No (2012)

Por André Dick

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O filme chileno No pode, à primeira vista, ser apenas um manifesto contra a ditadura de Augusto Pinochet, que ocasionou a morte e o desaparecimento de milhares de pessoas, entre outros problemas humanos e sociais. Quando se dá seu início, com um publicitário de ponta, René Saavedra (García Bernal), mostrando a criação de uma propaganda de refrigerantes a clientes, revela-se outra faceta: o pano de fundo será o universo da publicidade, e a influência que ela pode ter no comportamento das pessoas, inclusive em suas escolhas políticas. Com uma montagem excepcional, por meio de cortes de ambientes e diálogos, No se propõe como um filme ágil e moderno, mesmo com sua imagem antiquada, lembrando a de um filme mal conservado ou simplesmente filmado com precariedade (ele foi rodado com o sistema de vídeo U-Matic). Junto com esse elemento, que tanto pode aproximar ou afastar o espectador da narrativa apresentada, logo se vê que o diretor deseja mostrar o personagem como alguém leve, com seus devaneios diante da realidade e sua necessidade de fugir à burocracia dos escritórios e gabinetes.
Procurado, em 1988, para integrar a campanha do “Não”, ou seja, contra a continuidade de Pinochet no poder, no plebiscito que decidiria os rumos do país e criado para dar uma satisfação ao restante do mundo de que o Chile não vivia nenhuma ditadura ferrenha naquele momento, René hesita, mas aceita, com a condição de que poderá ganhar, e não simplesmente participar. Acompanhado do filho, Simon (Pascal Montero), e, esporadicamente, da ex-mulher, Verónica (Antonia Zegers), envolvida com lutas radicais, ele está, na verdade, cada vez mais sozinho e isolado, expatriado dentro da própria pátria. A própria maneira como vive, se não o desagrada, tampouco lhe traz um conforto, numa espécie de volta permanente à infância.

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O diretor Pablo Larraín mostra, a partir daí, todo o envolvimento de René, ex-exilado e filho de militante, mas que voltou ao país vivendo de forma plena, com a campanha e a necessidade de torná-la positiva, ou seja, sem enfocar exatamente nas mortes e nos desaparecidos em razão do regime militar. Torna-se importante, para René, mostrar uma espécie de propaganda de refrigerantes da Coca-Cola, com um clima, nas roupas e nas danças, de algum filme que evoque Footloose ou Flashdance, com seus néons e roupas coloridas e colantes, ou seja, evocando uma cultura mais ao norte, sem exatamente representar como se comporta o povo chileno. O diretor toma a opção de deixar a critério do espectador considerar se esse caminho é necessário para se combater um regime ou se um determinado caminho convém mais à população por ser mais sedutor, independente das propostas, ou se a publicidade realmente, de fato, é capaz de modificar o pensamento de boa parcela da população – nisso, com a ideia de que a propaganda, quando mal utilizada, ajudou a difundir alguns dos piores regimes e quando bem utilizada pode ajudar a derrubá-los. E o ponto-chave: que a propaganda está ligada a uma juventude ativa (e não as “velharias”, ou seja, as próprias ideias políticas, como René diz em certo momento, criando um conflito de campanha), e não por acaso René passa seu único tempo ao lado do filho, ou brincando com um trem de brinquedo no porão de sua casa e, para ir ao trabalho,  desliza entre os carros com seu skate, apesar de ter um carro guardado na garagem.
Em No – terceira parte de uma trilogia do diretor, que teve antes Tony Manero e Post Mortem, e indicado de forma justa ao Oscar de melhor filme estrangeiro –, esse personagem central ganha mais envolvimento pela interpretação de Gael García Bernal, que foi perdendo alguns maneirismos com a idade e se tornou, de certo modo, num ator bastante satisfatório. Mesmo no duelo particular com o seu chefe, Lucho (Alfredo Castro), responsável pela campanha do “Sim”, ele consegue se sair bem, além daqueles momentos esquemáticos de perseguição noturna por inimigos quase invisíveis ou na sua relação conturbada e mal desenvolvida com a ex-mulher (reservando uma ligação inesperada com a própria campanha feita).

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O diretor acerta, porém, em mostrá-lo como um personagem frágil e mesmo sem força de enfrentamento, pela própria temeridade que a política chilena despertava naquele momento, com o simples perigo de andar nas ruas a serviço de um ideal contrário ao do governo. Sem nenhum envolvimento exatamente político, ideias referentes a ideologias são jogadas em conversas de todas as escalas, sem nenhum posicionamento específico dos personagens, quase apolíticos (a ideia central é derrubar Pinochet e seu regime, independente de quais ideias entrarão em seu lugar).
Com diversos lances de montagem, utilizando-se imagens reais, e conflitos com participantes da campanha, que desejam mais seriedade e menos propaganda de fato, o filme se anuncia como semidocumental. Em poucos momentos, tem-se a impressão que os atores estão atuando – e todos eles, sem exceção, são excelentes. Na maior parte do tempo, é como se estivéssemos vendo reuniões e filmagens verídicas, contribuindo para o envolvimento, algo que Ben Affleck tentou fazer em Argo, sem conseguir.
No entanto, parece que Larraín incorre na repetição excessiva de propagandas e da fixação das ideias de campanha (incluindo seus jingles, chavões e frases de efeito), colocando, aí, pelo menos em torno de 10 minutos de excesso, extraindo certa energia do filme, mais ao final (mesmo com as tentativas cômicas e a curiosidade de alguns depoimentos referentes ao “Não” da época). Ainda assim, a reconstituição de época é convincente e as cenas alternando imagens reais com outras filmadas convence. Mesmo a simples camiseta que René utiliza da Copa do México de 1986 ajuda a situar o espectador numa espécie de transição em que a população sai às ruas para escolher também um novo palco de encontro. Apesar de não ser especialmente memorável ou inovador dentro do gênero a que se propõe, No pode ajudar na avaliação não apenas de um período, mas do comportamento frenético e decisivo de um país durante uma eleição e entrega uma narrativa no mínimo instigante e possivelmente referencial para outras obras.

No, Chile, 2012 Diretor: Pablo Larraín Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Luis Gnecco, Marcial Tagle, Diego Muñoz, Manuela Oyarzún, Jaime Vadell Produção: Daniel Marc Dreifuss, Juan de Dios Larrapin, Pablo Larraín Roteiro: Pedro Peirano Fotografia: Sergio Armstrong Trilha Sonora: Carlos Cabezas Duração: 110 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Canana Films / Fabula

Cotação 3 estrelas e meia

 

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