Tabu (2012)

Por André Dick

Tabu

Existem filmes que impressionam simplesmente por existirem. Um deles é Tabu, filme português de Miguel Gomes (Aquele querido mês de agosto), em preto e branco e cuja segunda parte é apenas narrada, sem falas. Um filme com estas características poderia simplesmente não ter mais espaço, assim como O artista. Não apenas ele tem, como mostra, dentro de especificações correntes do gênero memorialístico, uma espécie de inovação (daqui em diante, possíveis spoilers).
Esta sua segunda parte, chamada “Paraíso”, é uma volta ao passado de personagens que aparecem na primeira, “Paraíso perdido”, mais difícil e não menos interessante. Para além de Murnau, a própria referência a Dante e Beatriz, abrange o escopo do filme, mas não o sintetiza nem consegue configurá-lo da melhor maneira. Se há um paraíso, para Gomes, trata-se da sala do cinema. É nela que Pilar (Teresa Madruga) acompanha, na primeira parte, um filme passado na África, em que um caçador melancólico e atormentado pela imagem da mulher, chega ao momento de se deparar um crocodilo diante de uma tribo. Há um recuo para as poltronas de um cinema, todas vazias, menos, justamente, a de Pilar, a última sonhadora. Ela é vizinha de Aurora (Laura Soveral), cuidada por Santa (Isabel Cardoso), uma empregada de Cabo Verde e envolvida com práticas do vodu (o que assusta Aurora). Do alto de sua idade, Aurora é viciada em jogos, e Pilar atua como mediadora neste problema, saindo de onde está para apanhá-la num cassino (em frente ao qual ela relata suas histórias, e a câmera segue o giro das roletas, como da sua mente). Por sua vez, o filho de Aurora é um pesquisador que trabalha no Canadá, e Pilar, além de envolvida com protestos contra a ONU, em Lisboa, tenta despistar um pintor apaixonado (Miguel Mesquita) e acolhe jovens que recebem bolsas para vir a Portugal. Numa visita à casa de Pilar, Aurora comenta sobre a feiura de um quadro do amor platônico dela. Entre chás e trovões do lado de fora, iluminando a fotografia em preto e branco, assim como as luzes de Natal, nos corredores de hospitais e asilos, os fogos de artifício ao longe (com Pilar, solitária, à sacada), e a fumaça de cigarro suspensa no ar, compreende-se, na verdade, a ligação com um passado semiesquecido.

Tabu 2

Miguel Gomes faz uma espécie de contagem dos últimos dias do ano, passando pelo Natal e ano novo, e Aurora é internada. Seu pedido no leito é que se encontre seu antigo amante, Gian Luca Ventra (Henrique Espírito Santo e Carloto Cotta, quando jovem).
Encontrado Gian, ele relata a história da segunda parte, quando conta seu caso de amor com Aurora (agora interpretada por Ana Moreira) no sopé do Monte Tabu na África, nos anos 1960. Pilar chegou, no lugar, com o marido (Ivo Müller), e logo cria um enlace com Gian, que, além de caçador, faz parte de uma banda que toca um som clássico (nos moldes de The Beatles), tendo à frente Mário (Manuel Mesquita) como vocalista. Toda esta segunda parte se estrutura sobre a narração de Gian, dando a Tabu uma configuração exata para um tempo passado, entretanto nunca ausente.
Ao mesmo tempo em que mostra o conflito com a Colônia debaixo do protecionismo caseiro, “Paraíso” apresenta-se também como uma espécie de passado em rastro da primeira. A música com influência inglesa se infiltra entre as paisagens de savanas e poços-d’água onde nadam crocodilos. Não só isso. A repressão sexual do amor proibido é uma espécie de repressão consciente também das artimanhas do Império sobre esta região, de dar tiros a esmo para o ar, como se assim fosse demarcado o território.
Com este panorama vai se casar a sequência em que Pilar volta ao cinema com o pintor apaixonado, e ela dorme. O som de “Be my baby”, dos Ronettes, em alguns momentos é o som não apenas do colonizador, mas da memória atemporal e também da representação do cinema. É difícil imaginarmos, na primeira parte, um passado de aventuras de Aurora, e é nesta mobilidade – de uma personagem com problemas de idade e de uma mulher que pretende fazer protestos contra a ONU, enquanto vai ao cinema e reza sozinha em seu quarto – que se desenha a maior aventura: o olhar interno, que vai da narração de Gianni, em que Aurora ressurge jovem e com energia, e que vai ao encontro das fantasias proporcionadas pelo cinema de Pilar.

