Oblivion (2013)

Por André Dick

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Tom Cruise é um dos melhores atores de sua geração, como provam suas atuações em Nascido em 4 de julho, Rain man e Magnólia. No gênero de ficção científica, havia feito dois filmes marcantes com Spielberg, Minority Report e Guerra dos Mundos, mesmo com sua irregularidade. Por isso, com Oblivion, havia a expectativa de um filme pelo menos original. Desta vez, ele faz uma parceria com Joseph Kosinski, que coescreveu os quadrinhos em que o filme se baseia, diretor de Tron – O legado, habituado aos efeitos especiais, mas cuja sensibilidade tem dificuldade de ir além daquele universo que até agora retratou: o eletrônico e o robótico. Uma qualidade sua é que costuma se cercar de técnicos talentosos, e não é diferente aqui. A fotografia é de Claudio Miranda (que  ganhou o Oscar deste ano com As aventuras de Pi), o designer de produção de Darren Gilford (o mesmo do seu filme de estreia) tem algumas boas alternativas, embora, na maior parte do tempo, lembre outros filmes de futuro desolador, como o recente Prometheus, e a trilha da banda francesa M83 consegue manter certo ritmo com sintetizadores, fazendo o que o Daft Punk fez em Tron – O legado. E, na produção, temos até mesmo o nome de David Fincher (diretor de Seven e Millennium).

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Jack Harper (Cruise) se encontra em 2077 naquilo que sobrou da Terra, com Vika (Andrea Riseborough, transmitindo certa emoção, apesar de sua aparência glacial), tendo de cuidar de robôs de combate, os drones, que ajudam a proteger estações de água, produtoras de energia, e a controlar os alienígenas saqueadores, os quais destruíram a Lua e tentaram exterminar os humanos. Eles precisam cumprir essa missão de vigiar antes de irem para uma das luas de Saturno, para onde foram os humanos que restaram. Supervisionados diariamente por Sally (Melissa Leo), eles vivem numa espécie de purgatório em meio a nuvens, sobre a terra devastada por terremotos e tsunamis (um bom momento é quando Kosinski focaliza as ruínas de uma arquibancada de estádio em em meio às lembranças de Harper) e a única ligação estabelecida é aquela que envolve o conceito de equipe e, se há algum jogador prestes a desistir do time, pode ser sumariamente cobrado.
No entanto, Harper tem lembranças recorrentes do período pré-apocalíptico, todas com uma mulher (Olga Kurylenko) no alto do Empire State, que imagina se irá encontrar em determinado momento, e é obcecado por livros e pelo poema “The Lays of Ancient Rome”, de Thomas Macaulay. Esta primeira parte tem os momentos mais interessantes de Oblivion, e ele consegue se sustentar com razoável progressão até em torno de 50 minutos, mesmo sendo basicamente centrado na relação entre Jack e Vika. Quando ingressa o personagem de Morgan Freeman, um ator marcante quando tem um papel à altura, o filme, de forma surpreendente, cai de qualidade, e os diálogos, até então presentes mais em conversas de averiguação de área, mantendo certo suspense, tornam-se mais deslocados, sem estabelecer conexão entre as partes. Os novos personagens se estabelecem com dificuldade, devido à pouca sutileza do diretor, e começa a existir um salto de cena para cena, como se a cada momento iniciasse um novo filme, e, se o anterior já não satisfazia, o incômodo passa a ser presente. Nem mesmo o tom esperançoso e ecológico em algumas partes anima a trama.
Há uma compilação estranha de referências, e sabe-se que é difícil obter originalidade no cinema contemporâneo. Mas um filme como Oblivion, que mistura um excesso de filmes, partindo, inclusive, de imagens oferecidas por eles, desde O vingador do futuro e O exterminador do futuro, passando por Matrix e Eu sou a lenda, até Independence day e 2001 (procurando colocar robôs com luzes idênticas ao HAL 9000 e um gráfico final cuja pretensão equivale à do roteiro), parece indicar uma dificuldade ostensiva em dizer algo minimamente novo. Com poucas cenas de ação, a limitação fica mais evidente. Tom Cruise também anda de moto, evocando Top Gun, finge estar num estádio de beisebol com um boné, menção a Questão de honra, e procura resquícios de plantas (como uma espécie de Wall-E). Você vai encontrar muitos outros filmes aqui, e os spoilers irão proliferar dentro do próprio filme, antes da próxima sequência. É interessante, nesse sentido, que o roteiro tenha a colaboração de Michael Arndt (autor do divertido Pequena miss Sunshine), a quem coube a corajosa versão final.

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Em Encontro explosivo, sabíamos que Tom Cruise satirizava a si mesmo como Ethan Hunt; em Oblivion, a sátira não é evidente e a pretensão parece sintetizar a ficção científica dos últimos 40 anos, com uma homenagem ininterrupta durante suas duas horas, a última especialmente cansativa. Na parte final, quando o roteiro poderia apontar questões inusitadas e mesmo metafísicas para explicar as longas exposições do filme, parece se perder. É aí que apontam as principais falhas de Kosinski: ele não chega a ser um cineasta formado. É como se ele tentasse ainda esboçar ideias, mas elas só conseguissem alguma sustentação com orçamentos milionários, dedicado mais a compor histórias em que a humanidade é, particularmente, um detalhe, ou um acidente de percurso. A questão é que Oblivion persegue o sucesso e a aceitação a qualquer custo, sem sair por um segundo sequer do programa. Como filme, pode ser assistível; como cinema, é difícil saber o que acrescenta.

Oblivion, EUA, 2013 Diretor: Joseph Kosinski Elenco: Tom Cruise, Morgan Freeman, Nikolaj Coster-Waldau, Olga Kurylenko, Nikolaj Coster-Waldau, Zoe Bell, Melissa Leo, Andrea Riseborough, James Rawlings Produção: Joseph Kosinski, David Fincher, Peter Chernin, Ryan Kavanaugh, Dylan Clark, Barry Levine Roteiro: Joseph Kosinski, William Monahan, Michael Arndt, Karl Gajdusek Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: M83 Duração: 124 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Chernin Entertainment / Universal Pictures / Radical Pictures / Ironhead Studios

2  estrelas

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2 Comentários

  1. Parece que discordo de você. Não vejo tanta pretensão em ser um filme marcante por parte da direção, em algum momento ele disse que gostaria de mudar a história do cinema com seu filme? O cinema hollywoodiano também tem fábulas, não só super heróis.

    Responder
    • A impressão que fica é que Oblivion, por fazer referência a inúmeros filmes de ficção científica, além de não trazer nada de novo, pretende ser uma síntese. Além de sua tentativa de ser hermético, no que também não tem sucesso. Nesse sentido, acho sim que Kosinski quis fazer uma ficção diferenciada. Quanto a mudar a história do cinema, não exigiria isso dele, apenas um filme com a tentativa de trazer algum elemento minimamente original.

      Responder

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