antes do amanhecer. Brandon volta para a casa, onde encontra sua irmã, Sissy (Carey Mulligan), tomando banho. Ela lhe pede para ficar (entende-se que esteja passando por uma separação), e ele, a contragosto, deixa.
As relações em Shame são tão rápidas quanto o próprio diretor deseja transparecer na relação de Brandon com o mundo. Com fitas de vídeo, chats sexuais, revistas pornográficas, ele parece inserido na ideia do sexo como algo não apenas a ser simplesmente experimentado, mas a ser incorporado, mesmo que dele não resulte algum desejo específico. No entanto, não consegue se afastar da ideia de que está isolado, olhando apartamentos envidraçados (onde pessoas têm relações sexuais), e o filme interrompe suas ligações para mostrá-lo como tal, embora, num encontro com uma colega, Marianne (Nicole Beharie), comece a refletir sobre o compromisso. Shame seria sobre o compromisso? Talvez, embora não considere que o diretor, Steven McQueen, tenha desejado, neste caso, ser previsível ou reducionista. Na verdade, também estamos diante de um filme sobre a solidão sustentada pela cidade grande a quem está simplesmente sozinho ou quase sozinho, sem querer depender da irmã e da família – ou simplesmente não poder, sem sabermos o motivo. Sissy pede a ele que seja cuidada, porque é desse modo, segundo ela, que se mantém uma família. Mas, depois de cantar as próprias frustrações por meio de “New York, New York”, pós-vida misteriosa na Irlanda, num bar (e esta cena, apesar de definidora da angústia também do irmão, torna-se um tanto extensa em relação aos demais momentos), envolve-se com o chefe de Brandon, David (James Badge Dale), como se quisesse, ao mesmo tempo, provocá-lo.

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Shame.Filme.Imagem 2Existe um ódio contido do personagem pelo fato de a irmã exigir dele o compromisso, embora não saibamos de qual compromisso se trata. Nem aí, no entanto, o filme consegue sair do círculo demarcado por sua narrativa: Brandon não deseja o compromisso, seja qual for ele, e o faz dissociando sua condição de uma pretensa normalidade sexual. Talvez seja para colocar a perspectiva de que poderá sofrer aquele que não consegue ter uma vida monogâmica e compromisso, ligando esta perspectiva simplesmente a um comportamento obsessivo encobrindo algo, sobre o qual também não sabemos. No entanto, parece haver uma falta de sutileza de McQueen nesta abordagem e, por mais que o filme traga atuações humanas, como a de Carey Mulligan, torna-se um enigma acompanhá-lo.
Capaz de conceder múltiplas interpretações, uma delas é que, ao se tratar de sexo em Shame, na verdade está se tratando da falta de interesse em sexo de um indivíduo. A condição do personagem seria resultado apenas de uma pressão de que ele deve sentir felicidade com uma pessoa e, para tanto, deve adotar um comportamento normal, quando, na verdade, parece que não teve uma vivência que o conduzisse a isso (esclarecida por pensamentos em off da irmã numa cena definitiva, ao final), e só lhe restasse o instinto. Como ele não consegue sentir prazer com uma relação normal, a opressão que se internalizou nele se difunde em blocos de estereótipos: para se obter algo parecido com prazer, ele precisa estar perto de pessoas que também, em sua visão, buscam o prazer momentâneo, para ele sempre ligado a algum trauma. Logo, nesse sentido, todos que buscam esse prazer momentâneo, que na verdade não teria o verdadeiro prazer, estão impelidos ao mesmo sofrimento dele, e mesmo assim, daí a sua angústia, não podem compartilhar o que ele sente.

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No entanto, a impressão é que, McQueen, por meio de uma direção e fotografias climáticas, aponta a disformidade de um universo pretensamente glamouroso, apesar do vazio, e uma espécie de maniqueísmo é disfarçado por um rompimento de tabus: todos que se envolvem com Brandon acabam sendo seu reflexo, ou seja, não há verdadeiro conflito, não há verdadeira descoberta, e a cidade é uma extensão do seu incômodo pessoal (o filme se volta para a centralização do próprio Brandon), pesada e soturna.
Fassbender consegue, na maior parte do tempo, mostrar o mal-estar desse personagem diante da realidade e dos colegas (no momento, por exemplo, em que é cobrado por também ver pornografia em seu emprego). É possível sentir real desesperado nas feições do ator, assim como perceber, evidenciada, sua relação conturbada com a irmã quando há qualquer tipo de tentativa de aproximação. O problema maior é McQueen não articular esta tentativa de avaliar o comportamento sexual do indivíduo com seu passado e futuro, abandonando-o a um presente ininterrupto. Não se trata de querer que Shame fosse mais otimista, ou que os personagens sorrissem como nos filmes de Cameron Crowe, mas simplesmente conduzisse a uma explicação mais exata das ações dos personagens e as entrelaçasse de modo original. Ele deixa questões no ar não em razão de elas não existirem, mas porque, como o personagem de Fassbender, não quer se comprometer. A subjetividade, neste caso, não parece bem trabalhada e os personagens se perdem em seu próprio isolamento. Há espaço para ideias melancólicas, porém há uma ausência do elemento de encontro, em alguma parte, inclusive das camadas não resolvidas de roteiro, eficientes o bastante para prender Shame a uma espécie de estética do desalento maravilhado por si mesmo.

Shame, Reino Unido, 2011 Diretor: Steve McQueen Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, Lucy Walters, Mari-Ange Ramirez, James Badge Dale, Nicole Beharie Produção: Iain Canning, Emile Sherman Roteiro: Abi Morgan, Steve McQueen Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Harry Escott Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: See-Saw Films

Cotação 2 estrelas e meia

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