O voo (2012)

Por André Dick

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Demasiada carga leva o diretor Robert Zemeckis, depois de receber o Oscar de melhor filme e diretor por Forrest Gump em vez de Tarantino e seu Pulp Fiction. Zemeckis é, antes de tudo, um artesão descoberto por Steven Spielberg sobretudo depois de sua joia Febre da juventude, em homenagem aos Beatles, e que nos anos 80 voltou a capturar parte da juventude e da infância na trilogia De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, projetos de ponta. Se depois de Forrest Gump, o diretor só voltaria a acertar novamente em Contato e Náufrago, dedicando-se por um tempo a animações um tanto desajeitadas (como O expresso polar e Beowulf), desta vez ele retoma a agilidade da ação exibida em seus melhores momentos nos anos 80 e 90 em O voo, o filme que também marca a maior atuação de Denzel Washington desde Dia de treinamento, pelo qual recebeu o Oscar de melhor ator.
Ele interpreta Whip Whitaker, um piloto de avião movido a drogas, cocaína e álcool, principalmente (daqui em diante, possíveis spoilers). Inicia-se o filme com ele dividindo a cama com uma aeromoça, Katerina Márquez (Nadina Velazquez), colega de trabalho, num hotel perto de um aeroporto. Com voo marcado para a manhã, Whitaker não parece tão alterado como deveria, apesar do copiloto, Ken (Brian Geraghty), e de outra aeromoça, Margaret (Tamara Tunie), perceberem algo estranho. Depois de enfrentar uma tempestade na decolagem, o percurso fica mais tranquilo, até o surgimento de um problema técnico. Zemeckis filma esta sequência com perícia, colocando o espectador no meio de uma manobra arriscada para Whitaker tentar salvar sua tripulação. Com o feito realizado, ele acorda numa cama de hospital, sendo logo cercado por policiais e por Charlie (Bruce Greenwood), amigo que trabalha no Sindicato. No hospital, além de receber a visita do amigo traficante Harling Mays (John Goodman, divertido), ele conhece Nicole (Kelly Reilly), cuja ação na primeira parte divide as atenções com as manobras de Whitaker. É esse encontro entre os personagens que Zemeckis pretende filmar e o que o personagem precisa perder para que haja um reencontro com a sua fazenda de infância. Diante do seu estado físico e emocional, ele precisará explicar, com a ajuda do advogado Hugh Lang (Don Cheadle), como conseguiu pilotar se estava sob efeito de drogas. E, aos poucos, como o personagem de Tom Hanks, em Náufrago (com o qual O voo, não só pelo diretor, tem semelhanças, também por seu início), ele irá valorizar determinadas coisas para as quais não dava importância.

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A princípio, O voo está situado num limiar entre a investigação de um acidente e a procura de provas, de ambos os lados, do sindicato e da National Transportation Safety Board (NTSB), que investiga a ação dos pilotos, para se provar ou negar determinadas situações examinadas, e a compreensão de que o personagem de Washington tem problemas alcóolicos que o imobilizam tanto diante de uma nova relação quanto com sua família, que não deseja vê-lo. Parece ser apenas uma recorrência a velhos clichês, mas Zemeckis não verte isso de maneira fácil e o personagem sendo um piloto de avião não se apresenta de maneira tão óbvia. O diálogo entre Whitaker, Nicole e um jovem acometido pelo câncer na escadaria do hospital é especialmente bem construída, com suas peças sendo jogadas aos poucos, até que se convença o espectador sobre cada personagem. No meio de toda sua situação pessoal trágica, encontra-se a crença ou não em Deus e na religiosidade.
Whitaker tenta convencer a todos que só ele poderia realizar a manobra feita e que dependeu apenas de si mesmo, sem nenhuma ajuda divina. Os laudos técnicos lhe dão razão. Mas como Whitaker pode entrar numa reunião de alcóolicos anônimos se ele, na verdade, se considera um herói inatingível, capaz de superar tudo o que pode ser crença pessoal, mesmo independente da religião? É esta medida que o roteiro de John Gatins, indicado ao Oscar, faz de maneira sensível. Neste sentido, O voo não está centrado apenas numa cena jurídica, que pode inocentar ou culpabilizar o personagem central, e sim numa cena de dilemas, ética e crença naquilo que não pode ser rapidamente entendido e no vício que não pode ser enfrentado sem o enfrentamento pessoal e do que ele mesmo próprio acredita (lamenta-se que, nesta etapa, a participação de Kelly Reilly diminua).

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Washington atua de modo excepcional como Whitaker, revelando minúcias e relutâncias de um verdadeiro personagem, pois O voo é um estudo sobre seus movimentos e sobre sua percepção da realidade. Ele é um ator completo num momento especialmente talentoso: seu trabalho com o olhar, demonstrando sua insegurança e angústia, e, ao mesmo tempo, sua raiva contida, é apenas para grandes performances. Num ano com Day-Lewis e Phoenix em grande forma, Washington mostra que não fica nada a dever, construindo um personagem enigmático. Não se trata exatamente de um personagem exatamente confiável, mas com falhas, com problemas na relação com o filho e a ex-mulher e na sua dificuldade de lidar com o que deve ser revisto na sua passagem pelo avião antes do acidente, o que faz com que o espectador se aproxime dele – e em momentos cruciais passe a querer que ele de fato consiga se estabelecer de forma mais equilibrada, sem que isso soe afetado. Sua tentativa de se inserir no meio político para tentar fugir de suas responsabilidades e suas relações atribuladas com o advogado que tenta representá-lo do melhor modo, e no entanto é ignorado quase sempre em cena, são algumas das características que se inserem no trabalho de Zemeckis para demonstrar que na verdade estamos diante de um personagem absolutamente solitário, mas por seu próprio desinteresse em se modificar diante de seu passado.
Lamenta-se apenas que O voo não desenvolva alguns relacionamentos e personagens da melhor forma e insista, ao final, com uma espécie de mensagem para tudo o que aconteceu, menosprezando um pouco a compreensão do espectador e sua liberdade de imaginar que o personagem de Whitaker não é um molde feito para indicar determinados caminhos ou não. Este final é apontado, de fato, como seu grande problema. No entanto, não apaga o que vem antes: O voo é um filme dramático, com ótimo elenco, capaz de prender a atenção e mesmo apresentar uma discussão interessante por trás de sua narrativa.

Flight, EUA, 2012 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velázquez, Tamara Tunie Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis Roteiro: John Gatins Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Duração: 138 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Paramount Pictures / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia

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