Ferrugem e osso (2012)

Por André Dick

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Uma das grandes surpresas do Oscar neste ano foi a não indicação ao prêmio de Marion Cotillard por Ferrugem e osso, lembrada, no entanto, pelo Globo de Ouro (assim como o filme, na categoria de produções estrangeiras). Depois de vencer o prêmio por Piaf, ela se destacou em outros filmes, como no belo Meia-noite em Paris, e participou do desfecho da trilogia do Batman de Nolan, com um papel deslocado, pelo menos para sua importância. Em Ferrugem e osso, ela volta a mostrar que se trata de uma das grandes atrizes surgidas nos últimos vinte anos, capaz de sustentar um filme.
No entanto, ela não está sozinha: temos o diretor Jacques Audiard e o ator Matthias Schoenaerts, apoiados num roteiro que parece banal, mas consegue, aos poucos, transformar-se numa referência para a complexidade dos relacionamentos e da transição de fases na vida de alguns personagens. Neste sentido, o filme mostra como a França tem produzido, como ao longo de sua história, obras originais e, quando afastadas da metalinguagem, verdadeiramente densas. Como Stéphanie, uma treinadora de orcas para um show aquático – nos moldes da Disney –, ao som de Katy Perry, Cottilard desenvolve nuances memoráveis (a partir daqui, spoilers). A personagem conhece um segurança de boate, Ali (Matthias Schoenaerts), que mora com o filho, Sam (Armand Verdure), na casa da irmã, Anna (Corinne Masiero), cuja única distração pode ser um aquário com poucos peixes na sala, depois de uma briga, e sofre um acidente numa de suas apresentações, precisando amputar parte de suas pernas. Passando por uma transformação completa por conta disso, a primeira pessoa de que ela lembra no novo momento é justamente Ali. O momento em que ela reencontra o personagem, e ele a leva para a praia, a fim de nadarem, é não apenas lírico no sentido da fotografia de Stéphane Fontaine e da trilha sonora (mais uma vez acertada) de Alexandre Desplat, mas carregado de sensações: o encontro dela com a água, onde se deu o acidente transformador, e, ao mesmo tempo, a calmaria da areia, com o personagem de Ali segurando Stéphanie em seus braços, é calculadamente emocional.

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A partir daí, ambos se transformam não apenas em amigos, mas passam, numa espécie de consentimento mútuo, a ter relações sexuais. O diretor Audiard desenha a narrativa de forma muito detalhista e simples, sem pesar demais nas frustrações dos personagens diante da realidade – Ali passa a trabalhar como segurança de supermercados –, evitando, com isso, esconder o peso que enfrentam. Ali irá seguir por um caminho em que o corpo é justificado para se obter cicatrizes e machucados em troca de dinheiro. A questão é que não sabemos se o segurança terá interesse em assumir a relação com Stéphanie, ou abandoná-la, como faz com quase todos que encontra.
Audiard explora muito bem esta estrutura básica de roteiro, nunca deixando os personagens completamente indispostos com seus caminhos. A domadora precisa voltar ao parque aquático para reencontrar a baleia no momento da sua vida em que ela se reconcilia com as sensações do seu corpo. É como se a baleia, que causou a sua dor presente, também fizesse parte do passado que, pelas suas pernas, não será recuperado. No entanto, Audiard mostra justamente que, ao se ver como no reflexo do parque aquático, a personagem está se vendo, também direcionando a baleia para o outro lado de sua vida. E, com discreção interessante, o diretor consegue estabelecer, por meio de Stéphanie, a necessidade de que a relação com Ali não se baseie apenas no instinto, ou na necessidade de preservar as sensações do corpo, mas também na proximidade não forçada por torpedos.

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Ferrugem e osso consegue, desse modo, lidando com vários elementos ao mesmo tempo, desde a sensação de perda e de reencontro, vincular o espectador de modo decisivo à trama. Que Cotillard se mostre uma atriz magnífica, em seus gestos contidos, no embate com o eu, desde o acidente, quando está na cama, também com o vazio do apartamento, interrompido por poucas visitas, é mais do que notável. Com Hawkes, em As sessões, ela consegue – também com a ajuda de efeitos especiais, que lembram aqueles utilizados em Gary Sinise, de Forrest Gump – compor um personagem que se mostra, a todo instante, desprovido de qualquer afetação. Se no início ela seduz Ali, em determinada altura ela reflete que não sabe mais o que seria a sensação da conquista. Impelida a falar mais por Ali, Stéphanie entende que a repressão e a angústia da completa mudança podem ficar resignadas apenas por um gesto de delicadeza (palavra que ela soletra para convencer Ali a agir de modo diferente). É justamente esta delicadeza e não a violência que move este belíssimo Ferrugem e osso para um lugar em que os personagens estão sempre cercados pela água e pelo contato seco com o corpo. É a água que pode conceder uma recuperação como pode abalar e congelar o corpo. Lutar contra a água é justamente o que fazem Stéphanie e Ali durante o filme de Audiard, e demonstrar que com ela se pode também limpar as feridas de uma briga. Na água, tanto os raios de sol podem criar uma sensação de sossego, como também manchas de sangue podem anunciar uma queda.
O diretor de Ferrugem e osso, por uma série de imagens à deriva, consegue delinear essa atração estranha entre os personagens. Ali  parece não querer aumentar sua família nem se estruturar, de fato, numa casa. Stéphanie tem, no entanto, o intuito de conseguir segurá-lo. Quando ela resolve tatuar na perna Direita, que é o movimento que indica à baleia no parque aquático, é como se ela precisasse também se direcionar para a margem, parecendo sufocada a maior parte do tempo por seus próprios sonhos interligados com a realidade. Ela avisa Ali de que ele pode se machucar ao insistir no que pretende realizar em sua vida; ele diz que ela não pode dizer isso depois do que aconteceu com ela. A larga esperança que cada um vê no outro é, na verdade, a expectativa de que não se repita o que pode ser perdido: a partir do momento em que ela se segura nos ombros dele, Ferrugem e osso mostra a fusão entre duas pessoas, o complemento que faltava para que possam caminhar.

De Rouille et D’os/ Rust and Bone, FRA/BEL, 2012 Diretor: Jacques Audiard Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Armand Verdure, Céline Sallette, Corinne Masiero Produção: Jacques Audiard, Martine Cassinelli, Pascal Caucheteux Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 120 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Why Not Productions / France 2 Cinéma / Les Films du Fleuve / Radio Télévision Belge Francophone (RTBF) / Lumière Pictures / Canal+ / Ciné+ / France Télévision / Centre National de la Cinématographie (CNC) / Vlaams Audiovisueel Fonds / Région Provence-Alpes-Côte d’Azur / Casa Kafka Pictures Movie Tax Shelter Empowered by Dexia / Département des Alpes-Maritimes / VOO / Page 114 / Lunanime

Cotação 4 estrelas e meia

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