Tabu.Filme 2

Notável a sequência em que Pilar e a estudante estrangeira se encontram num pátio com coqueiros e a estátua de uma girafa gigante, como se a personagem estivesse num cenário plastificado, dentro da cidade grande, em relação ao do filme que assistia no início. Também quando ela, Santa e Gian Luca chegam a um shopping center, a fim de tomarem um café, depois do velório de Aurora, e se mostra, dentro dele, uma selva exótica, que remete à África. A ligação com o passado é um mote para Pilar, quando ela, o pintor e outras turistas acompanham um guia de catacumbas antes de apanhar um ônibus e se dirigir à vida contemporânea. Do mesmo modo, quando Aurora e Gian Luca estão sentados num gramado e olham as nuvens, imaginando animais, como Amélie Poulain, desenha-se, ao mesmo tempo, a solidão do casal e a necessidade de focalizar uma espécie de paraíso original ali mesmo, ainda não traído pelo cidade urbana e pelo afastamento dos colonizadores, estendidos na mesma insegurança com que se escondem de todos, em encontros isolados do restante do mundo. Como se, ao imaginarem as nuvens como desenhos de animais, estivessem criando não apenas o contexto, como também uma origem paradisíaca, inclusive à parte dos conflitos políticos. Esta tomada se relaciona com a de Pilar na sacada de seu apartamento, solitária, olhando para os fogos de artifício. Em razão de Ana Moreira e Carloto Cotta (de Mistérios de Lisboa), esta segunda parte, além de evocar o cinema não dos anos 60, mas dos anos 30 e 40, pelo classicismo das imagens e do comportamento, do olhar melancólico dos personagens e dos sorrisos e olhares que precisam ser interrompidos.
Por isso, há uma espécie não apenas de memória visual em Tabu, mas de memória cinematográfica, e é como se víssemos a paisagem de filmes dos anos 50 e 60 passados na África dentro de um molde clássico, expressionista, e, ao mesmo tempo, contemporâneo, preenchendo as rupturas com pequenos lances narrativos.

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A ação da segunda parte transcorre com mais movimentos de câmera e imagens, enquanto a primeira é mais teatral, concentrada, em pequenos monólogos que se estendem para fora da história, mas tentam preenchê-la. Enquanto os diálogos em “Paraíso perdido” são estabelecidos numa espécie de overacting às avessas – não raramente parece que as personagens estão imobilizadas pela situação em que se inserem –, em “Paraíso” existe uma concentração de gestos próximos do cinema mudo. Porém, a organicidade do trabalho de Miguel Gomes é agradável, mesmo em sua transição do 35mm para o 16mm, compondo uma espécie de panorama da memória universal por meio de um romance a princípio superficial e rotineiro, e ainda assim capaz de encaixar diversos fragmentos, tanto da memória coletiva quanto do cinema. Para se atingir esta escala, não apenas a direção de Miguel Gomes se mostra sensível. As atrizes da primeira parte estão, sem exceção, excepcionais, assim como Carloto Cotta consegue apresentar um misto de caçador e aspirante a músico cada vez mais melancólico pela situação em que se envolve na medida exata.
É nesta ligação atemporal entre as sensações da juventude e da velhice, da realidade in loco e do cinema, da música que pode tocar gerações diferentes, que parece se basear Tabu, com toda a sua sensibilidade de imagens, em que um pequeno crocodilo dado a Pilar ressoa como uma ligação tanto com Gianni quanto com uma espécie de presente móvel, ligando-se decisivamente à primeira parte.
Se o crocodilo desliza sobre o tapete de uma casa, ele também faz parte da memória interna da personagem; ele é o retrato do nascimento e do crescimento de um amor. “Querendo inventar uma conversa, perguntei se o crocodilo tinha nome”, narra Gianni.
O crocodilo, ao mesmo tempo, passa a ser a representação desta ferocidade que não pode ficar presa ao poço-d’água, como a própria condição de a África não poder ser colônia de Portugal e de um personagem não poder, afinal, pertencer ao outro. Alimentá-lo aos poucos ou agitar a água para que se aproxime, com curiosidade, não o impede de deslizar novamente, como a memória dos personagens. Nesse sentido, mais do que um filme baseado em determinadas metáforas (a da sala de cinema quase vazia, o cassino que roda a tentativa de esquecimento e o Monte Tabu parecendo isolado do mundo, mas onde, afinal, o mundo se concentra, em todas as suas descobertas e falhas), este memorável Tabu consegue ser afetivo na medida calculada para cada personagem.

Tabu, Portugal, 2012 Diretor: Miguel Gomes Elenco: Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Henrique Espírito Santo, Carloto Cotta, Isabel Muñoz Cardoso, Ivo Müller, Manuel Mesquita Produção: Sandro Aguilar, Luís Urbano Roteiro: Miguel Gomes, Mariana Ricardo Fotografia: Rui Poças Duração: 118min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Gullane Filmes / ZDF/Arte / Radiotelevisão Portuguesa (RTP) / Komplizen Film / Shellac Sud

Cotação 4 estrelas e meia

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