Terapia de risco (2013)

Por André Dick

Terapia de risco.Filme

Há alguns anos, o diretor Steven Soderbergh vem comentando sobre o interesse em se aposentar, apesar de ser um dos cineastas mais produtivos de Hollywood. Desde 2011, ele realizou, entre outros, A toda prova, Contágio, Magic Mike, Behind the Candelabra (exibido no último Festival de Cannes) e este Terapia de risco. Conhecido por sua multiplicidade, capaz de fazer filmes esteticamente diferentes, como Traffic, e ganhar no mesmo ano o Oscar de melhor diretor pelo linear Erin Brockovich, passando por aqueles destinados aos multiplex, como a série Onze homens e um segredo, até os dois filmes sobre Che Guevara, Soderbergh talvez seja o que mais pretende: uma incógnita. Não é exatamente Terapia de risco que vai ajudar a esclarecer sua trajetória, iniciada com uma Palma de Ouro em Cannes por sexo, mentiras e videotape. O que se destaca é como ele, aqui, traz elementos que o assemelham a David Fincher. Com os filtros amarelados, as lâmpadas fosforescentes, abajures bem situados e o céu sempre ameaçando com temporais, e ainda com Rooney Mara no elenco (ela fez Millennium), Terapia de risco parece um suspense que parte de Hitchcock, mas com a maneira de filmar de Fincher.
Mara interpreta Emily Taylor, que recebe o marido, Martin (Channing Tatum, com a disponibilidade de atuação de quem está em visita às filmagens), depois de anos na cadeia, de volta à sua casa. Ela parece apresentar, no entanto, um quadro depressivo. Depois de tentar o suicídio, é atendida por um psiquiatra, Jonathan Banks (Jude Law), que, interessado no seu histórico, resolve tratar seu caso com atenção, receitando alguns remédios e indo consultar sua psiquiatra anterior, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones). No início, eles parecem ajudá-la, inclusive a retomar seu relacionamento com o marido, até o dia em que, sem nenhuma explicação, acontece uma reviravolta. Imagina-se que o comportamento de Emily seja explicado pelo remédio recomendado para tratamento, o fatídico Ablixa, capaz de, ao mesmo tempo, despertar a sexualidade e causar sonambulismo. Banks começa a se ver prejudicado tanto no trabalho quanto com sua família, com a mulher, Deirdre (Vinessa Shaw), e um filho. Depois de um início trepidante e indefinido, Soderbergh vai apresentando os personagens e seus conflitos, a sua busca pela melhora através do tratamento, mas a questão é saber até que ponto tudo segue realmente a ordem que se imagina. Soderbergh, nesse ponto, estaria fazendo uma crítica à indústria farmacêutica ou às pessoas que dela se utilizam? Terapia de risco acaba sendo uma concentração interessante, em doses controladas, de um thriller que vai tomando forma, ficando grande, interessante, até optar em ter vários direcionamentos.

Terapia de risco

O elenco é apto para isso. Jude Law parece ter saído diretamente de Closer e, embora não apresente a mesma interpretação de Anna Karenina, uma surpresa em sua trajetória, consegue desenvolver bem seu psiquiatra. O mesmo se diz para as coadjuvantes Catherine Zeta-Jones (que trabalhou com Soderbergh em Traffic e na série Onze homens e um segredo) e Vinessa Shaw. Rooney Mara, no entanto, não consegue repetir sua atuação excelente de Millennium, e parece pouco encaixada no papel, também porque o roteiro dá alguns saltos de comportamento e extrai o clímax de cada cena a partir da parte final. Isso tira um pouco a consistência de algumas passagens de Terapia de risco. No entanto, trata-se de uma atriz que tem presença de cena. Desde sua participação inicial em A rede social, ela certamente é uma persona excêntrica, talvez à espera de um roteiro que, como o de Millennium, possa extrair o seu potencial.
O que mais se destaca em Terapia de risco (daqui em diante, possíveis spoilers) é sua aproximação com outros filmes do gênero, que retrata a relação entre psiquiatra e paciente. Já vimos o mesmo em Instinto selvagem e Desejos, dos anos 90, que acabaram, de alguma maneira, expandindo suas referências para o gênero no universo contemporâneo. Soderbergh abraça os caminhos do gênero, e, ao deixar os personagens, em determinados momentos, flutuando, torna sua finalidade menos oportuna. Em termos de atmosfera, de qualquer modo, também pela influência visível de Fincher, há uma espécie de atração, de clima indefinido entre os personagens, como o em que vemos em alguns filmes de Soderbergh, principalmente os despretensiosos, como Irresistível paixão (com George Clooney e Jennifer Lopez) e O desinformante (com Matt Damon). O diretor consegue atrair o espectador para sua narrativa sobretudo no meio do filme, em seu núcleo, quando o comportamento dos personagens mantém sempre um mistério incômodo, assim como a trama policial que se estabelece.

Terapia de risco.Filme 2

Ao mesmo tempo em que essa trama se estabelece, de qualquer modo, Soderbergh vai se desinteressando pela questão da crítica à indústria farmacêutica, tornando os remédios mais como uma espécie de motivação para a ameaça e mesmo para desvendar uma verdade, e criando comportamentos que se justificam apenas para o espectador – nesse sentido, os personagens agem como se representassem para a plateia, e não conforme tenderiam a agir, dentro do filme (como a cena em que Emily, numa festa, se observa no espelho). Todos os personagens, de certo modo, estão inseridos nessa utilização do medicamento, com a finalidade certa ou errada. O diretor considera que a parte interessante do seu thriller são as reviravoltas a partir do uso dele, deixando de lado a discussão sobre a ética e o comportamento de quem lida com a medicina e com o equilíbrio orgânico de seus pacientes. Não que esse fosse o caminho mais adequado, mas, diante da maneira como o filme se apresenta em sua metade final, possivelmente teria uma abrangência mais interessante. Nesse sentido, alguns personagens, como o de Victoria Siebert, não chegam a ser desenvolvidos de maneira a provocar uma tensão maior e ressente-se, nesse sentido, justamente de uma metragem maior, tão importante para Fincher. Para que se crie uma história de suspense, e haja descobertas pouco a pouco, é preciso de tempo para que se analise o que viu. Os efeitos colaterais são sentidos, e a parte final nega o que Soderbergh constrói com competência nas duas primeiras partes. Não torna Terapia de risco dispensável, mas menos interessante do que poderia.

Side effects, EUA, 2013 Direção: Steven Soderbergh Elenco: Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Vinessa Shaw, Polly Draper, David Costabile Roteiro: Scott Z. Burns Produção: Gregory Jacobs, Lorenzo di Bonaventura, Scott Z. Burns Fotografia: Peter Andrews Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 114 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Di Bonaventura Pictures / Endgame Entertainment

Cotação 3 estrelas

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2 Comentários

  1. Maria Clara

     /  4 de julho de 2013

    Boa crítica, parabéns!!!! Refletiu tudo que eu pensei ao ver o filme. A atmosfera criada pelo diretor realmente atrai, além de todo aquele mistério que envolve os personagens, principalmente a protagonista…Porém, o desenrolar é muito mirabolante e não convence, além de passar a sensação que nós, espectadores, fomos enganados (o que eu, particularmente, não gosto).

    Responder
    • Prezada Maria Clara,

      Fico feliz que tenha apreciado a crítica e se identificado com as suas ideias. O desenrolar final, como você observa, é muito mirabolante e com a necessidade evidente de enganar e surpreender o espectador, o que tira, infelizmente, o mistério e a força do filme. E deixa Rooney Mara em apuros.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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